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Número 792,

Economia

Análise / Thomaz Wood Jr.

Os lobinhos de Wall Street

por Thomaz Wood Jr. publicado 26/03/2014 05h04, última modificação 26/03/2014 05h47
Um filme de Woody Allen, outro de Martin Scorsese, o mundo insalubre das finanças e a vida como ela é. Por Thomaz Wood Jr.
Divulgação
wall street

Os cinemas em 2013 apontaram suas lentes para o extravagante mundo das Finanças. Na foto, O Lobo de Wall Street, de Scorsese

Em 2013, dois ícones do cinema apontaram suas lentes para o extravagante mundo das finanças. Woody Allen escreveu e dirigiu Blue Jasmine, narrando a história de Jeanette “Jasmine” Francis (Cate Blanchett), esposa de um milionário que é preso por fraudes financeiras. Martin Scorsese dirigiu e coproduziu O Lobo de Wall Street, baseado nas memórias de Jordan Belfort, um corretor que acumulou fortuna com negócios fraudulentos, até ser encarcerado.

O filme de Allen foi comparado à peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, por similaridades relacionadas aos personagens e à história. O vaporoso mundo das finanças constitui a origem da riqueza e da tragédia de Jasmine. No filme de Scorsese, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) encarna os excessos e a flexibilidade moral frequentemente associados ao mundo das finanças. Personagens, estilo e enredo remetem a Goodfellas (1990), retrato primoroso da ascensão e queda de uma família mafiosa, e Cassino (1995), registro singular da interseção entre negócios e crimes em Las Vegas.

Obviamente, há muito mais do que personagens extravagantes e estripulias fraudulentas nos templos do dinheiro. Kevin Roose, autor de Young Money: Inside the Hidden World of Wall Street’s Post-Crash Recruits (Grand Central Publishing), lançado em fevereiro de 2014, pesquisou os lobinhos que habitam os porões do sistema. Roose acompanhou, por três anos, jovens recrutas de renomadas instituições financeiras.

Seus personagens vieram das melhores universidades, cheios de energia, com alguns ideais e muita vontade de enriquecer. Entretanto, viram seu entusiasmo ser arrefecido por pilhas de relatórios enfadonhos, jornadas intermináveis e chefes intolerantes. O autor informa que os salários ainda são respeitáveis, porém não houve entrevista na qual os jovens profissionais não tivessem reclamado do declínio de sua qualidade de vida e confessado problemas relacionados à saúde física e mental.

Roose concluiu que três fatores explicam por que Wall Street (leia-se: partes consideráveis do mundo das finanças) é um lugar insalubre. O primeiro fator relaciona-se às longas horas de trabalho. Muitos profissionais de outras ocupações trabalham duro. A diferença no mercado financeiro é a turbulência e a instabilidade. Pedidos urgentes podem vir a qualquer momento, do dia ou da noite, e o atendimento tem de ser perfeito e imediato. A consequência é que os jovens profissionais vivem em estado permanente de alerta e ansiedade.

O segundo fator é o vil metal. Indústrias vivem ciclos. Informática, telefonia móvel e consultoria tiveram seus bons momentos, atraindo recrutas com boas perspectivas de carreira e bons salários. Mas nada dura para sempre. O mercado financeiro também teve anos felizes. Hoje, é um mundo em transição. Ainda há bons empregos e bons salários, mas os controles aumentaram, as margens de lucro tendem a cair e a possibilidade de demissão projeta uma sombra permanente sobre os mais jovens.

O terceiro fator refere-se ao senso de propósito. Segundo Roose, jovens profissionais têm objetivos que transcendem o acumulo de riqueza. Alguns são iludidos por conversas sobre “negócios socialmente responsáveis” e “investimentos verdes”. Porém, rapidamente, o discurso da moda cede espaço ao pragmatismo: no mundo das finanças alguém perde para outro alguém ganhar. E o objetivo é estar do lado dos ganhadores. Naturalmente, há sempre um contingente de jovens “espertos”, capazes de conviver sem problemas de consciência com tal lógica.

O quadro não é diferente nos trópicos. Também aqui muitos universitários almejam o enriquecimento rápido e o status de pertencer a uma grande instituição financeira. No entanto, colegas professores coletam com frequência relatos sinistros, de alunos e ex-alunos, lutando contra úlceras e depressões. Trocam amigos e família por trabalho. Hipotecam a saúde por prêmios e bônus, esperando que o corpo possa ser resgatado mais tarde. A satisfação, ou orgulho, de trabalhar para uma grande instituição financeira está cedendo lugar à indiferença, ou ao embaraço, de estar ligado a um templo do dinheiro. E o contracheque cada vez mais magro não parece mais ser suficiente para adoçar a consciência.