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Número 798,

Internacional

União Europeia

Daniel Fiott: eleição na UE é desabafo dos eleitores

por Gianni Carta publicado 09/05/2014 04h52, última modificação 09/05/2014 05h51
O editor do European Geostrategy visualiza um aumento da preferência pela extrema-direita nas eleições para o Parlamento Europeu. Por Gianni Carta
John Macdougall / AFP
Europa

Poster da campanha de um candidato do Partido Social Democrata alemão ao Parlamento europeu. O cartaz diz: "Uma Europa com crescimento, não estagnação."

Daniel Fiott acredita que a crise econômica e política na Zona do Euro atrairá mais eleitores ao pleito europeu dia 25 de maio. “No entanto, embora possa haver um aumento marginal de comparecimento às urnas, é provável que resulte em um aumento da preferência pela extrema-direita”, diz o editor sênior do periódico European Geostrategy e pesquisador do Institute for European Studies, Vrije Universiteit Brussel. Leia a entrevista a Gianni Carta.

CartaCapital: Por que observadores dizem que essas eleições europeias serão diferentes?

Daniel Fiott: A crise da Zona do Euro vai adicionar um sabor diferente. Cidadãos de países atingidos pela crise verão as eleições para o Parlamento como uma forma de desabafar as frustrações contra os seus governos e instituições da União Europeia. Isso poderia ter um efeito positivo sobre a política da UE. “Diferente”, neste caso, refere-se à crise econômica e política sistêmica, que atingiu a Zona do Euro. Não se deve esquecer que as pessoas pensaram seriamente em uma ruptura da Zona do Euro até poucos meses atrás. Há uma percepção crescente de que a política conduzida em Bruxelas e Frankfurt, ou mesmo a falta de políticas a nível europeu, está tendo um impacto em toda a UE.

CC: O senhor acredita, como preveem diversos observadores, em um significante aumento de eurodeputados extremistas no Parlamento Europeu?

DF: Muitos cidadãos acham que a crise da Zona Euro passou por eles sem terem tido a oportunidade de expressar suas preocupações. Cidadãos da Grécia, da Espanha e recentemente da Itália sofreram mudanças no governo sob enorme pressão financeira. As eleições para o Parlamento Europeu podem, retrospectivamente, ser uma maneira de concretizar o propósito de produzir impacto sobre a natureza democrática da UE. No entanto, embora possa haver aumento marginal de comparecimento às urnas, é provável que resulte em um aumento da preferência pela extrema-direita, e talvez até mesmo por legendas de extrema-esquerda. É paradoxal notar como muitas dessas legendas são contra a União Europeia de uma forma ou de outra, ainda que sintam a necessidade de disputar as eleições. A estabilidade da economia europeia não pode ser bem servida por partidos extremistas.

CC: Como estipula o Tratado de Lisboa, o Parlamento deve eleger o presidente da Comissão. Como vê essa iniciativa?

DF: Desde 1993, o Parlamento Europeu tinha o direito de vetar a escolha da Comissão. Se o Parlamento não concordasse com a seleção de um candidato feita pelos integrantes da UE, poderia solicitar a outro candidato. Um exemplo foi o veto de nomeação de Rocco Buttiglione (2004). A novidade é que agremiações mais votadas apresentarão seus candidatos ao Parlamento, o qual, por sua vez, proporá aquele na dianteira para ser presidente da Comissão. Isso é visto por muitos parlamentares europeus como um passo positivo. Mas não se deve ignorar que a Comissão tem poderes bem definidos e limitados.