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Número 797,

Internacional

Ásia

Em busca do tempo perdido na Ásia

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 04/05/2014 11h18, última modificação 04/05/2014 17h55
Barack Obama inicia viagem pelo continente para reafirmar seu poder na Ásia, ante uma China ascendente, um Japão agressivo e vizinhos desconfiados na região
CabinetPublicRelationsOffice/JijiPress/AFP
Obama

Obama brinda com Abe à sua acidentada "virada para a Ásia". É difícil unir o Japão a seus demais aliados

Em 22 de abril, Barack Obama inicia uma viagem pela Ásia que passa pelo Japão, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas. Desde 2012, anunciou uma “virada para a Ásia Oriental” em sua política externa, com o objetivo declarado de priorizar uma região a caminho de se tornar a mais importante do mundo e o implícito de conter a influência chinesa na região.

A virada incluiria uma maior ênfase nas relações políticas e comerciais com a região, cuja expressão é o projeto da Parceria Transpacífica (TPP, em inglês), a incluir EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Malásia, Cingapura, Brunei e o braço latino-americano conhecido como Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru, Chile e Costa Rica). Mas também um reposicionamento das Forças Armadas com mais ênfase na Ásia e na Oceania e menos na Europa e no Oriente Médio, pivôs da Guerra Fria. Cerca de 60% da Marinha, por exemplo, passaria a operar no Pacífico.

Entretanto, o projeto, formulado na gestão de Hillary Clinton como secretária de Estado, sofreu certo retrocesso com sua substituição por John Kerry, interessado em marcar sua gestão com um histórico acordo de paz entre Israel e Palestina, cujo fracasso parece cada vez mais irreversível, e em iniciativas na Síria, Irã e Ucrânia frustradas pela interferência da Rússia. Além disso, as próprias dificuldades internas de Washington retardaram sua iniciativa. Em 2013, Obama cancelou sua participação em duas importantes reuniões de cúpula asiáticas por causa da ameaça republicana de bloquear o orçamento federal e paralisar o governo.

Há muito marcada, a viagem se realiza em um momento complicado para seus propósitos. Mais uma vez, a atenção da mídia e do mundo está voltada para outra parte, principalmente para o confronto com a Rússia pela Ucrânia, um eco da Guerra Fria da qual a nova iniciativa diplomática pretendia se afastar. E uma razão para preocupação para os aliados asiáticos com os quais os EUA querem estreitar relações: se Washington nada fez para impedir a Rússia de anexar a Crimeia, será que interviria para impedir a China de impor sua vontade pela força e anexar as ilhas disputadas com o Japão e as Filipinas, ou mesmo tomar Taiwan?

Enquanto isso, a China se fortalece com discrição. Reforça seu poder militar e fortalece alianças, inclusive na região que Kerry insiste em chamar de “quintal dos EUA”. Dois dias antes de Obama partir para o Japão, o chanceler chinês Wang Yi iniciou uma excursão por Cuba, Venezuela, Argentina e Brasil, os países politicamente mais importantes da parte (maior) da América Latina não comprometida com a Aliança do Pacífico, Alba e Mercosul.

Posta à prova pela crise da Crimeia, a articulação dos BRICS resistiu. Apesar de ter motivos (Tibete e Xinjiang, para começar) para torcer o nariz ao incentivo de Moscou ao separatismo na Ucrânia, Pequim recusou condenar Moscou ou apoiar resolução na ONU contrária aos seus interesses e o mesmo fizeram os demais parceiros. Pequim e Moscou são sócios no que se refere a limitar a influência dos EUA e qualquer tentativa de isolá-los tende a consolidar sua aproximação comercial e política. A Índia, em meio a uma eleição que pode levar ao poder o partido fundamentalista e conservador de Narendra Modi, é uma possível incógnita, mas, por mais que um novo governo queira acirrar a rivalidade naval e militar com a China e o Paquistão ou rever disputas de fronteiras, depende de tecnologia e armamento russos para fortalecer sua presença militar, não pode ignorar os chineses como parceiros comerciais e tem pouco a ganhar com uma aproximação com os EUA.

Do outro lado também há atritos, talvez até mais sérios. Mais difícil de lidar, o peso da herança da colonização japonesa e da Segunda Guerra Mundial sobre o relacionamento entre o Japão e a Coreia do Sul, ainda hoje um empecilho a uma aliança política e econômica entre ambos, apesar de estes se sentirem igualmente ameaçados pela China e pela Coreia do Norte. Os governos japoneses nunca reconheceram nem indenizaram as brutalidades impostas ao país conquistado de forma a satisfazer os coreanos. Menos ainda as coreanas, pois ainda vivem o papel de “mulheres de conforto”, forçadas a servir os exércitos japoneses como escravas sexuais na Coreia (e também em outros países da Ásia ocupados na guerra).

O problema agravou-se nos últimos anos. O mesmo renascimento do nacionalismo japonês que afasta o país da postura pacifista do pós-guerra para se rearmar e desafiar a China pelas Ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses), reivindicar as ilhas Liancourt hoje ocupadas pela Coreia do Sul e as Kurilas tomadas pela Rússia em 1945 também impulsiona a minimização ou negação dos crimes do passado. O caso das “mulheres de conforto”, por exemplo, foi objeto de uma admissão e pedido de desculpas formal do Japão (mas não de uma compensação) em 1993, mas em 2007 o primeiro-ministro Shinzo Abe alegou “não haver evidências” de que essas mulheres foram coagidas, apesar de ser este o consenso dos historiadores e, desde fevereiro, seu chefe de gabinete Yoshihide Suga ter criado uma equipe para “reexaminar” a evidência e o pedido de desculpas de 21 anos atrás. O revisionismo também aparece na tevê pública e toma formas ainda mais radicais nos discursos de políticos de ultradireita como o prefeito Toru Hashimoto, de Osaka, para o qual “se você quer que os soldados tivessem um descanso, “as mulheres de conforto” eram necessárias. Qualquer um entende isso”.

Como deveria ser mais fácil para qualquer um compreender, as relações da Alemanha com seus vizinhos seriam muito mais complicadas se Angela Merkel pusesse em questão a realidade do Holocausto ou se o prefeito de Hamburgo tentasse justificá-lo. A política interna japonesa ignora, porém, a necessidade de aliados e se compraz cada vez mais no chauvinismo. O Santuário de Yasukuni, homenagem ao soldados mortos em nome do Japão e fundação privada desde 1946, reverencia desde 1979 os criminosos de guerra condenados e mantém um museu no qual os chama de mártires e culpa os EUA pelo conflito. Desde 2001 os ministros japoneses têm feito da visita frequente ao local uma questão de honra e uma fonte de contínua irritação para chineses de Taiwan e do continente e para coreanos do Norte e do Sul.

A muito custo, Obama conseguiu da atual presidenta da Coreia do Sul, Park Geun-hye, que aceitasse uma discreta reunião a três com Abe durante a cúpula nuclear em Haia em março, mas ela se recusa a uma cúpula mais ostensiva. Pesquisas de opinião mostram que Abe é mais impopular em seu país que o próprio Kim Jong-un, contra o qual Obama queria que elaborassem uma estratégia comum.

Entretanto, o Japão é o único aliado dos EUA na Ásia Oriental em condições de criar uma força militar capaz de ajudá-los a conter a China em meio a uma era de crescentes agruras financeiras que forçam a Casa Branca a cortar os gastos com o Pentágono. Apesar das crescentes limitações da Marinha dos EUA, em 6 de abril o secretário da Defesa Chuck Hagel prometeu ao Japão enviar dois destróieres armados de mísseis até 2017, oficialmente para se contrapor à ameaça dos mísseis da Coreia do Norte, extraoficialmente para apoiá-lo em um eventual conflito com a China. A primeira entrevista de Obama em Tóquio, no dia 23, foi para assegurar aos japoneses de que o tratado de assistência militar se aplica às ilhas Senkaku, sem chegar a convencer seus comentaristas, para os quais a brevidade da visita e a ausência da primeira-dama sinalizam que a tal “virada para a Ásia” ainda é mais frase de efeito que realidade e o TPP um projeto distante, dada a determinação do Japão de proteger sua indústria e agricultura neste momento em que luta por se recuperar de mais de 20 anos de estagnação.

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