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Número 799,

Sociedade

Cariocas

Senna. Ou o salto para o nada

por Carlos Leonam — publicado 11/05/2014 09h17
O herói clássico tem de arriscar a vida para honrar o seu povo. Ele se torna imortal ao desafiar os deuses, ou seja, a morte
Mauro Montini / AFP
Imola

Imola, 2014. O culto ao piloto para quem a ânsia da vitória bloqueou a noção de perigo

Nesses últimos dias, em que todo mundo escreveu ou falou sobre ele, lembrando os 20 anos sem Ayrton Senna, me abstive de dizer alguma coisa nos recantos que frequento na internet. Preferi deixar para relembrar aqui, neste espaço, pensatas que escrevi naqueles tristes dias de maio de 1994:

• A vida de um piloto de Fórmula 1 é curta demais para longa corrida com a morte, até que ele a encontra. E perde. A glória que muitos não alcançam – ser campeão do mundo, ganhar um Grand Prix ou mesmo conseguir uma pole position – tem também um preço terrível e marca a vida de todos. A tristeza incomum estampada no rosto dos pilotos que levaram o caixão de Ayrton Senna ao túmulo era o espelho fiel dessa hora da verdade. Se a morte os unia, ela os tornava ainda mais sós.

• Já se disse que o homem moderno é uma criatura de quatro rodas. Símbolo de status social, o carro é, principalmente para os jovens, um instrumento de poder, de desafio, de afirmação. O ronco dos motores os faz heróis e transforma os pedestres em cidadãos de segunda classe. Essa autoafirmação, entretanto, é muito anterior à máquina. Na Idade Média, tornar-se um cavaleiro armado era o sonho acalentado por todo mancebo válido. Um sonho, aliás, tão dispendioso que reis e senhores feudais patrocinavam as armaduras dos melhores, para que eles defendessem suas cores nas justas medievais. Ser o melhor cavaleiro, desafiando a lança do adversário, significava fama, riqueza e poder de sedução.

• Trata-se do Mito do Herói, de que nos fala a mitologia grega. O herói tinha de arriscar a vida para honrar o seu povo. A atração pelo risco era uma transgressão, pois os heróis cultuam a morte e não a vida. Eles se tornavam imortais ao desafiarem os deuses, ou seja, a morte. Senna tornou-se imortal depois que morreu. A multidão que foi a Imola, no dia dos 20 anos do acidente fatal, esteve ali para cultuar a mesma imortalidade de um herói do mito grego.

• Hoje, os cavalos foram substituídos pelos HPs das máquinas velozes, os senhores feudais são os donos e os chefes das equipes, os homens de marketing dos patrocinadores transnacionais. Apenas o espírito dos cavaleiros andantes permanece, corporificado na figura dos jovens e audazes pilotos de todas as corridas.

• Outro aspecto, digamos, psicológico, não pode ser esquecido: a sensação de onipotência causada pela volúpia da velocidade. Há em todo piloto de corridas – sem falar nos pilotos de teste dos aviões supersônicos, tão bem mostrados por Tom Wolfe no livro Os Eleitos – uma necessidade de superar a limitação humana, a questão de tempo e espaço, que exige do homem a procura de máquinas cada vez mais rápidas capazes de levá-lo a superar limites quase impossíveis. A busca do segundo eterno que derrote todos os adversários bloqueia a noção de perigo. Ayrton Senna nunca se cansou de dizer isso.

• Cavalo e cavaleiro, piloto e seu bólido da F1 passam a ser uma entidade única, dependentes um do outro tanto na vida como na morte. Por isso a última palavra aqui tem de ser de Juan Manuel Fangio: “Sempre considerei os carros como criaturas vivas, dóceis sob a mão do homem... Mas há, por isso, uma emoção silenciosa de nos sentirmos também vivos, quase diria um remorso, diante de tantos outros, entre nós, pilotos, que viram a vida acabar em um ou dois segundos, ao volante de um carro de corrida, no grande salto para o nada”.

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