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Número 791,

Economia

Análise / Delfim Netto

Ventos asiáticos

por Delfim Netto publicado 18/03/2014 04h49
A desaceleração chinesa só começou, mas obriga ao reexame imediato das estratégias de comércio de países como o Brasil
STR / AFP
China

Um dos motores do desenvolvimento mundial, a China começa a mostrar sinais de redução de crescimento da sua economia

A Ásia é hoje um dos motores do desenvolvimento mundial, posição sustentada graças ao espetacular crescimento da economia chinesa nas três últimas décadas. Com a exceção do Japão, a maioria dos países da região que acompanhou a expansão da China tem demonstrado grande capacidade para manobrar durante esses anos de recessão produzida pela quebradeira dos mercados financeiros. Seguramente, porém, já começam a sentir sinais bem nítidos da redução do crescimento da economia líder.

É evidente que além dos vizinhos asiáticos, as demais economias do mundo sentem a necessidade de se preparar para as consequências da desaceleração chinesa. Ela está apenas começando, mas já obriga a um reexame das estratégias de comércio exterior de países – como o Brasil –, que respondem pelo fornecimento de um volume substancial das matérias-primas industriais e pelo abastecimento alimentar da maior aglomeração humana do planeta.

Todos têm de se antecipar, de alguma forma, aos efeitos de um processo de reformas e reajustes internos muito profundos, naquela situação em que a direção da economia chinesa precisa providenciar a troca do pneumático do caminhão durante a marcha, o que já produziu solavancos que mexeram com os mercados, interna e externamente: a moeda se desvalorizou, o que ajuda relativamente a economia chinesa. Ao mesmo tempo, coisas muito sérias produzem turbulência na área financeira, com a dificuldade de controle dos financiamentos proporcionados pelos “bancos fantasmas”. Não submetidos à regulamentação, respondem por empréstimos gigantescos para empresas que crescem vertiginosamente e vão à falência, como aconteceu na primeira semana de março com uma das grandes.

Essas coisas terão seguramente implicações no Brasil, quando a desaceleração da produção industrial obrigar a China a reduzir importações que adquiriram uma enorme importância nos resultados de nossas vendas externas, o minério de ferro em primeiro lugar. Com a queda da demanda chinesa, os preços não terão como se sustentar. Não é tão certo que isso nos atinja tão dramaticamente, pois, segundo informa quem entende do negócio – o presidente da Vale, Murilo Ferreira –, o minério brasileiro pode ter o benefício da qualidade por propiciar menor consumo de carvão (o que é bem-vindo em termos ambientais) e os chineses anunciam que vão bater este ano recordes na produção de aço e no consumo de minério de ferro.

Dito isso dessa forma simples, pode parecer a algumas pessoas que se trata de mais uma manifestação chinesa de intenção – apenas – de mostrar preocupação com o terrível problema da poluição do ar, mas o fato é que as autoridades do setor de saúde estão pressionando fortemente os governos para cumprir as metas de redução das emissões nas áreas industriais mais povoadas que resultam em meio milhão de mortes prematuras por ano, no país.

Para o Brasil, a sustentação de um ritmo firme de exportações para os mercados asiáticos, onde temos vantagens importantes no que diz respeito aos insumos para a indústria e nos produtos do agronegócio, poderá compensar em parte os efeitos da insegurança quanto à tênue recuperação europeia. Também insegura tornou-se a marcha da política de recuperação japonesa: já não se garante o sucesso da “Abenomics”, como se imaginou há alguns meses.

Em termos globais, então, as atenções se voltam para o comportamento da economia americana, que está crescendo mais fortemente, o que ajuda até um pouco a recuperação na Europa, mas que prossegue insegura no campo da economia, ao qual se acrescentaram agora fortes ingredientes de instabilidade política e de ameaças militares, como “nos velhos tempos”...

As exportações brasileiras representam 13% e as importações 14% do PIB, a preços de mercado. Mesmo assim, a conjuntura mundial tem influência no resultado do nosso crescimento. Existe uma correlação entre a conjuntura mundial e a nacional e é em função disso que temos maior facilidade para crescer um pouco mais quando ela é favorável.

A Ásia vai continuar sendo um motor importante do desenvolvimento mundial, daí porque precisamos que suas economias não murchem, para que não se reduzam nossas exportações e com isso o crescimento.

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