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Número 800,

Sociedade

Som da imagem

Um prelúdio a Burarama, a Macondo brasileira

por Oliviero Pluviano — publicado 18/05/2014 06h38, última modificação 19/05/2014 10h12
Hoje Capitão Enéas (MG), era como a cidade imaginária de "Cem Anos de Solidão"
Oliviero Pluviano
Som

Como numa tela de Goya, a fera sangra na Plaza de Ronda

A foto é um pouco velha e fora de foco, mas retrata, como em um quadro de Goya, toda a tragédia da “corrida” com um touro sangrado pelas banderillas e pela ação odiosa do picador a cavalo. Esta imagem é de 30 anos atrás, na Plaza de Toros de Ronda, capital dos pueblos blancos andaluzes. Eu não gosto das touradas, mas é preciso reconhecer a coragem incomum dos toureiros que enfrentam os chifres daquela fera bravia que pode chegar a pesar 680 quilos de músculos e ferocidade.

Reparei nisso quando visitei a criação de miúra, a raça mais famosa, perto de Lora del Rio, entre Sevilha e Córdoba, ao longo do Rio Guadalquivir. Estava encostado em uma cerca, enquanto um trabalhador da ganaderia me contava que hoje é impossível criar touros bravos fortes como no passado: não existem mais terras extensas o bastante para forçar um touro a trotar o dia inteiro das manjedouras de pedra onde é alimentado até o rio para matar sua sede, cuja distância deveria ser, no mínimo, de 40 quilômetros. De repente, um bezerro miúra de poucos dias, ainda sem chifres, saiu do nada e me desafiou, batendo repetidamente a cabeça contra a cerca e bufando pelas ventas.

Tomei um grande susto e, ao me afastar, vi seus olhos esbugalhados me encarando com uma violência indomável. Que cojones (perdão pelo termo espanhol) devia ter Juan Belmonte (1892-1962), talvez o maior “matador” de todos os tempos, quando, na adolescência, se despia à noite para atravessar a nado o Guadalquivir e ir tourear escondido nas fazendas dos toros de lídia: nu sob a luz da lua, só tinha na mão a muleta, o pano vermelho típico da tauromaquia.

Chupeta não era Belmonte, mas não fazia feio. Era um toureiro vestido de palhaço em um circo pobre armado na antiga Burarama, hoje Capitão Enéas, um povoado mineiro ao norte de Montes Claros, onde minha esposa passou a infância. A praça de touros circense era montada com simplicidade, com uma lona que rodeava a arquibancada de madeira em volta de uma arena cercada por arame, para resistir às investidas dos touros, bois e vacas mais bravos da região.

Chupeta toureava com estilo. Costumava se aproximar do touro e, depois de cansá-lo, encostava sua cabeça na do perigoso animal. Em seguida plantava bananeira diante do nelore, e terminava montando nele arrancando os aplausos do público, em pé, que gritava “olé!’ Aos domingos uma mesa repleta de iguarias era montada no meio da arena. Os touros eram soltos e os espectadores convidados a participar do banquete. Alguns até conseguiam pegar no ar uma coxa de frango, perseguidos por vários pares de chifres furiosos e pelas risadas da plateia.

Burarama era uma Macondo brasileira, a cidade imaginária imortalizada pelo recém-falecido García Márquez no livro Cem Anos de Solidão, que teria sido muito apreciada por Flausino Vale (1894-1954), o “Paganini mineiro”, como era chamado por Villa-Lobos. Em seus 26 Prelúdios para violino-solo revela as origens da música brasileira, das raízes folk do Sertão às danças marcadas por rabecas e violas caipiras. O seu Prelúdio Nº 7, intitulado Ao pé da Fogueira, era um dos bis favoritos de Jascha Heifetz (YouTube), um dos maiores violinistas do mundo no século XX: os críticos americanos e europeus quebraram a cabeça tentando descobrir o autor daquela animada, porém misteriosa peça, jamais supondo que provinha das serestas e vaquejadas da terra de Guimarães Rosa.

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