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Número 800,

Sociedade

São Paulo

Fala que eu te escuto

por Fábio Fujita — publicado 19/05/2014 05h14, última modificação 19/05/2014 05h38
Uma jovem oferece um dedo de prosa a quem passa pela Avenida Paulista. Por Fábio Fujita
Fabio Fujita
Paulista

Solitários ou em grupo, muitos pedestres aceitam o convite

No quarteirão da Avenida Paulista entre as ruas Augusta e Frei Caneca, coração da cidade de São Paulo, uma infinidade de artistas amadores tenta, cada um à sua maneira, chamar a atenção. Há os hippies que vendem colares de miçangas, os covers de Michael Jackson e Elvis Presley, bailarinas, mensagens nas paredes do terrorismo poético, estátuas vivas, caricaturistas, seresteiros, guitarristas. Desde janeiro, talvez ninguém desperte, porém, mais curiosidade do que uma moça de 22 anos. Menos pelas ruivíssimas madeixas de pontas rosa-choque, mais por sua “performance”. Sentada no centro da calçada em frente ao famoso Conjunto Nacional, Mariana Schettino expõe uma cadeira de praia e um colorido cartaz-convite escrito com uma simpática caligrafia: “Vamos conversar? Sente-se comigo!”

Um convite para conversar? A suposta banalidade da proposta costuma deixar os pedestres atônitos. Há quem fique prostrado diante da jovem, lendo e relendo o cartaz, como se a existência de alguém que nada quer além de um dedo de prosa não pudesse ser algo real. Com frequência, os cidadãos sacam seus celulares para registrar o improvável convite.

Mariana quer de fato conversar. Capixaba de Vitória, ela mudou-se para São Paulo em dezembro de 2013. Formada em Turismo, veio na esteira do irmão mais velho em busca de emprego e de uma pós-graduação. Apaixonada por pintura, sempre gostou de manipular seus pincéis e guaches, enquanto trocava ideias com amigos e conhecidos. Ou seja, seus interlocutores são a inspiração de seu processo criativo. “Minha arte se expressa através das conversas.”

A chegada à selva metropolitana, depois de uma vida inteira no Espírito Santo, lhe causou estranhamento, sobretudo no convívio social. Antes de conseguir o atual emprego em uma empresa de sustentabilidade, Mariana andou bastante pela cidade. O que só lhe aflorou a sensação de que, em São Paulo, ninguém se olha. “Mesmo numa livraria, ninguém troca um olhar, uma palavra. Eu ficava ‘viajando’ nisso”, conta. “As pessoas não param para conversar umas com as outras, a não ser se for com alguém que você conhece, ou que te interesse de alguma forma, romântica ou profissionalmente.” Não que isso seja uma exclusividade paulistana: na maior cidade do Brasil, essa característica só ficaria mais evidente por ter gente demais. Ela crê que a era digital potencializa uma falsa sensação de conexão global, ao passo que a conexão verdadeira, “da forma tradicional que sempre foi”, perdeu-se. “As pessoas acham natural você abordar um desconhecido numa rede social, mas estranham puxar papo com alguém na rua. Não consigo entender o motivo.”

Ao unir as duas pontas, a necessidade de interlocução para sua arte e a vontade de criar um paliativo particular para essa esquizofrenia social, Mariana teve o insight de passar suas tardes de sábado a bater papo, enquanto desenha, naquele ponto da Paulista. Mariana ri de quem a critica por não “ganhar nada” com isso. “Ganho muita coisa, as histórias, carinho, tudo o que aprendo e o que sinto quando me vejo útil a alguém.” De velhinhos a crianças, de verborrágicos a caladões, Mariana interagiu com todo tipo de gente. Alguns mendigos também se aproximaram, mas não a ponto de se sentarem na cadeira de praia que ela coloca à disposição do eventual interlocutor, possivelmente por não se considerarem dignos para tal. Mas a uma distância respeitosa, um deles não resistiu e elogiou a iniciativa. “As pessoas precisam muito disso”, comentou o homem. Mariana o presenteou com uma de suas pinturas, e o mendigo soube ser grato. “Quando eu tiver uma casa, vou pendurar na minha parede”, prometeu.

O fato de se instalar em uma via pública de grande movimento munida de pincéis, tintas e a disposição para uma conversa nunca fez com que a jovem capixaba tivesse medo ou se sentisse exposta a algum tipo de risco. Mas a verdade é que, invariavelmente entretida com seus “convidados”, ela parece ter criado uma espécie de realidade paralela. No sábado 5 de abril, papeando com uma turma de interlocutores que se formara de modo espontâneo em seu entorno, ela nem sequer percebeu a presença de um sujeito visivelmente transtornado a 10 metros de distância, que precisou ser imobilizado no chão pela equipe de seguranças do Conjunto Nacional. Naquele instante, estava ocupada demais com qualquer outra coisa que não fosse transformar em traços delicados o que o rapaz sentado na cadeira lhe contava. Na praia de Mariana, a vida é menos hostil.

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