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Número 791,

Economia

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O Jockey quer voltar às cabeças

por Samantha Maia — publicado 23/03/2014 11h51
Eduardo da Rocha Azevedo e o plano de modernização do clube hípico
Pedro Presotto
Jockey

Entre as metas do presidente reeleito, a reforma do hipódromo e a atração de novos associados

Depois de três anos de uma gestão empenhada em colocar ordem no caixa e reverter uma dívida de mais de 400 milhões de reais em impostos, o Jockey Club de São Paulo está prestes a passar por uma restauração profunda. As reformas devem transformar as instalações centenárias do hipódromo, desgastadas pela ação do tempo há pelo menos 40 anos, e o modelo de governança, ultrapassado em relação aos padrões contemporâneos.

“Será um novo clube”, resume o presidente Eduardo da Rocha Azevedo, reeleito na terça-feira 11 para um novo mandato de três anos. O objetivo é instituir um conselho administrativo, profissionalizar a gestão e obter incentivos para recuperar as dependências do hipódromo, construído com painéis de mármore travertino trazidos da Itália, em 1940, e que hoje abriga o segundo maior acervo do escultor Victor Brecheret, um dos mais importantes artistas brasileiros.

As bases da reforma foram estabelecidas em um plano diretor, o primeiro da história, lançado no evento de comemoração dos 139 anos do Jockey, na sexta-feira 14. Os projetos de recuperação anunciados buscam resgatar o prestígio de uma era em que o clube foi o principal ponto de encontro da elite paulistana.

As obras deverão ser financiadas por meio da venda de títulos de Transferência do Direito de Construir, com emissão aprovada em todas as instâncias técnicas da prefeitura depois do tombamento do hipódromo. Há boa vontade da administração municipal e as obras poderão começar neste ano. “O valor a ser obtido seria mais do que o suficiente”, afirma Rocha Azevedo.

O clube submeterá o plano diretor, incluído o projeto de recuperação, ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental do município, para obter a isenção do IPTU prevista em casos de obras de conservação realizadas em edificações tombadas. Com as aprovações solicitadas, estará isento do imposto durante o período necessário à restauração.

As negociações com a prefeitura serão decisivas também para elaborar o orçamento. No momento, há uma previsão apenas para a primeira parte das obras, que inclui a arquibancada social e requer um investimento de 35 milhões de reais. A nova sede social substituirá aquela da Rua Boa Vista, no Centro da cidade, leiloada no ano passado por 90 milhões de reais para pagamento de dívidas. O local, próximo à antiga sede da Bolsa de Valores de São Paulo, foi um importante ponto de encontro de diretores e profissionais de instituições financeiras com sedes localizadas no entorno, em especial nas décadas de 1950 e 1960. Seu acervo de obras de arte, com pinturas de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Pancetti e Clóvis Graciano, será transferido para o hipódromo.

O esforço feito até agora permitiu ao Jockey reduzir a 190 milhões de reais a dívida com a prefeitura e a Receita Federal. Sem esse empenho, o valor devido estaria hoje em mais de 500 milhões. Para lidar com o problema, que levou a administração municipal a cogitar, em 2009, da desapropriação do hipódromo, o clube aderiu ao Programa de Parcelamento Incentivado e aceitou negociar a venda do terreno da Chácara do Ferreira, na Vila Sônia, zona oeste da cidade. Ingressou também no Programa de Recuperação Fiscal, para pagar as dívidas com a Receita.

Não é a primeira vez que o Jockey adere ao PPI. Na ocasião anterior, não conseguiu honrar o pagamento das prestações e em 2008 foi excluído do programa. Agora o plano tem sido cumprido e falta chegar a um acordo sobre os valores para negociar a chácara com a prefeitura. Realizada a transação, será possível saldar a dívida passada.

A reforma da gestão, por sua vez, deve ser submetida à assembleia dos sócios. O tempo necessário para a consulta é de quatro meses. “O Jockey precisa se profissionalizar e se modernizar, ser administrado como uma empresa”, diz o presidente. O clube fatura hoje cerca de 100 milhões de reais por ano e faz um grande esforço para não ter mais problemas de caixa.

Segundo Rocha Azevedo, é um erro concentrar tanto poder na presidência, uma característica ultrapassada de gestão. “Precisamos de um conselho administrativo e de um número menor de diretorias. Hoje há mais de 30. É uma estrutura muito antiga.” O presidente faz uma ressalva sobre a atual forma de administrar: “Não é que seja ruim, mas o mundo mudou”.

A meta é aumentar o número de sócios de 1,4 mil para 5 mil. No seu auge, entre as décadas de 1950 e 1980, o clube chegou a ter 6 mil associados. “Com a restauração, teremos um local melhor e corridas mais bonitas.” O Jockey possui perto de 1,4 mil animais da raça puro-sangue inglês.

Fundado em março de 1875 como Club de Corridas Paulistano, o Jockey Club de São Paulo faz parte da história da cidade. Seus criadores, Raphael Aguiar Paes de Barros e Antônio da Silva Prado, representavam tradicionais famílias paulistanas. O corpo social inicial era constituído por 73 sócios, integrantes da elite empresarial do estado. A primeira corrida oficial foi realizada em outubro de 1876, no Hipódromo da Mooca, na Rua Bresser. As reformulações propostas por Rocha Azevedo são uma oportunidades para recuperar os tempos de glória.

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