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Número 793,

Economia

Análise / Delfim Netto

A “sabedoria” das agências

por Delfim Netto publicado 30/03/2014 09h33
A S&P rebaixou a nota de risco do Brasil ancorada em uma opinião arbitrária

Nada leva a crer que as “agências de risco” sejam hoje mais “sábias” do que eram em 2008, quando não foram capazes de antecipar (nem para seus clientes) a tempestade que se armava na economia mundial, em decorrência da patifaria que grassava com sua convivência nos mercados financeiros. Uma tragédia cujos custos são pagos até hoje pelos 50 milhões de honestos trabalhadores que perderam seus postos de trabalho e as condições de sustento de suas famílias. Elas ainda lutam para recuperar a credibilidade perdida, dentre elas a S&P, que acaba de rebaixar em 1 ponto a “nota de crédito” do Brasil, embora o País tenha permanecido 1 ponto acima no chamado “grau de investimento”.

Essas agências, sabemos, têm critérios bastante duvidosos de análise, o que nos leva a suspeitar de muitas de suas conclusões e, ainda mais, de suas previsões. No caso atual do anúncio da Standard & Poor’s, era um acidente anunciado. Ela vinha dizendo que observava de perto a economia brasileira e que havia uma probabilidade de rebaixamento da nota. Seus eventuais efeitos – se é que eles são significativos – já tinham sido incorporados aos preços do mercado.

Aconteceu. No comunicado, a S&P cita fatos, mas a interpretação que oferece para eles nos parece exagerada. O Brasil não tem hoje grave problema fiscal. Temos uma relação Dívida Bruta/PIB estável há dez anos, em torno de 60%. Temos, infelizmente, uma “perspectiva” de que esse equilíbrio fiscal possa piorar no futuro, desde que o governo não tome as providências para enfrentá-lo.

Não tem, entretanto, um fato que hoje nos leve a isso. O atual déficit fiscal é em torno de 3,5% e 4%. Não é nada exagerado para um país como o Brasil. O governo Dilma se comprometeu a manter a relação Dívida/PIB. Vai fazer em 2014 um superávit primário de 1,9%. A agência não acredita e antecipa, sem esperar alguns meses para confirmar sua dúvida, que ele é impossível.

Com relação ao crescimento, é inegável que ele é muito pequeno, talvez abaixo de nossas possibilidades. O mundo inteiro enfrenta o mesmo problema. Crescemos no ano passado 2,3%, o que não é, evidentemente, dos menores dentre as demais economias, num ano em que até o crescimento chinês encolheu. De qualquer forma, não podemos estar satisfeitos. É uma taxa muito baixa, ruim para uma economia como a brasileira, que criou uma inclusão social, desenvolveu um mercado interno muito importante, que mantém um consumo em alta e um nível de emprego bastante satisfatório.

O crescimento é liderado pelo investimento, que é o que o governo tem tentado estimular, com alguns avanços depois de ter aprendido como ativar as concessões nos projetos de expansão da infraestrutura.

A agência diz que o Brasil está numa situação externa complicada, o que precisa ser relativizado. Temos reservas acumuladas da ordem de 370 bilhões de dólares, mas o déficit em conta corrente é grande. Agora mesmo o Banco Central acaba de estimá-lo em 80 bilhões de dólares para 2014. Não é uma coisa que possa continuar. De fato o mercado aqui ajudou a corrigir os erros do governo: a desvalorização cambial em curso vai dar mais resultados daqui a 10 ou 12 meses. Pode-se dizer que a situação é desconfortável, mas não que indica a iminência de uma tragédia.

A agência S&P luta bravamente em busca da credibilidade que ela e suas companheiras menos exibicionistas perderam na crise de 2008. Graças aos rapapés dos analistas financeiros e das autoridades brasileiras, ela teve, enfim, seus 15 segundos de preciosa visibilidade. Não adianta brigar com os fatos. As agências têm importância devido a um oligopólio misteriosamente construído e conservado pela legislação administrativa dos EUA. O “grau de investimento” que o Brasil ainda mantém estabelecido por ao menos duas agências é necessário para os fundos de investimento poderem aplicar no País.

Não vamos ter ilusão: tudo isso deverá ter consequências. Talvez o anúncio já estivesse até marcado na curva, mas significa, no mínimo, a consolidação da elevação dos custos do financiamento do Brasil, não apenas do governo, mas também do setor privado.

A única coisa a lamentar é que uma opinião arbitrária, firmada no puro preconceito a priori de que o governo não aprendeu nada e estava apenas ganhando tempo com suas promessas, tenha levado a S&P a atravessar o samba, negando um voto de confiança de no mínimo um semestre para verificar se ele não havia mesmo mudado.

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