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Número 798,

Internacional

Palestina

Israel e Palestina: fiasco pior que a encomenda

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 15/05/2014 05h24
Ao fim de nove meses, as negociações de paz sequer pariram um rato. Por Antonio Luiz M.C. Costa
Jaafar Ashtyeh/AFP
Palestina

Palestinos inspecionam ruínas de uma mesquita após sua demolição por autoridades israelenses dia 29 de abril, em Nablus

Não havia muita expectativa sobre as negociações de paz entre Israel e Palestina, cujo prazo oficial se encerrou em 29 de abril. É difícil crer que mesmo Barack Obama e John Kerry, ansiosos por um êxito diplomático após uma longa série de fiascos, acreditassem em um acordo capaz de servir para algo mais além de salvar as aparências até a próxima eleição, justificar fotos e manchetes positivas e, quem sabe, um Nobel da Paz para o secretário de Estado. Mas o fracasso foi mais gritante do que até os mais pessimistas esperavam. A situação está bem pior do que quando as negociações começaram, em 29 de julho de 2013.

O projeto dos EUA garantia a Tel-Aviv o controle militar permanente do Vale do Jordão e da fronteira com a Jordânia e a anexação de Jerusalém Oriental e de cerca de 10% das terras da Cisjordânia, para incluir dentro das fronteiras israelenses mais de 80% dos colonos judeus. Em troca, Israel deveria ceder territórios de extensão equivalente (pouco povoados) à Palestina.

Desde o início das negociações impulsionadas por Kerry, os anúncios regulares de novas construções para colonos judeus mostraram pouca seriedade por parte de Tel-Aviv. Em vez de suspendê-las, quadruplicou seu ritmo. Nos últimos nove meses, apesar das críticas de Bruxelas e Washington, licitou 4.868 novas residências e anunciou planos para mais 8.983, quando a média desde o governo Ehud Olmert era de pouco mais de 1.300 por ano. A Palestina, por sua vez, resistiu aos termos do projeto dos EUA. Aceitava ceder até 3% do território, queria parte de Jerusalém e propôs que a fronteira com a Jordânia fosse vigiada por tropas da ONU.

No início de fevereiro, eclodiu a disputa sobre o destino dos colonos judeus não incluídos no território a ser anexado por Israel. Entendia-se, no início, que seriam retirados, como aconteceu com as colônias em Gaza quando da retirada israelense de 2005, mas o governo de Benjamin Netanyahu começou a insistir em que permanecessem, com propriedades e privilégios, como seus cidadãos dentro do já exíguo território palestino. O governo de Mahmoud Abbas respondeu que não aceitaria a permanência de um só colono, a menos que abrisse mão da cidadania israelense e se naturalizasse palestino. Outro pretexto invocado por Israel contra as negociações foi a recusa da Palestina a reconhecê-lo como “Estado judeu”. Para Ramallah, isso significa renunciar ao direito de retorno dos refugiados palestinos aos lares de onde foram expulsos, embora reconheça o Estado de Israel desde 1993.

Em 28 de março, Netanyahu cancelou uma libertação de dezenas de presos palestinos, prevista dentro do andamento das negociações, alegando que sua coalizão, pressionada pela ultradireita, cairia se a levasse em frente. Em represália, o governo de Ramallah pediu para assinar 15 convenções internacionais, iniciativa que se esperava suspendesse durante as conversações. Mais que isso, retomou de surpresa a reaproximação com o Hamas, duas vezes fracassada (em 2011 e 2012).  Em 23 de abril, sete anos após a ruptura, a OLP e o Hamas assinaram um acordo de reconciliação prevendo a formação de um governo de unidade em cinco semanas e eleições em seis meses. Israel respondeu com um bombardeio de Gaza, com  a retenção da arrecadação de impostos devida ao governo de Abbas e com a demolição de abrigos humanitários construídos pela União Europeia em território palestino. Além disso, prometeu que jamais negociaria com um governo apoiado pelo Hamas.

O ministro da Economia israelense Naftali Bennett, também líder do partido de ultradireita dos colonos, ameaçara romper a coalizão governista se um acordo de paz fosse assinado. Ante o evidente colapso da negociação, proclamou o fracasso definitivo da “solução de dois Estados” que orientava as negociações desde os acordos de Oslo de 1993 e pediu a anexação imediata de 60% da Cisjordânia e expulsão dos palestinos que vivessem nessa área, enquanto os 40% restantes se transformariam em um território semiautônomo ao estilo dos bantustões da África do Sul sob o apartheid.

Frustrado, o secretário Kerry, que no ano passado advertira Israel de que se arriscava a uma nova Intifada (levante palestino) se as negociações falhassem, fez na reunião da Comissão Trilateral (EUA-União Europeia-Japão) de 25 de abril um comentário supostamente confidencial segundo o qual Tel-Aviv, se não admitisse o Estado palestino, caminharia para “um Estado de apartheid com cidadãos de segunda classe ou perderia sua capacidade de ser um Estado judeu”. Essa consideração perfeitamente lógica e sensata – e formulada em 2010 de maneira praticamente idêntica pelo então ministro da Defesa israelense Ehud Barak – provocou reações ultrajadas de israelenses e de políticos estadunidenses dos dois partidos ao ser divulgada por um jornalista do site The Daily Beast, que teve acesso à gravação.

Esse prognóstico já é em parte diagnóstico. Um apartheid, oficialmente temporário, existe há décadas nos territórios ocupados. Colonos judeus e nativos árabes estão sujeitos a leis diferentes. Isso hoje não acontece, é verdade, no território israelense, onde a minoria árabe tem direitos civis e políticos reais (o ex-presidente israelense Moshe Katsav, por exemplo, foi condenado por estupro em um tribunal presidido por um juiz árabe). Mas, se Israel anexar os territórios ocupados, terá de cassar os direitos dos cidadãos árabes, entregar-lhes o poder ou promover algum tipo de “limpeza étnica”. Isso é lógica e aritmeticamente evidente.

Kerry foi obrigado a se desdizer, mas na opinião pública da Europa e América do Norte se consolida cada vez mais a visão de Israel como um país cada vez mais parecido com o regime sul-africano de antes de 1990 e que igualmente precisa ser pressionado por meio do boicote. Ao longo de 2013, várias organizações de consumidores promoveram a rotulagem e repúdio aos produtos dos colonos judeus na Cisjordânia, associações estudantis e acadêmicas (incluindo, por exemplo, a American Studies Association, dos historiadores e cientistas sociais dos EUA) suspenderam a cooperação com Israel e o famoso físico Stephen Hawking recusou-se a ir ao país. A União Europeia proibiu a assinatura de acordos com Tel-Aviv que não excluam explicitamente as empresas, universidades e instituições instaladas nos territórios ocupados.

Nos primeiros meses
de
2014, a atriz Scarlett Johansson perdeu o posto de “embaixadora” da Oxfam, organização internacional contra a fome, ao trabalhar como garota-propaganda para uma fábrica de refrigerantes israelense instalada na Cisjordânia. A gestora holandesa de ativos PGGM suspendeu os investimentos em bancos israelenses devido a seu envolvimento no financiamento de colônias judias e o fundo soberano norueguês renovou a proibição de investir em empresas que operem nos territórios ocupados. O movimento toma ímpeto e o ministro da Fazenda Yair Lapid, de um partido moderado, adverte: nas suas contas, uma redução de 20% nas exportações para a Europa custaria 10 mil empregos e 1% do PIB.

A retórica chauvinista continua, porém, levando a melhor. A queda do governo de Mohamed Morsi e a restauração da ditadura no Egito recuperaram sua autoconfiança momentaneamente abalada. Certa da impossibilidade de Washington lhe negar apoio, a direita israelense não vê razão para negociar. Pelo contrário, até flerta com a ideia de buscar aliados alternativos nos reis e emires da Península Arábica, supostamente dispostos a acompanhá-la em uma aventura bélica contra o Irã. Ou mesmo na Rússia de Vladimir Putin: apesar do apoio incondicional dos EUA a Israel, Netanyahu e seu chanceler Avigdor Lieberman se recusaram a acompanhar Washington na condenação à anexação da Crimeia, como para advertir Obama de que, se não os acompanhar em todos os seus caprichos, eles podem “mudar de lado”.

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