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Número 796,

Cultura

Protagonista

Pedro Juan Gutiérrez, o cubano burguês

por Rodrigo Sombra — publicado 01/05/2014 10h33, última modificação 01/05/2014 11h26
Escritor se distancia da literatura picaresca e quer esquecer livros que o tornaram famoso. Agora, inspirado no budismo, ele terá novo romance publicado
Rodrigo Sombra

Há anos os pesadelos abandonaram Pedro Juan Gutiérrez. No passado, quando o abuso de rum era rotina, calafrios e sonhos inquietantes visitavam-no todas as noites. “Sonhava que subia uma escada sem fim, logo não era uma escada, mas um andaime. Depois vinha uma água negra e me cobria até o pescoço, eu tentava sair dali, tentava, tentava e não conseguia”, recorda, agitando os braços como quem golpeia um teto. Sob um céu de azul intenso, ele guia o visitante pela  área externa de sua casa, uma cobertura em Centro Havana. Caminha por entre roupas no varal e, da sacada, observa as ruas. Oferece água ou café. “Estamos há 15 dias em abstinência total. Nenhuma gota de álcool”, avisa. “Minha mulher diz que tenho muita força de vontade. O tabaco eu deixei há anos, ela ainda fuma, diz que quer parar e não consegue. Mas qualquer um consegue”, continua, tocando a têmpora com o indicador. “Está tudo na mente.”

Gutiérrez, 64 anos, parece contrariar em cada gesto cortês a aspereza que empresta à escrita. Autor de Trilogia Suja de Havana, sua obra é um testemunho sem artifícios do submundo da capital cubana. Autobiográficos, antes de tudo um inventário dos pesadelos pessoais, seus contos e romances o tornaram um dos escritores cubanos com grande projeção internacional. Aqueles são, porém, livros que trata de esquecer.

Recentemente, um amigo o surpreendeu com uma cópia pirata de Trilogia Suja, jamais editado em Cuba, mas publicado no exterior em 1988, no ano seguinte no Brasil, pela Companhia das Letras (e ainda presente no catálogo da Alfaguara, a partir de reedição de 2008). “Fiquei assombrado com a agressividade daqueles contos. Não pude lê-los. É um livro doloroso, que escrevi em circunstâncias muito tristes, de incerteza, de não saber o que seria de mim amanhã”, diz. “Com O Rei de Havana se passa o mesmo. São livros como uma carga pesada, um fardo”.

Em setembro, completará dez anos sem publicar ficção. Nesse meio-tempo, com o afrouxamento das leis de propriedade em Cuba, transferiu a cobertura para seu nome e comprou uma casa de praia. No verão, passou a escapar todos os anos para Tenerife, Espanha, onde se instala de março a outubro. Sua literatura conformou-se com paragens mais amenas. Nos últimos três livros, todos de poesia, afasta-se do alter ego picaresco de sua prosa, um tipo à procura de álcool, sexo ou qualquer manobra escapista para sobreviver numa Cuba arruinada após o colapso da União Soviética. Em verso, sob influência do budismo e do Tao Te King, medita sobre a passagem do tempo, a impermanência, o embate entre luxúria e abnegação.

Arrastrando Hojas Secas Hacia la Oscuridad (2012), seu título mais recente, registra com tintas ambíguas a bonança dos últimos anos. Numa passagem, cita John Updike: “A prosperidade roubou a capacidade de me surpreender com as coisas”, risco que ele admite, e o remete ao escritor Charles Bukowski, com quem é comparado à exaustão. “A partir dos últimos anos de sua vida, Bukowski possuía suficiente dinheiro, uma boa casa, vivia em um bom bairro, tinha um BMW e, além disso, uma esposa estável, já não estava com mulheres todos os dias. Um pouco o que se passa comigo, não? Então, para que seguir escrevendo falsamente? Para vender mais livros? A mim isso não me parece honesto.”

à parte, revisa um novo romance e há meses aprovou o roteiro de uma adaptação cinematográfica de O Rei de Havana, a ser dirigida pelo espanhol Agustí Villaronga. Em pré-produção, o filme esbarra na proverbial burocracia cubana. “Ainda não deram permissão para filmagem, são três, quatro meses solicitando e nada. Aqui, comigo, tudo dá muito trabalho.”

Sobre o universo de seus livros, povoado por prostitutas, gigolôs e desregrados, pode-se dizer que funciona como uma imagem invertida da propaganda castrista. Sem gozar da simpatia do partido, é autor desconhecido de boa parte dos cubanos. Aos poucos, contudo, sua obra ganha edições nacionais. As provas de O Insaciável Homem-Aranha repousavam na mesa de Thelma Jiménez, editora da União Nacional de Escritores e Artistas quando nos encontramos para uma entrevista. Lançado no Brasil em 2004, o livro sairá em Cuba neste ano. “Pedro vende bem aqui. Se ele lançar um livro, nem que seja em branco, só a capa, as pessoas vão comprar. Compram porque têm curiosidade”, ela diz.

 

O escritor ainda enfrenta restrições. “Publicam 2 mil exemplares e isso não é nada. A presidenta do Instituto do Livro me disse há um ano, quando tivemos uma reunião: ‘Bem, os seus livros são um pouco conflituosos, portanto 2 mil exemplares e nada mais’. Assim são as coisas.” Gutiérrez é conhecido por resguardar-se a comentar a situação política da ilha. Provocado a respeito das reformas encampadas por Raúl Castro, opina: “Raúl fez um discurso em que disse: ‘Este é um país cheio de proibições e nós vamos derrubá-las uma a uma.’ Disse isso textualmente, e eu o aplaudi em meu coração. Sou otimista em relação a Raúl. A transição deve ser gradual, para que não aconteça um caos como na União Soviética, onde a máfia tomou conta de tudo”.

O timbre da campainha soa na porta. É sua filha mais nova, de 12 anos.  Ela entra, estira-se no sofá e sintoniza a tevê num desenho animado. Pouco depois, toca o telefone.  Alguém liga para felicitá-lo. Por causalidade, a entrevista acontece no dia do seu aniversário. “Mais tarde teremos uma reuniãozinha aqui, só a família”, ele diz, e passeia os olhos pela cobertura, cuja vista alcança o Malecón. “Esse cantinho é muito importante para mim. Aqui, pelas tardes, me ponho a ouvir música, tomo um traguinho de rum e penso. Às vezes escrevo algum poema. Tranquilo, não?”

Gutiérrez encontrou o budismo oito anos atrás. À época, vinha de um longo período abstêmio, privação autoimposta depois de uma bebedeira monumental. Desde então, medita, cumpre orações diárias e atribui ao zen um olhar mais compassivo. Num poema de Arrastrando Hojas Secas Hacia la Oscuridad, lê-se: “Escrevo pouco. Aumenta minha vocação ao silêncio”. Ele sorri: “Creio que isso tem a ver com minha vocação última à solidão, a afastar-me e ser um monge”. A lembrança de sua última visita ao Rio de Janeiro o afasta algumas casas das aspirações monásticas. “Lá as meninas deixam os pelos das pernas e dos braços crescerem, não? Depois passam uma tinta, pintam de loiro... Ufffff”, suspira, lascivamente, com a língua.

No plano das vocações possíveis, dedica-se às artes visuais. Em março, na Embaixada da Espanha em Havana, expôs uma instalação feita de espelhos enferrujados e uma série de colagens. Interessam-lhe, como pintor, as tormentas que da varanda assiste irromperem no Atlântico. Gosta de pintá-las no chão, ao som de Mahler. “Nesses instantes sei muito bem que sou mais luz e espírito que matéria torpe e terrestre”, escreveu em Corazón Mestizo. Durante a crise dos anos 1990, quando seu salário de jornalista comprava exatos 30 ovos, pintava telas abstratas, com as quais regalava amigos estrangeiros. “Depois vi que podia vendê-las e comecei primeiro por 50, depois por 80, logo 150 dólares, e assim podia comprar presunto, queijo, uma garrafa de rum”, relembra. “Não foi a literatura, mas a pintura que me tirou da fome.”

São quase 7 da noite e uma nova paisagem. “Não sei as outras, mas Havana talvez seja a cidade mais escura do mundo. Veja, olhe para lá: não há outdoors e propagandas. As ruas e as casas sem iluminação”, ele diz e aponta para edifícios descascados na penumbra. Quando regressava de metrópoles como São Paulo ou Cidade do México, doía-lhe sobrevoar a capital cubana pelas noites, assistir do alto à vastidão depauperada e pouco iluminada. “Venha aqui, da sala se vê ainda menos.” Ali, sob os olhos de quem radiografou suas artérias, Havana se retrai, escura, e cresce indefinida.

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