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Número 797,

Sociedade

Editorial

Considerações sobre um texto inglês

por Mino Carta publicado 25/04/2014 06h07, última modificação 26/04/2014 12h14
Sim, tem de ser ofensivos à nossa leitura o estilo e as banalidades, discutível a paixão neoliberal, mas...

Nesta página às vezes escrevo que o Brasil é o quarto país mais desigual do mundo. Errado. Excelente fonte informa que evoco uma classificação velha de dez anos. No momento, o Brasil é o quarto mais desigual das Américas. Donde, peço perdão e me atualizo. Não é que a colocação atual na dolorosa classificação da desigualdade me anime muito. Agrada-me registrar, porém, que, graças às políticas sociais implementadas pelos governos petistas, o País tenha dado alguns passos à frente enquanto o resto do mundo os dava para trás.

Nem por isso, a casa-grande e a senzala foram demolidas, com todas as consequências que a situação comporta. Tal a premissa ao que me permito observar em relação a um texto muito comentado da The Economist sobre o desempenho do nosso país nos dias de hoje. Há quem, ao lê-lo, se sinta gravemente ofendido em seus brios nacionais. Eu me limito a algumas objeções.

A primeira diz respeito ao tom do artigo. No meu entendimento, é aquele do elegante colonizador colhido no alpendre de sua casa-grande no momento de se servir do chá das 5 enquanto encara o mundo luxuriante ao seu redor, habitado por selvagens. Seu olhar oscila entre o desprezo e a condescendência irônica.

A segunda mira na própria qualidade do texto. A literatura inglesa prima pelo senso de humor, pela fluência impecável, pela imaginação incansável. A The Economist é sabidamente publicação bem escrita, com toques literários bastante apreciáveis. Surpreende-me, contudo, no caso em questão, pela frequentação do lugar-comum, do clichê, do estereótipo. A imaginação tradicional prepara-se para tomar banho em Bournemouth na perspectiva do verão.

A terceira é de fundo político, e se refere a toda uma corrente do jornalismo mundial dedicada a sustentar impavidamente as práticas neoliberais, responsáveis pelo enriquecimento de pouquíssimos e o empobrecimento dos demais. Esta tigrada monitora sofregamente a economia brasileira na convicção de que os governos petistas são socialistas à moda antiga. Inconfiáveis, portanto. Lá pelas tantas, metida além da conta, chegou a solicitar a queda do ministro Guido Mantega.

A quarta é corolário da terceira. Anoto algo que me parece de relevante contradição. Recordo uma frase de Delfim Netto pronunciada recentemente ao debater com Paul Krugman durante um evento promovido por CartaCapital. Disse ele que, para os especuladores (repito e sublinho, especuladores) internacionais, só a Santa Casa de Misericórdia é melhor do que o Brasil, com seus fantásticos juros. E não equivaleria este aspecto a uma poderosa mão na roda do neoliberalismo?

A quinta estuda a acusação central atirada pelos obuses da The Economist: somos preguiçosos. Não sei se a definição é exata, mesmo porque a preguiça, embora pecado capital (e nesta definição é evidente a injustiça), não é inerente à natureza, humana inclusiva. Ocorrem, isto sim, a falta de proteínas, ou a falta de motivação. No país da casa-grande e da senzala, ocorrência que tais foram e são fortemente prováveis.

Na exposição de certas características nativas, infelizmente há, na análise da importante publicação britânica, anotações corretas, a despeito dos meus reparos ao estilo, aos preconceitos e a discutíveis interesses políticos e econômicos.

P.S.: Recebo com satisfação a notícia de que Paulo Lacerda, ex-diretor da PF, em seguida da Abin, enfim desterrado para Portugal a pedido de Nelson Jobim e Gilmar Mendes, vai contribuir para a elaboração do plano de governo de São Paulo, no setor da segurança pública, do candidato do PT, Alexandre Padilha. Poderia a escolha de Lacerda representar uma espécie de desagravo à afronta sofrida com o desterro. Esclareço que, para mim, ainda é muito pouco.

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