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Número 796,

Cultura

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O começo do fim de Mad Men

por Nirlando Beirão publicado 20/04/2014 07h26, última modificação 20/04/2014 08h18
No primeiro episódio da última temporada da série, a derrota de Don Draper. Por Nirlando Beirão
Divulgação
Mad Men

Draper, o herói problemático sem chance de remissão

Anos 60. Uma década de tantas promessas e energia, dos direitos civis e das revoltas contra a guerra e o alistamento militar compulsório, essa década lisérgica da explosão pop e do sexo sem amarras desperdiça-se, ao final, na imagem televisiva cheia de chuviscos de Richard Nixon assumindo a presidência. Para reforçar a metáfora da derrota, o primeiro episódio da sencerra-se com Don Draper, o herói problemático, sentado na varanda de seu flat outrora magnífico, precariamente agasalhado num robe de elegância decadente, o discurso do Tricky Dick a revirar estômago e alma de quem parecia ter estômago demais e alma de menos.

É cena digna de um loser, não do vencedor que encantou o cintilante universo da Madison Avenue com talento e sarcasmo. Draper continua o sujeito cuja crispação tende a contaminar os derradeiros 14 capítulos de Mad Men (HBO, às segundas, 21h). A derrocada se insinua. Escanteado na agência a que deu brilho, é flagrado pagando o pior dos preços para um new yorker empedernido: na tomada inicial, desce do avião numa Los Angeles odiosamente ensolarada. Mad Men sabe brincar com a paisagem estética da época e buscar numa atmosfera supostamente aética um discreto senso ético. Sem julgamentos morais definitivos, mas também sem remissão para quem abusou do privilégio de não entender que o mundo ia além de seu terraço.

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