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Número 790,

Cultura

Oscar

As ilusões vencidas

por Rosane Pavam publicado 11/03/2014 11h27, última modificação 11/03/2014 11h27
Na tradicional festa de premiação do Oscar, a apresentadora Ellen DeGeneres é a doutora da alegria no hospital do cinema.
Jason Merritt/Getty Images/AFP
Oscar

Matthew McConaughey, premiado como melhor ator, Cate Blanchett, melhor atriz, Lupita Nyong'o, melhor atriz coadjuvante e Jared Leto, melhor ator coadjuvante

Os dois viajam de carro pela estrada quando o mais jovem, David, ruma ao Monte Rushmore esperançoso de que o desvio de rota agrade ao velho Woody. No entanto, os rostos dos fundadores da nação norte-americana, Washington, Jefferson, Roosevelt e Lincoln, esculpidos na montanha e admiráveis para David, nada representam além de um amontado de pedras para seu pai. “Lincoln não tem uma orelha e Washington é o único vestido”, sentencia Woody sobre a gigantesca escultura, e se tranca no carro, pronto para retomar viagem.

É esta a sequência memorável de Nebraska, raro bom filme corrente à 86ª premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, dia 2, mas saído dela sem Oscar entre seis indicações. E foi também a sequência escolhida pelos organizadores da cerimônia para exemplificar o trabalho de Bruce Dern, concorrente a melhor ator. Contudo, os aplausos a esta iconoclastia bem-humorada foram discretos no auditório do Dolby Theatre, em Los Angeles. Patriotada é como se intitula uma reação assim, talvez coerente com o espírito de um país tingido pela guerra de dominação e assombrado por sua perda de posições. Apenas o diretor Alexander Payne parecia não se incomodar com tudo isso, a maior parte da cerimônia no bar. Gostaria de ter intitulado Vidas Secas o filme indicado, mas compreendeu que esse título pertencia a “nós”. São de fato existências ressequidas aquelas ali descritas, tomadas de incomunicabilidade e desilusão, não somente por efeito da velhice, antes porque o sonho americano se desfez em promessa de loteria.

Eles não querem liberdade, ensinava o grupo de rock Talking Heads, eles apenas querem alguém para amar. A apresentadora do Oscar deste ano, Ellen DeGeneres, bem o sabe. Na tevê norte-americana, menos versátil que Raul Gil, tendo desistido de julgar calouros no American Idol, a atriz de 56 anos exerce a vocação de animadora de bufê em um talk show que, além de conversas sorridentes, adota gincanas e pegadinhas entre os mal crescidos. Quando Ellen manda, David Beckham aceita falar aos fãs apenas as palavras que ela assopra em seu ouvido. Porque Ellen quer, Halle Berry se enfia em fantasia de pelúcia e quase sufoca até que ela a autorize a sair do personagem.

No domingo do Oscar, ao apresentar a cerimônia depois de sete anos, a atriz aprofundou a inclinação ao irrisório risível. De posse de um celular Samsung, empresa que destinou 20 milhões de dólares à veiculação de comerciais durante a cerimônia, entregou-o ao ator Bradley Cooper, que a seu pedido fez um selfie coletivo de celebridades. Ela tuitou a imagem, que obteve a maior visibilidade da rede social, 3 milhões de compartilhamentos. E talvez jamais uma cerimônia do Oscar seja a mesma depois daquela pizza que Ellen fez um entregador oferecer aos presentes, antes de arrecadar para ele 1,6 mil dólares em gorjeta. Talvez a cerimônia precise sempre, a partir de agora, de suas invenções. Uma corrida de mulheres com Louboutin em sacos de batatas, quem sabe? Ellen poderá tudo.

À maneira de seu discurso de apresentação, estará à vontade para caracterizar uma atriz do quilate de June Squibb como velha surda, Liza Minelli como drag queen e Amy Adams como analfabeta universitária. Depois dela, greve de roteiristas é candidata a piada pronta.

E ninguém se importará com o humor na descendente porque, de certo modo, o escárnio não constitui novidade em Hollywood. A indústria americana vive crise de irrelevância diante do dinheiro e da excelência dramática a jorrar pelas séries de televisão, essas que dependem apenas de assinantes exigentes. Clube de Compras Dallas, sucesso deste ano, tendo arrancado dois Oscar aos intérpretes Jared Leto e Matthew MacConaughey, malgrado seus atributos, não supera Breaking Bad. Em 2012, seis dos nove filmes indicados ao Oscar arrecadaram 100 milhões de dólares, mas acaso os executivos investiram em obras de profundidade para fazer seu dinheiro valer mais? Pelo contrário. Temerosos dos riscos, afundaram em velhas ideias, um mau entendimento, diga-se, do que prescreve a bíblia do capital.

O cinema americano, assim, transformou-se numa espécie de hospital em ala pediátrica. Eis por que Ellen DeGeneres funciona. Ela é a doutora da alegria de Hollywood. Sua ação corresponde ao espírito infantil dessa indústria. São filmes sobre paraísos longínquos, esperanças desacreditadas, o Lincoln sem orelha no Rushmore e poucos, muito poucos, comunicam a intensidade de viver. Ela explica isso à perfeição. O emotivo filme de Spike Jonze, com a estatueta de melhor roteiro original, retrata um deslocamento de expectativas. Incapaz de se comunicar afetivamente, o protagonista apaixona-se por um ser sem corpo enquanto todos interagem virtualmente como ele, desinteressados de crescer na relação com o próximo.

Neste ponto, o discurso da vencedora atriz Cate Blanchett funciona como um despertador das poucas consciências adultas. A magnífica intérprete de Blue Jasmine, que em 2004 vencera como coadjuvante por O Aviador, contrariou o esperado. Não centrou seu discurso em Woody Allen, o diretor acusado de abuso sexual pela filha, embora lhe tenha agradecido profundamente pelo papel. Ela alertou que o público estava velho demais para ficar de pé enquanto a aplaudia. Disse que toda aquela premiação era subjetiva. E terminou afirmando que atrizes como ela levam, sim, bilheteria aos filmes. “O mundo é redondo, gente!”, conforme lembrou.

E está em seu discurso a mais divertida crítica ao campeão de estatuetas na noite, sete delas, até mesmo a de melhor diretor para Alfonso Cuarón. Gravidade é uma peça de propaganda herdeira da Guerra Fria, com bons efeitos especiais e medíocre forma dramática. Nela, Sandra Bullock é vítima de uma barbeiragem russa e, aterrissada na areia, simula parir uma nova nação, alinhada aos chineses. Pois Cate Blanchett disse o seguinte, ao lembrar que todas as concorrentes a atriz deste ano, como La Bullock, a impressionavam: “Sandra, eu poderia assistir à sua performance até a eternidade. De certo modo, senti ter feito isso”.  Toda aquela chatice parecia exacerbá-la. Estava no bar do teatro quando o selfie aconteceu. Dividiu drinques com Julia Roberts. E saiu da festa destruída e mal-humorada, amparada a uma amiga que carregava um par de sapatos, como um paparazzo revelou.

Durante a festa, não só ela ralhava com os doentes. O ator Bill Murray, de penteado à moda Nebraska, improvisava a existência de um concorrente em sua apresentação. Era o diretor Harold Ramis, morto dia 24 sem ganhar qualquer Oscar, doutor em Artes e amigo que o dirigira em Feitiço de Tempo. Não só por esse filme, mas pelo roteiro de Os Caça-Fantasmas e pela direção de sua demolidora leitura da história, Ano Um, Ramis mereceria a honraria desde muito tempo, sinalizou Murray. “Mas comédia nunca leva Oscar. Feitiço do Tempo foi um dos roteiros mais bem escritos e não recebeu nem mesmo uma indicação”, lembrou depois. O próprio Murray, indicado por Encontros e Desencontros, perdeu em 2004 para o Sean Penn de Sobre Meninos e Lobos, uma dívida a mais para o saldo dos acadêmicos.

É mesmo uma festa a ponto de falir, à maneira daquelas de Jep Gambardella em A Grande Beleza, filme estrangeiro vencedor? Ao lado do protagonista Toni Servillo, o diretor Paolo Sorrentino dedicou a honraria, nessa ordem, a Federico Fellini, Martin Scorsese e Diego Maradona. Seu filme é um épico espetacular sobre a decadência da civilização ocidental, aquela um dia responsável por grande arte e que hoje mercantiliza estamparias e chocolates na afamada ala pediátrica do hospital do mundo. “É assim que sempre termina. Com a morte”, diz Gambardella em uma fala do filme, para lembrar, contudo, que a vida se aninha sob o blablablá: “Escondidos sob a tagarelice e o barulho, o silêncio e o sentimento, a emoção e o medo, há os flashes abatidos e inconstantes de beleza”.

Quem a viu jamais esquece. A beleza, nas artes plásticas como na música, sempre houve e se espera ainda haver. Há muito barulho em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, a respeito disso, mas os acadêmicos não quiseram ouvi-lo. O filme recebeu duas indicações não contempladas, mas, protagonizado pelo músico nascido na Guatemala Oscar Isaac, bem merecia outra atenção. Todos preferiram Gravidade a esta leitura demolidora do fim de um sonho, a esta representação impiedosa do americano desterrado e invisível.

Contudo, é preciso reconhecer que o Oscar faz bem quando destaca o horror ao passado escravocrata, tornando simbólicos de uma nação, em lugar do índio, o negro e sua dor. 12 Anos de Escravidão é uma peça contundente nessa direção. Embora tenha premiado a competente e graciosa Lupita Nyong’o como coadjuvante, o Oscar descartou Chiwetel Ejiofor na encenação das atrocidades. Preferiram em seu lugar Matthew McConaughey, que interpreta com obstinação o caubói aidético em Clube de Compras Dallas.

McConaughey inovou na arte dos discursos. Pela primeira vez alguém agradece a si mesmo pela conquista de um Oscar. Hoje ele é seu herói de dez anos antes, tentou explicar confusamente, não sem lembrar que em sua vida há Deus, este que deve estar feliz com tantos artistas arrancados à sua convivência nos últimos meses. O documentarista brasileiro Eduardo Coutinho foi lembrado na homenagem aos mortos no Oscar. Explica seu amigo, o diretor brasileiro Walter Salles, que Coutinho havia aceitado o convite para atuar como membro da seção de documentários da Academia. Segundo um integrante, o convite foi feito porque, com sua obra, o diretor oferecia “uma contribuição única e duradoura para o cinema documental”. O cineasta merecia a homenagem, disse ainda, e a Academia fez a coisa certa.

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