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Número 796,

Economia

Análise / Paul Krugman

Uma vitória keynesiana

por Paul Krugman — publicado 22/04/2014 01h51, última modificação 22/04/2014 01h57
As medidas mostram a austeridade diminuindo na Grã-Bretanha desde 2011
CARL COURT / AFP
david cameron

O governo de David Cameron realizou muita retração fiscal entre 2010 e 2011, mas depois reduziu drasticamente o ritmo de consolidação

Lá vamos nós de novo. Existe hoje um grande empenho dos suspeitos de sempre em afirmar que a recuperação na Grã-Bretanha prova que a austeridade fiscal não é contracionista, afinal, que o Fundo Monetário Internacional entendeu tudo errado etc.

O economista Jonathan Portes, diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social, escreveu recentemente uma extensa explicação no blog da organização (pode ser lido aqui: bit.ly/1l3n75z). A versão simples é que o governo do primeiro-ministro David Cameron praticou muita contração fiscal em 2010 e 2011, mas depois reduziu drasticamente o ritmo da consolidação. Infelizmente, a incerteza sobre o tamanho da lacuna de produtividade da Grã-Bretanha (a diferença entre o PIB real e a capacidade da economia) realmente torna difícil concordar sobre uma medida de política fiscal, mas praticamente todas as medidas mostram de fato a austeridade diminuindo acentuadamente depois de 2011.

Então, o governo praticou muita austeridade e depois parou, e a economia britânica começou a crescer a partir daí. Isso justifica a austeridade expansionista? Para usar uma analogia que já empreguei antes, se eu ficar golpeando minha cabeça com um taco de beisebol e então parar, começarei a me sentir melhor; isso não quer dizer que bater na própria cabeça com um taco seja bom.

Se você ler o artigo de Portes, verá que George Osborne, o chanceler do Tesouro britânico, e outras autoridades estão praticando certa sofística, alegando que o governo nunca mudou de plano, portanto, continua no Plano A. É uma afirmação muito dúbia, mas em todo caso é irrelevante para a discussão macroeconômica.

O fato é que a Grã-Bretanha praticou muito menos consolidação fiscal desde 2012 do que nos dois anos anteriores – por isso o desempenho econômico desde então é na verdade uma justificativa das afirmações keynesianas, sejam quais forem as intenções do governo.

É desnecessário dizer que não espero que nada disso abale as opiniões pró-austeridade.

O Departamento de Orçamento do Congresso (CBO, em inglês) emitiu sua última atualização orçamentária para os Estados Unidos, e como sempre é um trabalho muito cuidadoso. Mas há uma coisa para a qual realmente vale a pena chamar atenção – não que o CBO esteja necessariamente errado, mas poderia estar, e de qualquer modo as pessoas deveriam ter consciência do que está levando a essas conclusões.

Eis aqui: a projeção do CBO tem déficits muito baixos a curto prazo, mas que começam a se alargar dentro de alguns anos. O que está impelindo esse movimento em direção ao déficit? Em uma medida importante, são os pagamentos de juros, que o CBO vê aumentando de 1,3% do PIB em 2014 para 3,3% em 2024.

Bem, isso é o que acontece quando você tem uma dívida que não para de crescer, certo? Quanto mais você deve, maiores os pagamentos de juros e eles sobem em espiral, certo? Errado!

O CBO vê a dívida aumentar apenas ligeiramente como proporção do PIB, de 74% em 2014 para 78% em 2024. Basicamente, esse aumento na carga dos juros reflete a suposição de que os custos dos empréstimos ao governo federal aumentarão acentuadamente quando a economia se normalizar.

Enquanto isso, outra organização cuidadosa, o FMI, declara que existe uma tendência descendente a longo prazo nas taxas de juros reais, que a estagnação secular é um risco real e que taxas não muito mais altas do que temos hoje poderão ser o novo normal.

Quem está certo? Eu fico com o FMI, mas eles e eu podemos estar errados. O ponto-chave, por enquanto, porém, é que o CBO não concluiu exatamente que os déficits vão começar a subir dentro de alguns anos; ele basicamente assumiu que as taxas de juro aumentarão muito mais do que muitos economistas acreditam, inclusive os do FMI.

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