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Número 790,

Economia

Análise / Paul Krugman

Superestrelas de Wall Street

por Paul Krugman — publicado 09/03/2014 08h07
Os lobos do mercado financeiro estão mais para Gordon Gekko do que para Homem de Ferro

O economista de Harvard Greg Mankiw escreveu mais uma defesa do 0,1% – e esta, em recente editorial do New York Times intitulado “Sim, os ricos podem ser merecedores”, é um tanto incrível.

Antes que eu chegue à parte incrível, porém, basta de estrelas de cinema – o primeiro ponto de Mankiw. Sim, um punhado delas ganha muito dinheiro, mas são uma parte trivial da história. As camadas superiores da distribuição de renda nos Estados Unidos são ocupadas de maneira avassaladora por executivos de algum tipo – corporativos, financeiros, imobiliários – e advogados que certamente são mais corporativos do que Perry Mason. E mesmo os grandes nomes da mídia não são jogadores de fato. Lembre-se, os 40 gerentes e corretores de fundos hedge mais bem pagos ganharam, em média, mais de 400 milhões de dólares cada em 2012.

O que me leva à parte incrível do artigo de Mankiw. Ele invoca o forte papel das rendas do setor financeiro na desigualdade americana para afirmar que essas fortunas são merecidas. “Um caso semelhante é a indústria financeira, onde podem ser encontrados muitos grandes pacotes de compensação”, ele escreve. “Não há dúvida de que esse setor tem um papel econômico crucial. Os que trabalham em bancos, capital de risco e outras firmas financeiras são encarregados de alocar os recursos de investimento da economia. Eles decidem, de maneira descentralizada e competitiva, quais companhias e indústrias vão encolher e quais vão crescer. Faz sentido que o país destaque para essa tarefa muitos de seus indivíduos mais talentosos e, portanto, altamente recompensados.” Mankiw esteve vivendo em uma caverna desde 2006?

Estamos agora no sétimo ano de uma recessão causada pelo excesso de Wall Street. O trabalho mágico de “alocar os recursos de investimento da economia” consistiu, hoje sabemos, principalmente em canalizar dinheiro para uma bolha imobiliária, enquanto se usava engenharia financeira requintada para criar a ilusão de investimentos sólidos e seguros. Também sabemos que há preocupações reais de que os fundos de investimento, em particular, na verdade destruam o valor de seus investidores.

Mais uma coisa: Mankiw afirma que nosso sistema fiscal é justo porque o 0,1% que ganha mais paga uma parcela maior de impostos federais do que a classe média. Isto não leva em conta a anulação parcial dessa progressividade pelos impostos estaduais e locais regressivos (o mesmo valor para todo mundo, independentemente da renda).

Mas, certamente, o ponto principal é que, na medida em que os impostos sobre o 0,1% são altos (eles não são, na verdade, em contexto histórico), isso acontece em grande parte porque Mitt Romney perdeu a eleição presidencial de 2012, de modo que a reversão parcial pelo presidente Obama dos cortes de impostos de George W. Bush e a cobrança a mais das altas rendas que hoje financiam parcialmente a reforma da saúde continuaram valendo. É meio engraçado que ele esteja alegando que nosso sistema é injusto graças às políticas que ele e seus amigos tentaram desesperadamente liquidar.

De qualquer modo, os lobos de Wall Street são mais Gordon Gekko do que Homem de Ferro. Se eles são o melhor argumento que os conservadores têm sobre a justiça da extrema desigualdade, não estão se saindo muito bem.

Philip Longman, editor sênior da revista Washington Monthly, escreveu em recente edição um artigo muito bom que desmitifica o entusiasmo sobre a economia do Texas (o artigo pode ser lido em www.washingtonmonthly.com/magazine/march_april_may_2014/features/oops_the_texas_miracle_that_is049289.php). Eu queria acompanhar um ponto em particular: o papel do petróleo e do gás nos últimos anos. Esses setores respondem diretamente por uma parcela bastante pequena da economia mesmo no Texas, mas  seu rápido crescimento, combinado com efeitos multiplicadores, representa uma história muito maior no que se refere ao crescimento do Texas.

Enquanto o PIB geral do Texas aumentou 13% de 2007 a 2012,  o PIB nacional cresceu apenas 2,5%. O que alguns cálculos sugerem é que o boom de petróleo e gás responde por mais de um quarto dessa diferença de crescimento.

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