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Número 795,

Cultura

Literatura

A ambiguidade brasileira de Cristovão Tezza

por Rosane Pavam publicado 13/04/2014 00h19, última modificação 13/04/2014 09h43
Em novo romance, autor cria um personagem para explicitar a ambiguidade. Por Rosane Pavam
Monalisa Lins / E-Sim
Tezza

Com humor frio, o escritor retrata a brasilidade nascida da cordialidade preventiva

O Professor
Cristovão Tezza
Record, 240 págs., R$ 35

Cristovão Tezza talvez seja, entre os escritores brasileiros contemporâneos, aquele com a capacidade mais ampla de reinventar o passado, o seu e, principalmente, o de nossa história literária. É o fio de uma escrita de muitos dizeres o que ele puxa, como se reelaborasse Machado de Assis com um doído esgar, sem jamais perder o pulso da clareza. Sua narrativa, ambicionada, quem sabe, à fina armação noir, às terríveis surpresas que preparam um Budd Schulberg ou um Horace McCoy, explicita o processo da consciência e, principalmente, da inconsciência de seus personagens. O escritor está em busca da máxima sutileza, daquilo que é difícil dizer ou simplesmente não se diz. Por isso, muda a pessoa narrativa com constância, embora, ao fazer isso, jamais atrapalhe o escorrer natural da trama.

Como ele considera ironicamente neste novo romance, O Professor, lançado quatro anos depois do bem-sucedido O Filho Eterno, palavras são como moedas, correntes, e Tezza não abdica de ser nítido enquanto, com ritmo nas linhas, convulsiona. Ele é menos proustiano do que parece. Briga com a memória, insatisfeito de apenas recuperá-la e ao tempo. Não vive sem humor, um humor mau, frio, que o ajuda a retratar a brasilidade nascida da cordialidade, algo definida, aqui, como arma preventiva.

Ambíguo, Tezza cria um personagem para explicitar a ambiguidade. Ela é uma estudante estrangeira, Therèze, cujo erro na acentuação no nome torna intensa sua aproximação com o protagonista, o filólogo Heliseu. O professor tem 70 anos, sua ex-mulher dedica-se a outros amores e o filho o rejeita. Sua vida, aquela que ele viveu errado, agora perde intensidade, exceto por um fato que, à moda de Albert Camus, o colocará existencialmente à prova. Ele precisa de sanidade para receber uma homenagem acadêmica, fato que o livro explorará como mote.

Novos tempos, dores novas. Heliseu não repete o velho que Machado de Assis recriou como a si próprio em Memorial de Aires, mas o sorriso de cárcere habita os dois. Enquanto o conselheiro olha o fim à distância, consolado pela saudade de si mesmo, este professor, nascido pelo método confuso, prova nosso caráter e nossa hesitação não em encarar a realidade, como lembra o livro, mas o sempre adiado silêncio.

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