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Número 794,

Cultura

Brasiliana

Fim de feira

por William Vieira — publicado 05/04/2014 05h43, última modificação 05/04/2014 07h22
Um passeio serendipitoso pelo maior evento do mercado erótico nacional. Por William Vieira
Debora Klemplous
feira

Para quem o carro é a extensão do corpo, eis o "car wash" sensual

A expectativa era grande. “Cenas de mulheres sensualizando ao lavar carros fazem parte do fetiche masculino”, adiantava o antropológico site da Erótika Fair. Para deixar a 21ª edição “ainda mais quente, lindas e sensuais modelos” tratariam dos veículos levados ali “com muito empenho”,  para garantir “uma experiência única e cheia de emoção” naquela noite de sexta 28 de março. Em uma cidade como São Paulo, onde a lógica se apoia em quatro rodas, a projeção do carro como extensão do corpo masculino alcançaria o ápice: quem desembolsasse 40 reais (com inscrição prévia) veria mulheres de biquíni a lavar a lataria de seu carrão, esfregando-se nele entre esgares molhados de prazer – quase uma transa por procuração. Como os visitantes tivessem enfrentado um congestionamento surreal até chegar ao local, o espetáculo era ainda mais aguardado.

“Mas cadê o carro, afinal?”, impacientava-se um rapaz apoiado na divisória do cercadinho, os olhos nas moças de nádegas grandes e muita celulite que desfilavam com baldes e produtos de limpeza automotiva. “Parece que ninguém se inscreveu e eles sortearam de graça”, respondeu um fotógrafo. Até que os faróis transpareceram por trás da cortina, o barulho do motor suplantou a música de fundo e um Fusca marrom adentrou o cenário com um casal envergonhado dentro. “É meu, o carro é meu”, bradava um tipo de polo branca e iPhone em punho com fotos do veículo. Mas por que não estava ali dentro – qual a graça de ver o carro ser lavado pelas gostosonas assim de longe? “Sou casado, a mulher ficaria brava. Tá louco, meu?”

Como o “car wash”, havia muito o que “distrair” os 50 mil visitantes esperados nos quatro dias da maior feira de produtos eróticos do Brasil – a maioria expositores e compradores atacadistas do setor. Um palco trazia shows de gogo-boys e gogo-girls e recebia homens da plateia para uma “surra de bunda” de dançarinas de “twerk”, rebolado erótico que virou febre nos EUA. Por 10 reais podia-se ainda entrar no labirinto de fetiches: dentro do toldo negro, escondidas do público em fila, havia desde uma dominatrix de plantão até uma especialista em pés. O futebol de sabão com mulheres de peitos à mostra fez sucesso, gravado nos celulares dos marmanjos a babar.

Dentro de um cubo de vidro em plena “Avenida Erótika”, um rapaz musculoso e ninfetas loiras conversavam, bebiam e olhavam entediados para os curiosos a filmá-los do lado de fora, onde televisores projetavam filmes com os mesmos atores aparentemente mais comprometidos com o prazer alheio: penetrações seguiam-se em alta definição, enquanto o produtor cofiava o queixo e explicava por que havia tantas tchecas no mercado pornô. “São bonitas e baratas.” Sua X-ART é uma renomada produtora de “art-core”, ou seja, “filmes de sexo, sim, mas  com fotografia, enquadramento e elenco dignos de cinema”.

Mas o atrativo maior eram as cabines de “brincadeiras erótikas”. Homens de sunga e moças de lingerie ficavam sempre a postos para “tocar, dançar e entreter” quem quisesse, na definição da guardiã das portas. Meia dúzia de mulheres e homens esperava pelos rapagões. “Ai, eles se esfregam na gente, é uma delícia”, dizia um rapaz sem fôlego saindo da cabine onde Arthur, olhos verdes e corpo sarado, sorria na porta. “Quem é o próximo?” Ao lado, mais de 50 homens disputavam uma vez com as mulheres.  Se “pornografia está nos olhos de quem vê”, como reza o lema do organizador, pode-se ao menos estabelecer o “postulado da casquinha”: se é possível aproveitar-se do corpo alheio sem gastar, vale a pena esperar, sujeitar-se, o diabo.

Divertimentos à parte, o cerne do evento era business. Trinta horas de palestras ensinavam como abrir e gerir um negócio erótico, das quais a mais esperada era “Decoração, vitrinismo e Visual Merchandising para sex shops”, da “Arquiteta do Amor”. A “Loja do Prazer”, abarrotada de compradores com sacolas cheias, exibia pênis de borracha de tamanhos surreais, vibradores em formatos inventivos (borboletas, golfinhos e até um ovo), géis para esfriar, esquentar, adormecer e “ativar”, bumbuns de silicone e mais uma miríade de objetos cujo uso só poderia ser explicado por alguém experimentado na área.

E eis que surge, com uma “réplica em tamanho natural” do próprio pênis sob o braço (32 centímetros de borracha marrom), Kid Bengala. Agarrado por  fãs em busca de fotos, a lenda viva do pornô nacional, 96 filmes no currículo, desbancava as anódinas tchecas como atração principal. “Já transei com duas garotas no banheiro. Fazer o que, elas não resistem”, confessou o astro, antes de explicar: para fazer a cópia, comprou dois kits na internet, do tipo “faça você mesmo”. “Mas tive que usar uma garrafa PET. Ele não coube no molde.”

O brinquedo custa 139 reais. “Mas vale a pena”, garante o futuro candidato a deputado, pênis de borracha na mão. “Sim, fui convidado. E, se eleito, defenderei o ensino integral para acabar com a violência.” É quando a voz do locutor do evento se sobrepõe ao candidato. “Atenção, proprietário do Peugeot, favor comparecer ao car wash para retirar o veículo.” O relógio de Kid dava as 22 horas. Fim de feira.

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