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Número 792,

Saúde

Entrevista

Cirurgia bariátrica: esperar ou não?

por Riad Younes publicado 28/03/2014 06h27
Redução de estômago não é só para obesos. Diabéticos e hipertensos podem se beneficiar
Adrian Clark/Flickr
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No Brasil, 15% da população é obesa. A cirurgia bariátrica pode ajudar a controlar casos de hipertensão e diabetes relacionados à obesidade

A cirurgia da obesidade, ou cirurgia bariátrica, tornou-se uma rotina. Quando bem indicada, seus benefícios são claros e seus riscos de complicações graves calculados e minimizados. Desde que sua segurança e seus resultados foram confirmados em vários centros no mundo, bem como no Brasil, as autoridades de saúde se preocuparam com o uso excessivo dessa cirurgia e estabeleceram regras e limites para ela. Em geral, pacientes muito obesos, já com doenças associadas à obesidade com controle ineficaz, e com complicações crônicas como diabetes ou hipertensão, são os candidatos mais óbvios para a cirurgia bariátrica. No entanto, se a cirurgia reverte a obesidade e alivia a hipertensão e o diabetes, por que limitar a recomendação aos pacientes já com estágios mais avançados do problema? Recentemente um editorial da prestigiosa revista britânica de medicina The Lancet perguntou: “A Cirurgia Bariátrica: Por que somente como último recurso?” Conversamos com o doutor Ricardo V. Cohen, cirurgião especialista em obesidade, chefe do centro de cirurgia bariátrica do Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo e autor de um artigo sobre o tema na mesma revista The Lancet.

CartaCapital: A cirurgia de obesidade está em expansão no mundo. Qual o real tamanho do problema no Brasil?

Ricardo  Cohen: A cirurgia para obesidade e suas doenças associadas tem crescido no País. No Brasil, cerca de 15% da população é obesa e 5%, obesa mórbida. Mais de 12 milhões de brasileiros são diabéticos e um bom percentual deles está fora de controle.

CC: A cirurgia é realmente eficaz?

RC: Sem dúvida. Cirurgia bariátrica e metabólica é uma grande ferramenta no tratamento da obesidade e de suas complicações, principalmente o diabetes. Infelizmente, a chance de sucesso em tratar a obesidade isoladamente com mudanças de estilo de vida e remédios em geral é mínima, seja pela pequena aderência dos pacientes, seja pela falta de medicamentos que funcionem a longo prazo. Já a cirurgia tem diversos estudos prospectivos com mais de 20 anos de seguimento e uma manutenção da perda do excesso de peso que varia de 60% a 65%.

CC: E no caso do diabetes?

RC: A cirurgia mostrou-se muito eficiente em reverter a gravidade do diabetes já instalado, assim como em prevenir seu desenvolvimento em pessoas obesas. A incidência de doenças cardiovasculares também é reduzida a longo prazo.

CC: Existe uma limitação recomendada para a indicação de cirurgia bariátrica em pessoas obesas, basicamente baseada no peso ou no IMC – Índice de Massa Corpórea.
O que acha disso?

RC: Em relação ao diabetes, é interessante observar que não existe relação entre o IMC do paciente e a chance de controle da doença, nem previsão de se qualquer tratamento, clínico ou cirúrgico, será eficaz baseado puramente no IMC. Diversas pesquisas mostraram que existe ações antidiabéticas diretas das operações bariátricas e metabólicas, independentes até da perda ponderal. Então, se o universo de diabéticos aumenta a números epidêmicos, a doença está mal controlada e temos ações independentes da perda de peso da cirurgia sobre seu controle, por que não oferecê-la como opção para aqueles que não conseguem controle clínico?

CC: O editorial de The Lancet e o seu artigo abordam esta dúvida.

RC: Exatamente. A questão em nosso editorial: precisamos de outros critérios de indicação cirúrgica, sem ser somente centrada no peso do paciente, mas sim focada na potencial gravidade de suas doenças. Portanto, com equilíbrio, temos de incluir mais precocemente a cirurgia metabólica e bariátrica nas rotinas de tratamento dos obesos e diabéticos. As operações são seguras, com baixos índi­ces de complicações graves e com mortalidade de 0,15%, hoje semelhante a uma simples retirada da vesícula, de acordo com um grande banco de dados internacional com mais de 155 mil pacientes. É óbvio que, se há um tratamento cirúrgico que oferece todas as vantagens com baixo risco, ele não deve ser de forma alguma a última opção, mas sim uma importante opção quando todas as opções clínicas falharam.

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