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Número 799,

Economia

Análise / Paul Krugman

O problema de gastar menos

por Paul Krugman — publicado 14/05/2014 05h11
A própria noção de que a economia pode sofrer com a escassez de gastos vem a ser inerentemente difícil

Na época em que o presidente Obama propôs um plano de gastos para reforçar a economia e alguns de nós pedíamos um plano maior, era comum ouvir pessoas tanto da direita quanto do centro maluco declararem que era tudo um subterfúgio, uma tentativa de adotar prioridades liberais disfarçadas de estímulo fiscal.

Isto foi completamente falso e, no caso da direita, um caso de projeção. Obama não tentou vender aumentos de gastos permanentes como medidas de estímulo de curto prazo, mas George W. Bush fez isso quando impôs seus cortes fiscais.

E não teria funcionado. No máximo, a melhor aposta nessas situações é tentar do outro jeito, forçar propostas para estimular a economia e ao mesmo tempo construir infraestrutura e/ou reduzir a desigualdade, e fazer dos aspectos de guerra de classes a longo prazo o centro de sua campanha de vendas.

Isso pode parecer estranho. Não deveria ser mais fácil vender ideias certeiras que deixarão quase todo mundo melhor? Seria se o público captasse a economia keynesiana. Mas até leitores instruídos tendem a não compreender a ideia de que a economia  pode sofrer uma demanda inadequada. E não acho que seja por falta de esforço para transmitir a ideia.

O principal ponto está no início. Não importa a política monetária e fiscal; a própria noção de que a economia pode sofrer com a escassez de gastos vem a ser inerentemente difícil. Quando faço palestras, consigo certa atenção perguntando  o que acontece se todos cortassem os  gastos ao mesmo tempo, e depois indico que meu gasto é a sua receita e o seu gasto, a minha receita. Não acho que muitos entendam: a atração da metáfora da economia como uma família geralmente predomina.

Não estou dando essa opinião baseado totalmente em sentimentos viscerais. Temos alguma métrica aqui, imperfeita, mas ainda assim útil.

Já houve um best seller sobre combate a recessões, ou sobre o crescimento por si só? Acho que não. Os grandes sucessos sempre são sobre nós contra eles, disputando cabeça a cabeça, competindo em um mundo plano, ou, agora, tentando deter a ascensão do 1%. Ao dizer isso não pretendo depreciar O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty,  incrivelmente bom e merecedor de toda a aclamação. Mas é notável que, em um momento em que os mercados de trabalho estão profundamente deprimidos, nossa maior preocupação seja a desigualdade a longo prazo.

É claro que acompanho como minhas colunas no New York Times se saem na lista de e-mails, e as sobre desigualdade têm maior reação que aquelas sobre macroeconomia pelo lado da demanda.

Isso não quer dizer que devemos parar de tentar dizer a verdade sobre a macroeconomia da depressão. Mas é uma observação interessante, e acho que existem implicações para como os políticos deveriam tentar fazer a coisa certa.

Há um debate interessante sobre a reforma financeira. Os economistas Atif Mian e Amir Sufi chamaram a atenção em seu blog para as propostas de se decretar ou criar fortes incentivos para 100% de reservas bancárias, feitas pelo colunista do Financial Times Martin Wolf e, de modo mais surpreendente, por John Cochrane, professor na Universidade de Chicago. E Cochrane parece ter mais consciência das dificuldades da questão.

A ideia que os autores compartilham é que os bancos como os conhecemos – instituições que emitem promessas de pagar dinheiro quando solicitadas, enquanto mantêm ativos líquidos que cobrem apenas uma fração dessa demanda potencial – estão inerentemente sujeitos a corridas, perdas de confiança que se autocumprem. Então, eles propõem que tentemos eliminar essas instituições; ainda haveria bancos, mas seriam simples custodiantes de ativos líquidos emitidos pelo governo.

Wolf parece identificar toda a questão com uma forma determinada de dívida de curto prazo, depósitos bancários. Essa é uma visão estranhamente estreita, dada a natureza da crise de 2008, que envolveu poucas corridas a depósitos, mas uma corrida enorme aos serviços bancários na sombra, especialmente os “repo” (acordos de recompra de títulos),  empréstimos overnight que em um sentido fundamental preenchiam as funções de depósito bancário, mas também criavam os mesmos tipos de riscos. Cochrane entende isso e pede um “imposto pigouviano”  para qualquer forma de “dívida de curto prazo com tendência a corrida”.