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Número 800,

Cultura

Livro

O humor soviético

por Elias Thomé Saliba — publicado 30/05/2014 04h32, última modificação 30/05/2014 05h06
Os soviéticos contaram piadas até sob o stalinismo, que também usou o recurso para popularizar o regime. Por Elias Thomé Saliba
Reprodução
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O cerco às piadas que mandou 200 mil ao Gulag, por Will Moese, 1970

O primeiro-secretário ouve gargalhadas atrás da sala do tribunal, abre a porta e vê o juiz se contorcer de rir. “Qual é a graça?”, pergunta. “Acabei de ouvir a melhor piada de minha vida”, diz o juiz. “Conte”, pede o secretário. “Não posso”, retruca o juiz. “Acabei de condenar uma pessoa a cinco anos de trabalhos forçados por isso.” Esta cena é descrita em anedota da União Soviética stalinista, mas poderia ser real. Quando Josef Stalin morreu, em 1953, havia cerca de 2,5 milhões de presos no Gulag, quase 200 mil por contarem piadas. Os acusados foram processados por “propaganda antissoviética”, que incluía insultos, observações espontâneas, pragas rogadas, pichações, panfletos e até piadas. Era proibido não apenas contar piadas, mas também ouvi-las ou anotá-las.

Ainda assim, de Lenin a Gorbachev, desenvolveu-se uma variada cultura cômica no mundo comunista, em torno de filas, escassez de alimentos, culto de personalidade, propaganda, burocracia estatal e teorias marxistas. As piadas brincavam com o caráter dos líderes, de Stalin a Gorbachev, e cobriam grande número de eventos, inclusive o Grande Terror e o Gulag, a invasão da Tchecoslováquia e da Hungria, o Sputnik e Chernobyl. Esta é a história brilhantemente narrada pelo historiador e jornalista inglês Ben Lewis em Foi-se o Martelo – A história do comunismo contada em piadas (Record, 432 págs., R$ 57), um dos mais completos relatos culturais do humor soviético.

Os historiadores sempre disseram que o comunismo rejeitava a liberdade de expressão, mas Lewis mostra que não era bem assim. Desde o início, a batalha não era entre humoristas e um regime sem humor, mas entre dois lados que, cada um com sua piada tática, lutavam no terreno do riso. Os estudiosos do humor provavelmente estavam certos quanto à proliferação e à criminalização do escárnio, mas os contadores de piadas não combatiam um regime que não ria. Em vez disso, havia dois lados, cada um com um estilo diferente de humor. Também não havia uma linha divisória clara entre eles. Stalin ria do mesmo tipo de piada que seus oprimidos. E o Estado soviético parecia acreditar que, se os compatriotas contassem o tipo certo de piada (e isso excluía aquelas sobre Stalin ou sobre o partido), então se tornariam mais abertos ao comunismo. A ideia de que as piadas revelavam uma ampla oposição popular ao regime foi, provavelmente, um mito espalhado pela propaganda norte-americana, com o estímulo de ressentidos exilados soviéticos do Pós-Guerra.

Stalin até mesmo incentivou o humor oficial, sobretudo por meio de Boris Iefimov, responsável pelas mais famosas charges sobre o capitalismo e o imperialismo norte-americano no jornal Pravda. Mas, em 1938, Iefimov exagerou numa caricatura de Stalin e foi defenestrado. Retornou ao Pravda em 1949, quando o líder chegou a intervir na produção das charges, e sugeriu literalmente, para uma sobre o presidente Eisenhower, que Iefimov “exagerasse no tamanho do desenho da bunda do americano”.

O comunismo foi o único sistema político a ter criado um filão próprio de comédia, definido pelo entusiasmo dos consumidores e pelo constante suprimento de piadas. “Qual a diferença entre Stalin e Roosevelt?”, perguntava uma delas. “Roosevelt coleciona as piadas que as pessoas contam sobre ele e Stalin coleciona as pessoas que contam piadas sobre ele. Disse Simon Vilensky, sobrevivente do Gulag: “As anedotas eram o nosso modo de dizer a verdade. Eu conheci gente nos campos de trabalhos forçados que havia sido presa só por ouvi-las”.

Tal cultura, contudo, refluiu no nazismo. Foi como se os russos, em reação à invasão alemã em 1941, parassem de contar piadas sobre si e se unissem para zombar do inimigo. Ao comparar a cultura de piadas entre comunistas e nazistas, chegamos a um dos capítulos mais reveladores da história do humor, com piadas de sinal trocado, como esta: “Estamos no fim da guerra. Num campo de concentração, dois judeus são condenados ao paredão. Mas, no dia da execução, um guarda informa que a sentença foi alterada para enforcamento. ‘Que sorte’, diz um judeu para o outro. ‘As balas estão acabando’”. Na versão nazista, a falta de balas sugere a iminente vitória aliada, mas, na correspondente comunista, é uma piada sobre a escassez de produtos.

Intérpretes sisudos consideram haver apenas uma coletânea genérica de piadas, eternamente repetida pelos resistentes ao totalitarismo. A comparação da pesquisa de Ben Lewis com a de Rudolf Herzog sobre o humor nazista (Rudolf, filho do cineasta Werner Herzog, é autor de Dead Funny – Telling Jokes in Hitler’s Germany, Melville House, 2011, ainda não traduzido no Brasil) mostra o equívoco de tais interpretações. Excluído o riquíssimo repertório judaico, a cultura de piadas nazistas dos alemães era muito mais pobre, sem alvos políticos, esporádicas na ocorrência, fracas no conteúdo ideológico. O que reforça a estarrecedora conclusão dos historiadores de que grande parte da população alemã era simpatizante do nazismo.

“Qual a diferença entre um dissidente soviético e um agente da KGB? O dissidente inventa as piadas, o agente da KGB as espalha.” Como toda anedota, essa pegadinha explicava a razão pela qual, sob Kruchev, pararam de prender os contadores de piadas. Era inútil contê-las. Se um funcionário da KGB ouvisse alguma, tinha de descrevê-la num relatório entregue aos superiores, que o repassavam aos secretários-gerais. O resultado é que mais de 50 burocratas conheciam as piadas e iam contar aos familiares e amigos. Era impossível conter o humor, inerente à comunicação humana, sobretudo porque acabava reciclado e divulgado pelos próprios apparatchiks (integrantes do aparato estatal).

A pesquisa de Lewis foi incansável. Ele percorreu arquivos, entrevistou personagens de todas as épocas, visitou a Romênia, a Hungria, a Polônia e a Tchecoslováquia. As piadas húngaras e polonesas eram simpáticos pastelões, as stalinistas, de um cinismo impiedoso, mas as romenas, sob Nicolae Ceausescu, no seu misto de luto e crueldade, surgiam insuperáveis. “Quando foram lançadas as fundações da economia romena? Nos tempos bíblicos. Jesus foi colocado na cruz, mandaram que ele abrisse os braços e bateram um prego em cada mão. Então disseram: ‘Por favor, cruze os pés. Só tem mais um prego’.”

Para alguns historiadores, a cultura de piadas teve papel importante na destruição do comunismo. O guru involuntário dessa corrente é o escritor George Orwell, que em 1945 escreveu: “Toda piada é uma pequena revolução”. Como sempre, a frase foi tomada fora de contexto. Com riqueza de exemplos, Lewis mostra que não aconteceu exatamente assim. Quando vieram a glasnost de Gorbachev, o polonês Solidariedade e os protestos dos anos 1980, as piadas estagnaram. Em certo momento, para dar um passo à frente, todos decidiram parar de brincar.

As velhas piadas comunistas, com forte senso de tragédia, ainda nos beliscam. Talvez porque uma parte de nós se identifique com os sofrimentos dos soviéticos, que pagaram pelo sonho de muitos. E se as piadas continuam boas é porque atrás delas deve brilhar uma esperança. Naturalmente, a distância temporal faz com que muitas não sejam engraçadas. Mas quem estuda a história cultural do humor não investiga propriamente o que nos faz rir, antes o porquê de rirmos. Os usos sociais e não o conteúdo das piadas definem a cultura cômica. Piadas não são feitas apenas para rir, mas para criar distância, sair de dentro de nós mesmos e visualizar, mesmo brevemente, o sublime momento do riso, nossa própria impotência associada à nossa própria humanidade.

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