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Número 800,

Economia

Análise / Paul Krugman

Vítimas da Zona do Euro

A dívida elevada da Itália é um legado de políticas antigas e não resultado da adoção do euro e dos baixos custos dos empréstimos
por Paul Krugman publicado 20/05/2014 05:58
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Matthew yglesias, da Vox, escreveu recentemente um artigo muito bom sobre a história da Zona do Euro, no qual explica que uma combinação de intervenção financeira custe o que custar e compromisso político estabilizou a situação financeira, mas a economia e os desempregados sofreram terrivelmente.

Mas mesmo ele é de certa forma levado pela intensa propaganda que retrata a crise como principalmente fiscal. Diz que a adoção do euro, e os resultantes baixos custos dos empréstimos, levaram a “orçamentos irresponsáveis” na Itália.

Desculpe, mas não (e quando se trata de questão fiscal você sempre tem de verificar os números pessoalmente, e não confiar no que todo noticiário parece dizer). A dívida elevada da Itália é um legado de políticas implementadas há muito tempo. A posição da dívida do país melhorou nos anos de ascensão do euro, e só piorou novamente há pouco tempo, por causa da crise econômica.

Na realidade, esta é a lista completa de países para os quais o argumento de que a irresponsabilidade fiscal levou à crise do euro tem algum sentido: Grécia. A Espanha e a Irlanda foram modelos de responsabilidade fiscal de 2000 a 2007, ou pelo menos assim parecia, e a Itália não estava muito mal. Se imaginar de outro modo, se ouviu que a irresponsabilidade fiscal era mais disseminada que isso, culpe a má reportagem.

O economista Dean Baker, reagindo em seu blog a um recente artigo de Neil Irwin no New York Times sobre a ameaça de deflação na Europa, sente que precisa defender a tese perene de que a inflação zero não é uma espécie de Rubicão econômico. A inflação abaixo da meta já é um problema, e muito sério, para países que não têm uma maneira fácil de oferecer estímulo econômico.

Suponha que um país tenha uma meta de inflação de 2%, mas seu banco central já cortou as taxas de juro perto de zero e a inflação está em 1% e caindo. Esse país já experimenta um processo cumulativo que o colocará mais no fundo da armadilha, a menos que tenha sorte.

Enquanto a inflação cai, as taxas de juro reais subirão, tendendo a deprimir a economia ainda mais. Os devedores também verão sua dívida crescer, porque a inflação não é tão alta quanto eles esperavam, de modo que o país teria um ciclo de dívida-deflação mesmo que ainda não tivesse deflação. Por isso a inflação baixa e em queda na Europa não é um problema, porque poderia se transformar em deflação. É um problema por causa do que está fazendo neste momento.

Na Suécia, a economia está realmente à beira da deflação, mas as autoridades dizem que não importa, porque a produção está crescendo. O banco central tem uma meta de inflação? A economia pode se expandir parte do tempo, mesmo que a inflação esteja abaixo da meta, mas como a taxa de inflação está baixa não há muito espaço para reagir a choques adversos. Por isso sair da meta é um fracasso de políticas, sejam quais forem os atuais indicadores da produção.

De volta à Zona do Euro: o problema não é que algo pode dar errado, mas de que já deu errado. Os riscos não são simétricos. Controlar a inflação pode ser doloroso, mas sabemos como fazê-lo. Sair da deflação ou da baixa inflação é realmente difícil, e é por isso que deve ser evitada.

Jonathan Chait, da revista New York, publicou uma extensa crítica à reação do Painel All-Star da Fox News à nova Avaliação Climática Nacional para os Estados Unidos. Chait cita o colunista conservador Charles Krauthammer, que rejeitou o consenso científico porque “99% dos físicos estavam convencidos de que o espaço e o tempo fossem fixos, até que Einstein, trabalhando em um escritório de patentes, escreveu um trabalho em que mostrou que eles não são”.

Como nota Chait, essa lógica nos levaria a rejeitar toda a ciência. Talvez amanhã alguém escreva um trabalho mostrando que a teoria de que os germes causam doenças está errada, então por que se preocupar em esterilizar os instrumentos no hospital?

Einstein mostrou que o espaço e o tempo eram conceitos relativos. Mas não mostrou que tudo o que os físicos tinham feito até aquele ponto estava errado. A física clássica foi um campo incrivelmente útil e bem-sucedido, e quase nada do que disse teve de mudar diante da relatividade. Se tivéssemos um equivalente a Einstein na ciência do clima, ele ou ela descobriria que os modelos existentes estavam certos em 99,9% do que afirmam, embora sob condições extremas pudessem ser enganosos.

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