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Número 793,

Economia

Entrevista

As causas da desconfiança

por Carlos Drummond publicado 11/04/2014 05h39
Paulo Francini, da Fiesp, critica o exagero da mídia e problemas de gestão do governo
Luciano Spinelli
Paulo Francini

"As dificuldades da indústria não vêm de hoje". afirma o empresário paulista Paulo Francini

Em um setor atropelado por mudanças espetaculares nas últimas décadas, Paulo Francini tornou-se uma daquelas raras referências. Sua experiência e iniciativas são incontestáveis: foi assessor especial do ministro Dilson Funaro nos anos conturbados do Plano Cruzado, esteve no grupo de fundadores do Iedi, o principal think thank da indústria brasileira, e assistiu de camarote aos momentos de frustração e esperanças do País. Poucos empresários detêm, portanto, a mesma autoridade para analisar a realidade brasileira. E Francini o faz com objetividade nesta entrevista. O diretor do Departamento de Economia da Fiesp critica o predomínio do setor financeiro sobre a mídia, o que, segundo ele, explica muito do mau humor reinante, reclama da falta de comunicação e dos problemas de gestão do governo e lembra que a agonia industrial não começou ontem. O estrangulamento do setor, afirma, está ligado à permanente valorização do real e aos juros altos. Nesse quesito, o “campeão dos campeões” foi Gustavo Franco, um dos ideólogos da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso.

CartaCapital: Como o senhor vê os chamados fundamentos da economia brasileira, questionados especialmente pelas instituições financeiras?

Paulo Francini: Eu diria primeiro que o pensamento econômico dominante na mídia é muito o de instituições financeiras. Não deste banco ou daquele banco, mas de indivíduos que têm ligações, interesses, vinculações com o sistema financeiro. Os comentários sobre economia são pautados por essas instituições e influenciam de certa maneira o pensamento e a visão do cidadão atento interessado no assunto. Há interesses envolvidos de grande monta e interesses ideológico-partidários presentes. Eu diria que, em seu conjunto, é um pensamento de oposição ao governo. E isso não pode ser deixado de lado.

CC: Como o senhor avalia a situação da indústria?

PF: O agravamento da situação da indústria, reconhecidamente, não teve início no governo Dilma, nem no período de Lula. A trajetória de queda da participação da indústria de transformação no PIB começou na década de 1980. Portanto, não adianta apontar para um presidente em particular. Lembre-se de que Fernando Henrique, quando presidente, tinha a seu lado Gustavo Franco, realmente o campeão dos campeões em termos de taxas de juro e na questão da valorização do real. O que aconteceu com a indústria, portanto, tem muito a ver com a valorização do real. O quadro atenuou-se especialmente no governo Dilma, quando houve, em dois anos, uma desvalorização da moeda de 30%. Não apenas porque o governo quis, mas por conta também da própria situação do País, de estar num período de bonança, de supervalorização das suas exportações e geração positiva de saldos comerciais, favorecendo a desvalorização. Houve, lamentavelmente, uma reação de mercado quanto à taxa de câmbio.

CC: O que foi feito para atenuar a situação?

PF: Houve várias tentativas, já no governo Lula, de reativação de certos setores da indústria, com políticas de preferência à produção nacional nas compras governamentais. Há os planos dedicados à indústria gerados entre os governos Lula e Dilma, como o Programa de Sustentação de Investimentos do BNDES, em vigor nos últimos anos.

CC: Como a indústria se encontra no momento?

PF: Promoveu-se, apesar das denúncias nossas, da Federação das Indústrias e até mesmo antes disso, quando eu estava no Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, um processo de destruição na indústria brasileira. O que talvez nem nós, críticos à época, fizemos ideia é o tamanho da destruição e da dificuldade de restabelecer o que um dia foi o setor. Existe a clara percepção de que o ato de destruir é muito mais rápido que o de reconstruir. Uma vez perdidos elos da cadeia, é complicado restabelecê-los.

CC: Como o senhor resumiria a situação da indústria brasileira em relação às cadeias produtivas globais?

PF: A maioria das grandes indústrias realmente ficou em uma situação de exclusão das cadeias produtivas. A inexistência de acordos comerciais só prejudica. Não sou dos partidários de se fazerem acordos comerciais a qualquer preço. Há preços que não devem ser pagos. Mas, se você olha ao redor do mundo, observa a quantidade de acordos feitos e compara com a situação do Brasil, fica desiludido.

CC: Por que as coisas andam tão mal na relação entre empresários e governo, se no mundo real da economia elas não estão tão ruins?

PF: A situação atual da convivência, a confiança mútua entre empresários e governo, anda mal. Dizer por culpa de quem é difícil. Este é um governo curioso, pois há uma série de coisas meritórias que promoveu, ou pretendeu ou fez. Houve uma ação voluntária forte de redução da taxa Selic, diminuição dos spreads bancários com os bancos oficiais à frente, desvalorização da moeda. De repente, levaram as bandeiras que carregávamos. Antes fosse no sentido de resolver tudo. Mas a característica deste governo é de pensar em medidas razoáveis e implementá-las de uma maneira sempre abaixo da crítica.

CC: Esse aspecto leva à questão da comunicação.

PF: O governo tem sido sempre derrotado pela mídia. A sua capacidade de comunicação é muito baixa. Quando não praticando erros na execução das suas ideias. Tem de repente uma boa ideia traduzida em um mau resultado para a avaliação do próprio governo. É complicado isso. Houve uma redução fantástica da taxa Selic e em continuação um aumento da taxa. Os spreads bancários reduziram-se, após o que voltaram à estratosfera. Fez-se, e aí não dá para dizer que se reverteu, uma desvalorização de 30% em dois anos. A questão da energia é um exemplo da perda da batalha da comunicação. As termoelétricas foram constituídas como um sistema adicional de energia para um país hídrico. Quanto à questão das tarifas, não acredito que tenha havido ofensa a contratos estabelecidos, até porque a adesão à redução foi opcional e em dois anos haverá um leilão para renovar as concessões. Quando, por razões climáticas, as usinas termoelétricas entraram, houve uma discussão cretina. É evidente que as térmicas aumentam o custo da energia. E aí se pergunta: quem vai pagar a elevação? Não há outra resposta, deve pagar quem consome energia. Ou pagará quem não consome? Qual é a justiça disso? O custo adicional das térmicas tem sido imputado à reforma do setor elétrico, mas não tem nada a ver. Porém, a batalha da comunicação está perdida. O governo se comunica mal.

CC: Resta o que, então?

PF: Eu acho que qualquer partido político no poder por 12 anos sofre um desgaste natural. Faz parte da essência do regime democrático a alternância de poder. O mal-estar é um somatório de várias das questões abordadas, de uma vida que, em particular para a indústria, não tem sido fácil, há uma exaustão de certos discursos. Tenho um pensamento positivo em relação à presidenta, não acho que seja desonesta. É bem-intencionada, tem lá seus defeitos de gestão. O Mantega, gosto dele, é italiano, tem de gostar. É um bom comunicador? Não é. Mas vá dizer a alguém que se acha bom comunicador, que ele não é...