Você está aqui: Página Inicial / Revista / Trabalho assediado / Uma ideia de tirar o fôlego
Número 797,

Economia

Análise / Paul Krugman

Uma ideia de tirar o fôlego

por Paul Krugman — publicado 04/05/2014 13h28
Afirmar que a inflação baixa reforça a renda real disponível dá nota zero em qualquer faculdade

Aha! Eu tinha perdido isto, de Jürgen Stark, e é uma das coisas mais incríveis que já vi escritas por um ex-banqueiro central: “É provável que estejamos vivendo um período prolongado de estabilidade de preços”, escreveu o ex-membro do conselho do Banco Central Europeu em editorial recente para o Financial Times (pode ser lido em on.ft.com/1kT4h2U). “É uma boa notícia. Ela reforça a renda real disponível e eventualmente apoiará o consumo privado. As expectativas de inflação estão bem ancoradas, e não há evidência de que as famílias e as empresas estejam adiando compras por causa de expectativas negativas. As advertências sobre deflação imediata e os pedidos de ação do BCE são errôneos e irresponsáveis. Quanto mais essa discussão continuar, e se intensificar, maior a probabilidade do risco de uma profecia que se autorrealiza.”

Assim, Stark começou afirmando que a inflação baixa reforça a renda real disponível. Essa é uma resposta que dá nota zero em qualquer exame de faculdade: sim, a inflação baixa aumenta os ganhos da renda para qualquer índice de aumento de renda nominal (sem ajustes), mas a inflação baixa reduz o índice de crescimento da renda nominal um a um. A ideia de que uma ex-autoridade monetária influente não compreenda isto é de tirar o fôlego.

Agora, não é verdade que a inflação baixa não tem consequências; ela aumenta o valor real da dívida, o que é contracionista porque os devedores cortam os gastos mais que os credores o aumentam, e a inflação baixa também resulta em uma elevação das taxas de juro reais quando as taxas nominais estão perto do limite inferior zero. Mas estas são consequências que deprimem a demanda.

Oh, e a inflação europeia baixa de modo geral agrava muito o problema dos ajustes para os países devedores, o que Stark nem sequer menciona.

Mas o mais surpreendente é sua afirmação de que até falar na possibilidade de deflação é irresponsável, porque pode se transformar em uma profecia que se autorrealiza. Está certo: se uma ação inadequada do BCE levar a Europa a uma ou duas décadas perdidas no estilo japonês, a culpa é de todos os críticos que advertiram que isso poderia acontecer; se todo mundo continuasse aplaudindo, tudo teria dado certo.

Posso entender por que alguns fazedores de políticas gostariam de viver em um mundo como esse – um mundo em que se os críticos dizem que suas políticas vão falhar, e depois elas falham, a culpa é dos críticos. Mas é difícil imaginar o estado de espírito de alguém que realmente declarasse essa opinião ao Financial Times.

O físico Joe Romm, editor do blog Climate Progress, em comentário sobre o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU, chamou atenção para os custos da mitigação global, ou redução das fontes dos gases do efeito estufa. O painel anunciou no início deste mês que esses custos não são tão grandes.

Está claro há algum tempo que, dados os incentivos certos, os países poderiam manter o crescimento econômico mesmo que reduzissem extremamente as emissões de gases do efeito estufa. Mas algumas notícias reforçam em muito a tese de que salvar o planeta sairia bem barato.

Primeiro, uma palavra sobre o princípio geral. Na verdade, desta vez posso atuar como um jornalista “equilibrado” e criticar à esquerda e à direita. Certas pessoas na esquerda continuam insistindo que o crescimento econômico é incompatível com a redução das emissões, portanto, temos de dar as costas ao crescimento. Essas pessoas não têm poder e não causam nenhum mal real. Mas vale a pena apontar que elas têm uma noção muito estreita do que significa ter uma economia em crescimento.

No sentido prático, as falácias da direita são muito mais importantes – na verdade, elas podem destruir a civilização. O notável no comentário da direita sobre a economia da redução de emissões é como as pessoas naquele lado de repente parecem mudar de opinião sobre a eficácia dos mercados. Normalmente, enaltecem a magia do mercado, que pode eliminar todos os limites. Mas, de certa forma, ao mesmo tempo, acreditam que os mercados seriam incapazes de enfrentar um imposto sobre o carbono. Não é difícil ver os motivos ocultos aqui.

A capacidade de uma economia de mercado reduzir as emissões, se receber incentivos e as perspectivas tecnológicas de uma economia de baixas emissões, deveria motivar otimismo.

registrado em: