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Número 796,

Política

Saúde

Para a ignorância não há remédio

por Eduardo Graça — publicado 30/04/2014 02h33, última modificação 30/04/2014 04h09
Doenças como o sarampo ressurgem por causa do movimento antivacinação. Por Eduardo Graça, de Nova York
Divulgação
vacinação

Campanhas como a da imagem, feitas pelo governo dos EUA, tentam aplacar a rejeição de parte da população às vacinas

De Nova York

Jeremiah mitchell vive em Tulsa, a segunda maior cidade de Oklahoma. A criança de 10 anos acaba de aparecer na primeira página do segundo jornal de maior circulação nos Estados Unidos, debruçado sobre seu iPad, que controla com os cotovelos. Em uma segunda imagem, a mãe o ajuda a colocar suas próteses. As pernas também foram amputadas depois de ele ser diagnosticado com meningite, aos 6 anos, quando cursava o jardim de infância. Outras cinco crianças de sua escola foram infectadas e duas morreram. O caso de Mitchell tornou-se emblemático na denúncia, pelo governo Barack Obama, do crescimento do movimento antivacina no país, estimulado por grupos religiosos e conservadores. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, a decisão de não vacinar crianças em idade escolar é fator crucial para o reaparecimento de doenças até poucos anos restritas aos arquivos médicos, entre elas a própria meningite, o sarampo e a coqueluche.

Há 14 anos o sarampo foi oficialmente erradicado nos EUA. De acordo com o CDC, neste ano crianças serão, porém, infectadas três vezes mais pela doença do que em 2009. Quase 5% dos alunos de jardins de infância de Idaho, Illinois, Michigan, Oregon e Vermont não foram vacinados no ano passado, sob alegação de “razões de crença pessoal” dos pais. Um surto de sarampo nos últimos dois anos no Texas, na Califórnia e em Nova York deveu-se, afirma Washington, ao número expressivo de crianças não vacinadas aptas a viajar pelo país.

Diretora de imunização do CDC, Anne Schuchat veio a público lembrar que a decisão de não vacinar crianças, cara à noção de direito individual do cidadão americano, afeta invariavelmente o bem-estar de toda a população. “Não queremos que crianças nos dias de hoje morram de sarampo nos EUA. Mas nesse cenário diria ser quase inevitável isso não acontecer.” O país teve 189 casos registrados de sarampo em 2013 (ante 55 no ano anterior), 24.231 de coqueluche (com 91 casos fatais) e 480 de meningite (com 75 mortes). Até abril, 115 casos de sarampo foram confirmados neste ano.

O movimento antivacina, estimulado pela crença de que as inoculações obrigatórias seriam responsáveis pelo crescimento exponencial de casos de autismo nos Estados Unidos, não se restringe aos grotões em estados sulistas do chamado Cinturão da Bíblia. Em 2008, uma explosão de sarampo em San Diego surpreendeu as autoridades: em vários bairros da cidade de pouco mais de 1 milhão de habitantes, 20% das crianças em idade escolar simplesmente não foram vacinadas contra a doença. O mesmo se repetiu em 2014 no distrito de Orange, localizado ao sul de Los Angeles, a maior metrópole da Califórnia. No ano passado, um jovem judeu ortodoxo de 17 anos, não vacinado por razões religiosas, foi apontado como a primeira peça do quebra-cabeça montado pelos médicos do Brooklyn, distrito mais populoso de Nova York, para entender o aumento impressionante de casos de sarampo na cidade.

Em um país profundamente dividido ideologicamente, o combate duro aos alarmes dados pelo CDC preocupam, mas não surpreendem. Presidente do Centro de Informação Nacional para a Vacinação, ONG sem fins lucrativos, Barbara Loe Fisher é das mais arraigadas defensoras do direito de os pais decidirem se querem vacinar os filhos. “Os questionamentos em relação à vacinação obrigatória são legítimos, especialmente quando sabemos que 10% das crianças vacinadas no jardim de infância tornam-se asmáticas e uma em cada 50 são diagnosticadas com autismo. Por que é que nos EUA os cidadãos devem ser coagidos a tomar todas as vacinas recomendadas pelo governo quando no Canadá, no Japão e na Comunidade Europeia eles são livres para escolher o que acham ser o melhor para suas famílias?”

Desde 1986, quando o Congresso passou, durante o governo Reagan, o Ato Nacional de Proteção à Vacinação para Crianças, os grandes laboratórios e os médicos contam com uma rede de proteção legal contra processos centrados em possíveis malefícios causados por vacinas.

No Brasil, também neste mês, seis adolescentes tiveram reações – como dor muscular, cefaleia e náusea – à primeira dose da vacina contra o HPV no Rio Grande do Sul. A reação levantou dúvidas sobre a qualidade dos lotes de vacina produzidos no País. Nas redes sociais, o estudo realizado em 1998 por um médico britânico, com 12 pacientes, a ligar o autismo à vacinação obrigatória, reapareceu com destaque em fóruns de discussão. Tal estudo foi considerado fraudulento pelas autoridades médicas do Reino Unido poucos anos depois de publicado e seu autor, Andrew Wakefield, perdeu o registro médico. Nos EUA, desde então e apesar da comprovada fraude acadêmica, 17 estados modificaram sua legislação e permitiram aos pais “isenção por motivos filosóficos e/ou religiosos” da obrigatoriedade da vacinação.

Do outro lado da conversa, Michaela Mitchell, a mãe de Jeremiah, conta que em 12 horas ele deixou de ser um menino obcecado por andar de bicicleta pelas ruas de Tulsa para retornar à sua casa, depois de ficar em coma, “tal qual uma múmia”. Ela tornou-se uma das faces mais visíveis nos EUA da luta contra a possibilidade de jardins de infância como os frequentados por seu filho optarem pela não exigência de comprovação da vacina, comum em Oklahoma: “Eu disse que ele tinha todo o direito de ter raiva pelo que aconteceu. E que, a partir de agora, teríamos de fazer tudo de modo diferente”.

No debate em torno da obrigatoriedade da vacinação, os dois lados parecem concordar em ao menos um aspecto: as crianças pagam o maior preço na oposição entre a liberdade individual e a proteção da saúde pública.

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