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Número 790,

Política

Cinema

Sem reverso

por Orlando Margarido — publicado 08/03/2014 07h13
Na segunda parte de Ninfomaníaca, a objeção que a personagem de Charlotte Gainsbourg faz ao interlocutor se torna a reflexão central do filme
Divulgação
Ninfomaníaca

Joe (Charlotte Gainsbourg) do desvairio ao martírio

Pode-se tomar a objeção que a personagem de Charlotte Gainsbourg faz ao interlocutor, papel de Stellan Skarsgard, para refletir sobre o geral desta segunda parte de Ninfomaníaca. Desde o filme anterior, há ali uma relação de psicanálise, com Joe adulta a revelar sua promíscua vida sexual, a ninfomania do título, a um tipo solitário e culto. Esse conhecimento de Seligman se mostra em aproximações variadas entre os desvios relatados e referências prosaicas e artísticas, da pesca da truta à música de Bach. O dispositivo prossegue, mas incomoda Joe e ela reclama quando uma divagação lhe parece fraca. Não é o mal a que está atrelada que mais perturba a protagonista, mas o raciocínio e os paradoxos extraídos dele, recurso por demais matemático para ela.

Em muito desta sequência, estreia da quinta 13, primeira semana de mudança na data de lançamento em nosso circuito, há o sentido de contraponto. Lars von Trier quer nos mostrar agora o reverso da imagem da protagonista, e não por acaso há o capítulo do espelho. Assim, Joe questiona seu ouvinte, na suposta falta de excitação diante de seus desvarios sexuais, e estes agora se tornarão pena e martírio, e não mais puro êxtase. Mesmo quando busca parceiros, o resultado é patético. Ela vai ao limite do sofrimento físico e automutilação, e acredita poder se curar em sessões de sadomasoquismo.

Outras tentativas de Joe, como a de se cercear numa vida de casamento e uma gravidez, fracassam e abrem uma perversa chance de exercer seus talentos de modo profissional. Se antes existia um intuito de provocação cínica, em nos deixar nos levar pelo permissivo, esse contexto surge mais doloroso e amadurecido, pois se trata de encarar o irremediável.

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