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Número 792,

Política

Editorial

Dilma já não é o delfim

por Mino Carta publicado 21/03/2014 07h44
Porque no caminho da reeleição da presidenta, Lula não poderá desempenhar o mesmo papel que lhe coube em 2010

É da percepção até do mundo mineral que a campanha para as eleições de outubro de 2014 começou faz muito tempo. CartaCapital entende ser correto definir seu apoio a um dos candidatos, como sempre fez, somente quando começarem horário gratuito e debates diretos. Para tanto falta bom tempo, obscurecido neste momento por dúvidas ponderáveis.

Pelo caminho, surge o fantasma da Copa, amoitado nas carências da infraestrutura e nos andaimes das obras inconclusas. Está claro que o Mundial da bola funcionará como um mostruário do Brasil atual aos olhos do mundo. O que, sejamos claros, implica alguns riscos. Sem excluir a possibilidade, melhor, a probabilidade, de manifestações à sombra do torneio similares àquelas do ano passado. Ou mesmo mais acirradas.

Há outras pedras no percurso. No Fórum Brasil, realizado por CartaCapital nos dias 18 e 19 passados, a principal estrela do evento, o Prêmio Nobel Paul Krugman, no quadro de uma ampla análise dos efeitos da crise global, afirmou a “invulnerabilidade” do Brasil. Fez-lhe de contraponto o professor Delfim Netto, para lembrar que,graças aos juros “mais altos do mundo” praticados pelo Brasil, somente a Santa Casa de Misericórdia é mais caridosa com a especulação internacional.

Transparece a crítica a uma política econômica que, para manter o real em patamares irrealistas, representa um duríssimo golpe contra o empresariado brasileiro, mais feliz em outros tempos como exportador de manufaturados. No mesmo evento, o pré-candidato Eduardo Campos, ao sublinhar a longa vida do Brasil como exportador de commodities, desenvolveu a parábola de um país que remete minério de ferro ao exterior e recebe de volta os trilhos das suas ferrovias.

Paul Krugman não é, infelizmente, uma agência de rating, habilitada, do alto da sua consagrada onipotência, a discordar do Prêmio Nobel. É simples compreender que esta categoria de entraves na direção das próximas eleições dificulta é a presidenta Dilma em busca de reeleição. Verifica-se que sua impopularidade junto ao empresariado tem suas razões, bem como há razões para explicar as difíceis relações com o Congresso, inclusive com os próprios parlamentares petistas, sem contar as injunções de alianças penosas a bem da chamada governabilidade. E a fisiologia chantagista do “blocão”.

Os percalços políticos decorrem claramente da falta do exercício da própria política, em contraposição às extraordinárias qualidades exibidas por Lula neste campo específico. Algo, de todo modo, é certo: desta vez a criatura não contará com o mesmo gênero de apoio recebido pelo criador há quatro anos. Em 2010, Lula haveria, em primeiro lugar, de justificar a sua escolha. Cabia-lhe desenhar por completo o perfil de Dilma Rousseff e de apresentá-la como sucessora ideal. Em 2014, passa a ser prioritária a tarefa da presidenta de expor os porquês da sua reeleição. O que também é da total compreensão até do mundo mineral. A criatura teve larga oportunidade de mostrar a que veio e tem de aproveitá-la.

Lula estará ao lado de Dilma, é óbvio, assim como é impensável que possa tomar-lhe a candidatura, embora não falte quem faça previsões a respeito, no bem e no mal. O ex-presidente certamente mergulhará no papel que agora lhe compete, não mais aquele do soberano que sustenta o delfim na hora da sucessão. Estará nos palanques, com outra função, contudo.

De certa forma, Lula já faz campanha. Ao apontar indiretamente em Eduardo Campos uma espécie de reencarnação de Fernando Collor, Lula se antecipa a um dos temas do futuro adversário de Dilma. O qual hoje enaltece o governo do ex-metalúrgico, de quem foi fiel aliado, para sustentar que Dilma deixou de ser sua natural continuidade. Afirma o pré-candidato que a presidenta desfez o bem feito pelo antecessor, tese tão perigosa quanto esperta, como se pode perceber. Lula, prontamente, trata de aviar o antídoto.

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