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Número 801,

Sociedade

Caribe

“Vivo como pobre, viajo como rei”

por Francisco Colaço Pedro — publicado 03/06/2014 04h36, última modificação 03/06/2014 05h33
O tcheco Rudolph Krautschneider, sua fascinação pelo mar e sua vida de aventuras. Por Francisco Colaço Pedro
Francisco Colaço Pedro
Caribenha

O tcheco Rudolph Krautschneider tem uma réplica do Victoria, nal de Fernão de Magalhães. Com ela, repetiu a circum-navegação realizada em 1522

“Todos os dias abrimos um porão e sai um novo segredo. Há um sem-fim de lendas sobre este barco, é como um grande segredo que desvendamos pouco a pouco.” Entre mapas, cartas e fotos, Vincent entusiasma-se. Quando, há um ano, navegava na Baía do Marin, este educador martiniquês mal podia acreditar no “enorme barco de piratas”. “Há mais de um ano estava ancorado aqui, sem navegar. Deu-me pena existir algo tão belo e não se fazer nada de bom com ele.” Vincent decidiu procurar o proprietário e descobriu Rudolph Krautschneider, um misterioso navegador e escritor do Leste da Europa que viria a lhe confiar o barco.

O Victoria repousa no mar caribenho depois de refazer a Rota de Magalhães entre 1999 e 2004. Karol vem da Polônia e sobe pela primeira vez ao convés. “Vocês olham e dizem ‘uau!, que lindo barco’. Mas para nós, polacos e tchecos, é uma lenda”, diz entusiasmado o jovem skipper. “Qualquer um ligado à navegação ouviu falar do Victoria, de Ruda, como é carinhosamente conhecido, e dos seus amigos polacos que tornaram esse sonho realidade. Ruda, um tcheco louco, é uma dessas almas inquietas, sempre em busca de desafios.”

“Não vejo impossibilidades na vida”, conta Ruda. “Vivo num incrível mundo de fantasia rodeado de um excelente amigo, o mar.” Custa a crer, mas ele cresceu em um país sem costa antes de se tornar uma lenda dos mares. Barba grisalha, olhos azul-brilhantes como o oceano, pele vincada pelos ventos, deu várias voltas ao mundo. É um dos raros velejadores vivos a ter circum-navegado a Antártida. Construiu mais de uma dezena de barcos, escreveu outros tantos livros. É lenhador. “Desde criança lia tudo sobre navegação e fiquei fascinado com a primeira viagem à volta do mundo. Fernão de Magalhães é o navegador número 1 do mundo. Morreu no Pacífico, no meio da viagem, mas a ideia foi sua.”

Ruda quer cruzar o Atlântico em uma jangada fabricada a partir de técnicas antigasEm 1994, nas montanhas tchecas, Ruda, com o apoio de amigos e voluntários, serrou árvores e começou a construir a réplica do Victoria, único navio da frota de Magalhães a regressar à Espanha em 1522. “Nesta era da tecnologia, em que tudo tem de ser rápido, queria um barco que navegasse lentamente e por muito tempo.” Em 1999, o Victoria partiu da Polônia com uma tripulação cheia de sonhos e sem experiência, para só regressar cinco anos, 20 mil milhas e incontáveis aventuras depois.

O projeto seguinte era refazer a segunda circum-navegação do planeta, de Francis Drake. O barco foi rebatizado como Victoria Golden Hind e voltou a largar amarras. Mas enfrentou vários problemas e ficou preso na Martinica. “Foi um barco feito para os jovens. Gostaria que a viagem não acabasse nunca, que outros depois de mim o tomassem como seu”, recorda Ruda.

E aí apareceu Vincent. “Tivemos muita sorte”, afirma Davina. A jovem espanhola conheceu Vincent quando chegou a Marin e, a exemplo de Karol, vive a bordo do Victoria. O barco alberga viajantes aventureiros em troca de serviços na manutenção e restauro. “A ideia de Ruda era viajar para encontrar pessoas. Hoje o Victoria não pode navegar, mas tornou-se ele mesmo um lugar de encontro entre seres humanos. Continua a viajar.” A bordo, concertos e projeções de filmes atraem aventureiros. “Vivamos tranquilos, vivamos escondidos. Piratas até ao fim”, brada entusiasmado Vincent.

A fama do Victoria espalha-se rápidamente. Belgas, italianos, americanos, alemães sempre aparecem para oferecer trabalho em troca de acomodação. Uns esperam carona para a América do Sul, outros pretendem velejar pelo mundo. Davina e Vincent acabam de comprar um pequeno veleiro e em breve pretendem largar as amarras e enfrentar o oceano. “Viver neste barco inspira-me muito. Existem os limites da natureza e aqueles impostos por você mesmo. Podemos fazer o que quisermos, ir para onde desejarmos”, discursa Davina.

“Tenho sempre planos para o mar”, diz Ruda. Os anos passam por ele sem apaziguar a ousadia juvenil. O tcheco está prestar a concluir uma jangada a partir de uma enorme árvore cortada por ele mesmo: “É uma embarcação muito primitiva. Quero partir de Portugal e atravessar o Atlântico. Demonstrar que os povos primitivos também o podiam ter feito. É uma boa forma de celebrar meus 70 anos”.

Determinado a utilizar o poder da vela como terapia, há 20 anos sai ao mar com tripulantes e passageiros dispostos a superar a dependência de drogas ou com grupos de crianças órfãs. Construiu diversas embarcações, hoje espalhadas pelo mundo. “Um barco não pode ser privado. Faço um barco, mas não é meu, é para o mar. A propriedade limita a nossa vida. Vivo como pobre, mas viajo como um rei.

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