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Número 797,

Sociedade

Brasiliana

A arte de ser blasfemo

por Willian Vieira — publicado 12/05/2014 04h38, última modificação 13/05/2014 15h09
Jesus Cristo Superstar: como um musical irritou meia dúzia de católicos conservadores. Por Willian Vieira
William Volco/Brazil Photo Press/AFP

Faltavam dez minutos para as 9 da noite da quinta-feira 10 e para o início da sessão de Jesus Cristo Superstar, superprodução da Broadway em dois atos com 28 atores-cantores, 11 músicos e figurinos de luxo ao custo de um milhão de reais – o musical mais aguardado do ano. Mas dezenas de espectadores, ingressos em mãos, insistiam em esperar do lado de fora. Seguiam, atentos, outro espetáculo, bem menor e mais conservador que o original prestes a ser encenado por Cristo e seus apóstolos no palco do Teatro Tomie Ohtake, São Paulo. Ao som de gaitas de foles oriundas de uma Escócia imaginária, dez homens com ternos verde-oliva e faixas douradas hasteavam estandartes e cartazes contrários à peça. No centro da cena, o palavrório contrarrevolucionário fluía do megafone empunhado por Daniel Félix Martins.

“Blasfêmia não é liberdade de expressão”, declama monocordicamente o rapaz de 27 anos, terço na mão, lendo do bloquinho as frases de efeito.  Maria, 70 anos e casaquinho de lã e lágrimas nos olhos, aquiesce. “Com tantas figuras, por que mexer justo com Nosso Senhor?” E segue o coro viril: “Reparação! Reparação!”

Pausa na pregação. As gaitas retomam seu lamento deslocado, enquanto Martins, coordenador de campanhas do grupo religioso de direita Instituto Plínio Correia de Oliveira (IPCO), contemporiza o tamanho do ato: “Hoje é só vigília. Mas na Sexta-Feira Santa será gigante”. (No anunciado “grande ato”, cerca de cem pessoas rezaram o terço à luz de velas. E foi tudo.)

Mas ainda é quinta, então as gaitas voltam à boca dos músicos e surgem no visor do iPhone da publicitária Catharina Birle. “Amei”, ironiza a loira impecável de vestido verde ao conferir a foto. “Gente, é engraçadíssimo.” Segundos depois, era a vez de um grupo de estudantes de canto lírico posar entre os estandartes. “Se eles têm o direito de vir atrapalhar o espetáculo, eu tenho de tirar sarro deles”, diz Marcos Kacsan. Ele se empertiga ao lado de Martins, megafone e tudo, e arranca a foto que minutos depois recebe curtidas no Facebook.

“As gaitas dão brilho ao ato de reparação”, explica o impávido Martins. “É bom porque as pessoas vêm perguntar o que é e assim participam do ato.” Formando em Letras na UnB, cristão de berço, ele defende os valores da família no IPCO desde 2010. Qual não foi sua surpresa, então, quando leu que a “peça hippie americana” aportaria aqui. “Nos inteiramos do roteiro. Não vi a peça, mas outros viram trechos na internet. E estudamos as outras versões para ter segurança de protestar.”

Com música de Andrew Lloyd e letra de Tim Rice, a peça estreou em 1971 nos Estados Unidos. Na versão brasileira, dirigida por Jorge Tackla, Cristo é só um humano (loiro, sarado, olhos verdes) em crise por ser filho de Deus. Veste jeans, não faz milagres e é seguido por um grupo alegre de apóstolos a dançar. Judas parece um Ozzy Osbourne de coração mole. “Não é hora de se rebelar!”, grita, voz aguda, olhos arregalados. Parece um recado ao lado de fora.

A peça cobre a última semana de Cristo, quando é traído por Judas e vê os judeus pedirem sua cabeça a Pilatos, que lava as mãos. Herodes (aqui de shortinho e casaco de oncinha) faz o mesmo. E  Cristo  acaba por receber 39 chibatadas e ser erguido na cruz, enquanto clama ao pai e morre ao som das guitarras. Tudo segundo a bíblia.

Então o que é blasfemo? “Ora, usar a figura de Nosso Senhor de maneira irreverente, como pop star”, diz Martins. “Cristo não foi um revolucionário!” Não? “Não desse jeito, com dancinhas indecentes até na crucificação.” Restou aos pios tomarem uma atitude, diz. “Se o mesmo fosse feito com Maomé, colocar ele hippie tendo um caso com o anjo, imagine o bruaá? Os muçulmanos iam cair em cima. E nós temos de engolir esse Estado laico? Essa cristianofobia internacional disfarçada de arte?”

Tackla, “católico praticante”, diz até que os assessores de dom Odilo “vieram ver e amaram”. “É um espetáculo que aproxima os jovens da religião ao pregar o amor cristão. Enquanto isso, esses malucos nazistas querem se aproveitar para ter publicidade e pregar a intolerância.” O site do IPCO é revelador da doutrina. Os artigos focam a defesa da terra, da propriedade e da família (como “retorno de costumes tradicionais ameniza a vida do lar: como deixar brilhante a prataria com bicarbonato de sódio, preparar um inesquecível mil-folhas ou tricotar um cachecol”). A semelhança com a TFP não é coincidência: o IPCO foi fundado para seguir o “trabalho de mobilização da sociedade civil” contra “a Revolução anticristã.” Era o que faziam ali, parece, os homens com as gaitas de foles.

Após o fim, João Batista filosofa do lado de fora. “Quanto mais fazem barulho, mais sucesso a peça faz. As pessoas gostam de polêmica”, diz o segurança. Mas aí os manifestantes já haviam ido embora, assim como os satisfeitos espectadores, muitos às lágrimas. Só restou em cena o cartaz com o ator Igor Rickli de barriga tanquinho à mostra e coroa de espinhos, testemunha silenciosa do surreal happening religioso entre Jesus, Daniel, Marcos, Maria e João Batista: nomes bíblicos que dão o último toque de paródia à vã realidade.

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