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Número 793,

Cultura

Exposição

Abuso de sabor

por Olívio Tavares de Araújo — publicado 30/03/2014 09h31
Entre as 3 mil da coleção do advogado carioca Sérgio Fadel foram selecionadas em torno de 200, que a partir desta semana estarão no MAM
Reprodução
Exposição

"O Lago" (1928), óleo sobre tela de Tarsila do Amaral

Vontade Construtiva na Coleção Fadel
Museu de Arte Moderna de São Paulo
De 31 de março a 15 de junho

A comparação pode não ser elegante, mas é correta. Com bons ingredientes é impossível fazer-se má comida. Com boas obras é impossível fazer-se má exposição – mesmo se ela embutir um viés. Entre as 3 mil da coleção do advogado carioca Sérgio Fadel foram selecionadas em torno de 200, que a partir desta semana se encontram no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Vale a pena ver.

O título Vontade Construtiva na Coleção Fadel deixa claro que a escolha se prendeu a um princípio – ou a um conceito, para usar uma palavra mais da moda: pinçar trabalhos que ilustrem a “vontade construtiva geral” que, dizia Hélio Oiticica, presidiria toda a produção brasileira. Estão abundantemente presentes os concretistas, neoconcretistas e outros abstracionistas geométricos, assim como figurativos dessa índole, entre eles Rego Monteiro e a primeira Tarsila do Amaral.

Está ausente a grande produção lírica ou expressionista tanto figurativa quanto abstrata (que evidentemente também existe na coleção). Di Cavalcanti, Guignard, Iberê Camargo, Ismael Nery, Anita Malfatti comparecem com um ou outro quadro avulso ad hoc.

A tese da vocação construtivista tem fundamento e bons defensores. Mas de 20 anos para cá tem sido superestimada e abusada. Força-se um pouco a barra. Com a diminuição de obras modernistas disponíveis, o mercado botou todas as suas fichas na produção dos anos 1955 em diante. A intelligentsia acompanhou. Corre-se hoje o risco de uma leitura deformada de nossa arte. É preciso alertar.

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