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Número 792,

Política

Análise / Paul Krugman

Os custos da desigualdade

por Paul Krugman — publicado 25/03/2014 04h55
Algumas dúvidas pertinentes sobre um recente estudo do Fundo Monetário Internacional

Prometi, recentemente, compartilhar algumas preocupações a respeito de um trabalho sobre redistribuição e crescimento de Jonathan D. Ostry, Andrew Berg e Charalambos G. Tsangarides, pesquisadores do Fundo Monetário Internacional. Eles concluem não existir efeito negativo das políticas de redistribuição, ao menos dentro do alcance normal, e muito possivelmente há um efeito positivo da redução de desigualdade.

Acho que posso enunciar minhas preocupações de maneira útil em termos de minha comparação favorita nessas questões: Estados Unidos e França.

Por que essa dupla? Porque falamos de dois países avançados que claramente têm níveis semelhantes de competência tecnológica, mas fizeram opções de política social muito diferentes. Em particular, a França não apenas pratica muito mais redistribuição, como expandiu sua redistribuição ao longo do tempo e limitou o aumento da desigualdade em geral, enquanto os Estados Unidos não o fizeram.

Como se comparam os destinos dos dois países durante a Nova Era Dourada? O crescimento, na verdade, foi um pouco mais lento na França, embora dificilmente seja a catástrofe que as incessantes más notícias sobre o país poderiam nos fazer esperar. De maneira mais surpreendente, porém, o nível, em oposição ao ritmo de crescimento, do PIB francês per capita é substancialmente menor.

Essa é minha principal preocupação em relação ao estudo. Suponha que um indivíduo pense que as fortes políticas redistributivistas reduzam o nível de produtividade, mas é uma mudança única, não uma depressão permanente. Então ele poderia aceitar seu resultado de uma falta de impacto no crescimento, mesmo se acreditar em graves efeitos para a produtividade.

Agora, os pesquisadores do FMI possivelmente responderam a essa objeção ao incluir o atual nível do PIB per capita em suas regressões, que indicam que um país com PIB per capita menor deveria crescer mais depressa que os EUA, se as outras coisas foram iguais. Por isso, qualquer efeito de depressão no nível de redistribuição deveria aparecer como um fracasso desse crescimento mais rápido em se materializar. Mas não tenho certeza se isso é bom o suficiente.

De modo interessante, o subdesempenho francês é uma questão de baixo insumo de trabalho, em vez de baixa produtividade. Quando você esmiúça esse baixo insumo de trabalho, começa a parecer o resultado de algumas políticas muito específicas, em vez da redistribuição em geral: um sistema de previdência que incentiva a aposentadoria precoce, regulamentos que dão aos franceses menos horas de trabalho e muito mais tempo de férias do que nós temos.

Ainda estou basicamente de acordo com o trabalho do FMI, mas penso que devemos reconhecer que não é tão sensacional quanto os liberais gostariam.

Recentemente, a grande manchete na primeira página do site do Financial Times, ao menos na edição americana, conectava a um artigo sobre o Banco de Compensações Internacionais. Segundo o FT, o banco adverte que a “orientação futura”, a tentativa de fazer as taxas de juro de longo prazo baixarem prometendo manter as taxas de curto prazo baixas por muito tempo, “poderia pôr em risco o sistema financeiro internacional”. Tipicamente BIS, raciocinei. E me preparei para escrever um post no blog.

Mas primeiro pensei: deveria verificar o verdadeiro relatório do BIS citado no artigo. E ele não é muito parecido com a descrição do Financial Times. Sim, ele menciona possíveis riscos para a estabilidade financeira, mas também fala sobre os motivos da orientação futura e a necessidade de algum tipo de estímulo não convencional. Se parece um pouco desanimado sobre a política, é mais sobre eficácia duvidosa do que sobre a perspectiva de catástrofe. Em outras palavras, o fator medo aqui tem mais a ver com o Financial Times projetar seus próprios preconceitos sobre o BIS.

E isso, acho eu, é um indicador. O ímpeto para aumentar as taxas (as razões continuam a mudar, mas a demanda ainda é a mesma) é generalizado na mídia financeira. Por quê? As razões em constante mudança de uma política que nunca muda sugerem não estarmos realmente falando sobre análise de políticas. Não, falamos sobre uma mistura de interesse de classe (os rentistas querem suas rendas) e desejo de ver a economia como uma peça moral (o dinheiro fácil parece bom, portanto, deve ser ruim).