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Número 792,

Cultura

Protagonista

De cara limpa

por Orlando Margarido — publicado 22/03/2014 09h11, última modificação 24/03/2014 11h09
Acossado pela violência e dor, Cristiano Burlan busca no cinema a integridade familiar e social. Por Orlando Margarido
Gustavo Lourenção
Cristiano Burlan

Cristiano Burlan, o diretor de 39 anos

Cristiano Burlan tem pouco a perder, pois muito já perdeu. Sabedor dessa condição, o diretor de 39 anos não se intimidou diante do  público durante seu agradecimento ao Prêmio Governador do Estado, entregue no fim de fevereiro em São Paulo. Atento ao discurso vazio dos políticos, usou do estratagema para ser sintético e pedir uma polícia mais humana, desmilitarizada e sem armas. Os poucos minutos concedidos ao vencedor constrangeram o representante maior do Executivo estadual sentado na plateia. Este vinha saudar, segundo um júri especializado, o melhor filme de 2013, Mataram Meu Irmão, documentário sobre o assassinato de Rafael Burlan da Silva no Capão Redondo, 12 anos antes. É apenas um dos capítulos de uma trajetória composta de tragédias e uma sobrevivência.

O sobrevivente é ele, mas não ileso. Gaúcho, primogênito entre cinco irmãos, Burlan assistiu desde cedo sua família se esfacelar. Na infância, havia a violência entre o pai, operário da construção e alcoólatra, e a mãe, empregada doméstica que não suportou a agressão, fugiu e deixou os filhos com o marido. Este leva todos a se estabelecer em um dos bairros mais violentos do extremo sul da capital paulista, onde morreria, em 2004, ao bater a cabeça em uma queda, tomado pela bebida. O realizador cresceu no Capão Redondo como testemunha contumaz, muitas vezes ocular, de um espectro mais amplo de crime, quando 10 entre 12 amigos foram mortos a tiros por policiais militares. Segundo ele, a mesma Rota a quem ele liga o mandante da morte do irmão, em ­parceria com os traficantes locais.

Surgiu nesse contexto o desabafo no palco naquela noite. “Você percebe a ironia, o absurdo que foi eu receber esse prêmio do governo que controla a PM e em última instância é responsável pelo assassinato do Rafael? Não me conformo, e isso é um exemplo do desconhecimento desses políticos do que os rodeia.” O diretor saiu com o troféu e um cheque de 60 mil reais, cuja origem não o constrange. “Não posso me dar a esse luxo e vou utilizar do melhor modo que posso, fazendo cinema.”

Com 15 títulos no currículo, entre curtas, médias e longas-metragens, seu cinema é de partido pessoal, mas também social. Essas duas linhas se encontram em Mataram Meu Irmão, quando contrapõe a figura de Rafael, querido entre familiares, pela viúva e pelos filhos, ao rapaz que se envolveu com drogas e passou a roubar carros, motivo da execução. É do melhor amigo de Burlan o testemunho mais contundente, que desconstrói a imagem simpática ao biografado. A visão expande-se a um painel da periferia. “Ali continua a valer o lema de atirar primeiro e perguntar depois.”

O diretor expõe a si e aos seus num relato corajoso. Ouve por telefone um irmão detido em Cuiabá por assalto. Relata que outro está foragido. Quando reencontra a irmã e a família desta, a emoção vem à tona e com ela a pergunta do porquê de tantas desgraças e se permanecerão a salvo delas. “Ele é um fenômeno de uma geração proletária que abre espaço entre os realizadores da classe média”, analisa o crítico Jean-Claude Bernardet, que colheu depoimento de Burlan e colabora em seus filmes. “Seu duplo olhar neste documentário, de apego e distância, não tem mais a ver com a luta de classes, e é também estético, muito construído.”

O realizador sabe das circunstâncias que o levaram “ao outro lado do rio”. Com o pai daquele amigo franco, conheceu uma coleção de livros e passou a ler. Frequentou bibliotecas e se isolava nas salas de cinema, com a lembrança dos filmes dos Trapalhões, levado pela mãe. Hoje, dificilmente deixa de recorrer a uma referência literária, de Freud a Dostoievski, ou cinematográfica, de Luc Besson e François ­Truffaut, o cineasta francês que enfrentou semelhante aproximação à marginalidade.

A pressão contrária persistiu. Burlan passou pelas drogas e roubou. Com o alento das primeiras, procurou de tocaia e arma em punho um dos matadores do irmão. Recuou quando percebeu não ter coragem “de se igualar”. “Ainda penso em matar, mas tenho um instinto de sobrevivência mais forte que o desejo de vingança.” Na trajetória, rejeita qualquer conotação de ter sido salvo ou escolher um caminho. Garante não ter feito terapia nem apela a medicamentos. “Nunca controlei minha vida, sigo improvisando, e fazer cinema está nisso.”

Numa espécie de trilogia do luto, começou por refletir sobre o pai em Construção (2006). A sequência com Mataram Meu Irmão aprofundou a dor e agora se diz em crise. Para exteriorizá-la rodou Amador, sobre um diretor (seu alter ego Henrique Zanoni) em busca de um rosto para seu cinema. O filme será exibido dia 29 no CineSesc, em uma seleção da Mostra de Tiradentes. Agora se dedica a uma adaptação de Michel Foucault para o teatro e de Ham­let para o cinema, também com Zanoni, com quem divide o ofício de dar aulas.

A violência nunca cessa de se mostrar e lhe impõe dúvidas. A atual é se lançar ou não ao fecho da trilogia. Em 2011, o realizador recebeu a notícia do assassinato da mãe pelo novo companheiro, que está foragido. “Quero ir atrás dele, mas não sei se consigo só apontar a câmera ou também uma arma.” Se suas palavras surgem com a naturalidade de quem cresceu no olho do furacão, outras são mais elaboradas. “Não me reconheço como um cineasta. O cinema para mim é um ato criminoso, pois sempre tive de exercê-lo de forma ilegal, sem incentivos oficiais e pondo minha equipe em risco. Além disso, existe uma crueldade intrínseca em utilizar a imagem do outro para fazer um filme.”

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