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Número 791,

Sociedade

Drogas

Experiência própria

por René Ruschel — publicado 25/03/2014 04h59, última modificação 25/03/2014 06h07
O responsável pela política antidrogas de Curitiba é um ex-dependente. Por René Ruschel
Jaelson Lucas / SMCS

Os ares na secretaria Antidrogas de Curitiba mudaram. Criada em 2008 pelo então prefeito Beto Richa, a pasta foi idealizada e estruturada a partir de uma ótica repressora e policialesca. Basta observar sua antiga estrutura administrativa. Até 2012, quando Luciano Ducci, sucessor e aliado de Richa, governava a cidade, os principais nomes da secretaria eram recrutados no setor de repressão a entorpecentes da Polícia Federal. Além do secretário, os postos de comando se dividiam nas diretorias de Planejamento, Operação e Inteligência.

Ao tomar posse, em 2013, Gustavo Fruet radicalizou. O novo organograma prevê apenas três coordenadorias: Prevenção, Tratamento e Ressocialização, além do setor de Pesquisa e Produção de Conhecimento coordenado por um acadêmico e médico psiquiatra. O secretário é o cirurgião-dentista Osiris Pontoni Klamas. O diretor de Política sobre Drogas, na prática o motor da secretaria, é um ex-dependente químico, Diogo Bussel, advogado de 30 anos, professor e mestre pela Universidade Federal.

Nascido em uma família de classe média “estruturada, unida e sem maiores problemas de relacionamento”, Bussel estudou em colégios particulares até se formar em Direito. Aos 12 anos, na escola, experimentou drogas pela primeira vez. Álcool, cigarro e depois maconha. Daí em diante não parou mais. Viveu um processo crescente de dependência. Com exceção dos injetáveis, experimentou de tudo. Aos 22, no fundo do poço, pediu socorro à família e foi internado pela primeira vez. “Não aguentava mais aquela vida e pedi auxílio. Fui para uma clínica e saí ‘limpo’.”

Durou pouco tempo. Bussel voltou a consumir drogas e resistia ao tratamento. “Imaginava ser capaz de conviver socialmente com a bebida. Não tinha consciência de que o álcool é tão grave quanto a cocaína e o crack.” Depois de ser internado pela terceira vez, o advogado viveu uma experiência que o marcou profundamente: o nascimento de um filho. “Tive uma luz, uma perspectiva diferente para a minha vida. Foi quando tomei a decisão de parar com qualquer tipo de droga, lícita ou ilícita.” Há mais de seis anos não experimenta nada.

Em 2013, convidado por Fruet, Bussel aceitou o cargo. Era a oportunidade de pôr em prática uma política mais humana, diferente da repressão e da violência, na qual o usuário não fosse visto como marginal, irrecuperável. Por experiência própria, aprendeu ser preciso retirar essa imensa carga moral sobre os usuários. Para ele, não se trata de um defeito de caráter. “É um problema de avaliação equivocada. Usam-se drogas pelas mais variadas razões que não nos cabe julgar.” O julgamento moral sobre o consumo de determinadas drogas, diz, atrapalha a formulação de políticas baseadas na comunidade científica, nos direitos humanos e na própria saúde.

No segundo semestre do ano passado, por meio de um centro de referência regional, foram treinados mais de 700 voluntários, entre familiares, lideranças comunitárias, servidores da prefeitura, professores, médicos e psicólogos. O objetivo era prepará-los para a mudança na política. “Todos de alguma forma estão ligados ao tema. Sejam os familiares, o servidor público no posto de saúde, o assistente social ou o guarda municipal que vai abordar um morador de rua. A mudança exige que os agentes estejam capacitados para vivenciar a nova experiência.”

No caso do tratamento de moradores de rua, Bussel considera o programa Braços Abertos, da prefeitura de São Paulo, um dos mais humanos e eficazes. Segundo ele, o projeto de internação compulsória aplicado anteriormente na capital paulista é totalmente equivocado. “O que se viu foi um verdadeiro arrastão humano na Cracolândia. Os usuários eram levados à força. Quando saíam das clínicas, retornavam para o mesmo local.” E mais: “Como privar alguém que está há anos nas ruas, viciado em crack, que pare de consumir do dia para a noite? É impossível”.

Bussel não se ilude com facilidades. Reconhece o esforço e a vontade política de Fruet para levar adiante esse projeto, mas tem noção dos obstáculos. Mudar conceitos, quebrar barreiras, é tarefa lenta e trabalhosa. A cultura da repressão está presente em seu dia a dia. Setores minoritários da Guarda Municipal, com quem divide espaços no próprio prédio onde trabalha, ainda defendem a truculência como melhor método. Mas ele prefere substituir a crítica pelo diálogo. Apesar de jovem, Bussel tem o couro curtido pela própria experiência. “Aprendi que o sentido para estar vivo é justamente ajudar o próximo.” É esse o norte da política em Curitiba.

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