Você está aqui: Página Inicial / Revista / Trabalho assediado / A difamação da política afeta o eleitor
Número 797,

Política

Análise / Mauricio Dias

A difamação da política afeta o eleitor

por Mauricio Dias publicado 26/04/2014 10h01
As pesquisas mostram que, fosse hoje o pleito, 62% dos eleitores não votariam em ninguém
ABr

Excetuada uma vitória do pastor Everaldo Pereira, por qualquer razão natural ou sobrenatural, não há até agora e, talvez nem haja até o dia da eleição, novidade maior do que o refluxo de eleitores apontado nas pesquisas eleitorais recentes. A soma dos porcentuais de votos brancos e nulos, de rejeição e daqueles que não quiseram ou não souberam responder, está próxima dos 40%. É um porcentual inédito e expressa, aproximadamente, quase 50 milhões de um total de 140 milhões de eleitores brasileiros.

Há dados conjunturais diversos dando vida a esse problema. Alguns são antigos e outros, mais modernos, como é o caso da demonização dos políticos. Dos gregos de ontem aos brasileiros de hoje, os eleitores, na essência da escolha, pouco mudaram. A urna eletrônica não modifica razões pessoais do cidadão na hora de votar.

Essa demonização não vem de longe. Foi acentuada, radicalizada pela mídia conservadora, após a vitória do metalúrgico Lula, em 2002. O ataque aos políticos, resumidamente, tem sido sempre, até agora, uma tentativa de desestabilizar a base governista. É preciso dizer com franqueza, porém, que os políticos contribuem para tanto.

O descrédito facilitou a ingerência de uma questão chamada judicialização da política, que, por sinal, perturba o processo democrático ao longo do mundo. Por aqui, ela tem favorecido a eleição de procuradores e, mais recentemente, soprou para os lados do ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal. Ele ficou feliz. Mas não se arriscou à prova real da popularidade obtida após o julgamento da Ação 470, mais conhecida como “mensalão”.

A pesquisa VoxPopuli divulgada por CartaCapital, na edição anterior a esta, buscou provocar o eleitor a falar do sentimento dele, a satisfação e a insatisfação, com o Brasil. Os satisfeitos somaram 54% e os insatisfeitos, 46%. A diferença não é grande.

Em 2013, após as manifestações populares entre junho e julho, o Ibope mediu o Índice de Confiança Social (ICS) da população nas principais instituições de poder.

A queda na confiança é ampla e atinge os bombeiros e parte das instituições tradicionalmente mais confiáveis (tabela).

Em pesquisa mais recente, os números do Ibope consolidam esse momento adverso a partir de sondagem sobre a intenção de votos para a Presidência.

Dos 37% que recusaram todos os candidatos, 72% não têm nem um pouco ou quase nenhum interesse na próxima eleição de 2014. Um dos pontos mais curiosos, indicativo do desencanto do eleitor,  pode ser tirado dos que responderam “ruim e péssimo” na avaliação de Dilma: 62% não votariam em ninguém se a eleição fosse hoje.

É uma sinalização objetiva que ajuda a explicar por que Aécio Neves e Eduardo Campos não herdam os eleitores que, até agora, tiraram o apoio à reeleição de Dilma.