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Número 797,

Política

Análise / Marcos Coimbra

Conhecimento e voto

por Marcos Coimbra publicado 29/04/2014 01h34
O vagar no crescimento de Eduardo Campos e Aécio surpreende tanto mais diante do apoio midiático que recebem
Marcello Casal Jr./ABr
eduardo campos

Mesmo com o apoio recebido pela Imprensa, Eduardo Campos (imagem) e Aécio Neve não mostraram crescimento expressivo nas pesquisas

A tomar pelas pesquisas, a eleição presidencial de 2014 é peculiar em um aspecto importante. Nela, o nível de conhecimento dos candidatos cresce lentamente e parece ter pouca relação com a evolução das intenções de voto.

Não estamos, é claro, falando de Dilma Rousseff. Há três anos e meio no cargo, todo mundo sabe quem ela é. A novidade é o que acontece com Aécio Neves e Eduardo Campos. O conhecimento a respeito de ambos avança de forma diferente do que vimos em eleições passadas.

Desde o fim de 2012, a parcela do eleitorado que diz conhecer o candidato do PSDB passou de 36% para 49%, de acordo com a pesquisa CartaCapital/Vox Populi de abril. No mesmo período, os que conhecem Eduardo Campos foram de 14% para 31%.

Duas considerações. Em primeiro lugar, ainda que obviamente tenha crescido o conhecimento dos dois, o ganho em mais de 18 meses é modesto. Especialmente no caso de Campos, de quem, partindo de um patamar muito baixo, se esperaria performance melhor, dada a visibilidade que adquiriu a partir de setembro de 2013, quando recebeu a adesão de Marina Silva. Em outubro do ano passado, conheciam-no 26% dos eleitores, contingente que agora chegou a 31%, seis meses depois. Nesse ritmo, vai precisar de cinco anos para se tornar conhecido do eleitorado inteiro.

Em segundo lugar, o crescimento dos que conhecem os dois candidatos oposicionistas se deu de maneira linear, sem que fosse identificável qualquer efeito da propaganda de seus partidos. Não aconteceu com eles aquilo que foi típico de eleições anteriores, o rápido incremento do conhecimento dos “candidatos novos” provocado pela propaganda partidária.

Entre março e junho de 2013, o conhecimento de Aécio subiu apenas 3%, apesar de, em maio, ter estrelado as inserções e o programa partidário do PSDB. No segundo semestre de 2013, isso se repetiu: o conhecimento do tucano ficou parado entre julho e outubro, embora tivesse voltado a ser a figura central das inserções e do programa de seu partido em setembro.

Com Campos, a mesma história. No primeiro semestre de 2013, seu nível de conhecimento nada cresceu, apesar da propaganda do PSB que o teve como único destaque. No segundo semestre, foi o assunto Marina Silva que ampliou seu conhecimento, que, de junho a outubro, quase dobrou, indo de 15% a 26%. Nesse patamar, no entanto, quase estagnou até agora, em que pese seu uso monopolista da propaganda do PSB.

O lento avanço do conhecimento de ambos é ainda mais notável se lembrarmos o amplo e favorável tratamento que recebem dos veículos da “grande imprensa”. Enquanto desconstroem Dilma diariamente, apresentam com simpatia indisfarçável os dois oposicionistas.

Mas o mais relevante é que o crescimento do conhecimento de Aécio e Campos não se traduziu em aumento das intenções de voto. Entre setembro de 2013 e abril de 2014, o conhecimento do mineiro cresceu de 41% para 49% e sua intenção de votos permaneceu em 16% e 17%. No mesmo período, o de Campos subiu de 20% para 31%, enquanto seus votos estacionaram em 8%.

Isso sugere que estamos indo para uma eleição em que o conhecimento dos candidatos joga um papel diferente do que teve em 2010. Nela, era a questão central, pois percebia-se que o crescimento de Dilma só dependia disso e que a vantagem de José Serra se esvairia.

Nesta eleição, o conhecimento dos candidatos da oposição cresce devagar e de maneira vegetativa, insensível aos efeitos de mais ou menos mídia. E não se traduz em aumento da intenção de voto.

A principal razão é que vamos fazer uma eleição de reeleição, em que a primeira pergunta que a maioria do eleitorado tem de responder é a respeito do governo, e não sobre os candidatos. O que vemos é que, tirando a minoria hostil ao “lulopetismo”, o eleitor comum não se mostra curioso a respeito dos nomes oposicionistas.

Não é por falta de oferta de candidaturas (pois as suas “ainda” seriam “pouco conhecidas”) que a oposição não cresceu. É por falta de procura.

E daqui a quatro meses estará no ar a propaganda eleitoral. Nela, o argumento a favor de Dilma será visual: a obra feita, sempre maior que a imaginada pela população. Quanto às oposições, vão apresentar algo menos persuasivo: a conversa de que fariam melhor. A petista vai mostrar; os outros, falar.

É por isso que, nas eleições parecidas de Fernando Henrique Cardoso e Lula, quem cresceu quando começou a propaganda gratuita foram os candidatos à reeleição. Há alguma razão para ser diferente agora?

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