Você está aqui: Página Inicial / Revista / O Chavismo sob pressão / Um erro de avaliação
Número 788,

Economia

Análise / Delfim Netto

Um erro de avaliação

por Delfim Netto publicado 27/02/2014 05h04
O relatório do Fed traz índices de confiabilidade duvidosa sobre os países mais vulneráveis ao fim dos estímulos nos EUA

Três ou quatro semanas atrás seria difícil imaginar que o Banco Central dos Estados Unidos – o respeitado Federal Reserve – pudesse subscrever um documento encampando conclusões tão absurdas como as que constaram do relatório sobre política monetária entregue ao Congresso americano no dia 11 de fevereiro deste ano da graça de 2014.

Num enigmático capítulo, o tradicional Monetary Policy Report aborda as condições de “Estresse Financeiro e Vulnerabilidade nas Economias Emergentes”, apresentando aos leitores índices de confiabilidade duvidosa construídos para 15 países apontados como os mais vulneráveis aos efeitos da retirada dos estímulos monetários nos EUA.

O exame, mesmo superficial, dos ingredientes que embasam as conclusões daquele capítulo mostra a sua fragilidade teórica e os erros primários da metodologia utilizada. Trata-se de opinião vendida como ciência: só sabemos que, na montagem dos índices dos 15 países, Taiwan tem nota 4, a Turquia nota 12,5 e o Brasil nota 12, classificado como o segundo mais fragilizado dos emergentes.
O estudo não dá detalhes de como foi calculado o índice de vulnerabilidade, informando apenas que foi construído com base em seis indicadores, mas sem revelar a receita de como eles foram combinados num único indicador. Suspeita-se que essa revelação não seria necessária, na medida em que “ninguém” duvidaria da credibilidade de um relatório produzido no departamento econômico do Banco que, provavelmente, reúne a maior concentração de Ph.Ds. do universo.

Isso não altera o fato de que se trata de uma mixórdia de documento, porque mistura os índices, não explica como os combina, como foram apurados ou construídos e, no final, a ponderação provavelmente é subjetiva. Sem esclarecer como o indicador final foi obtido, apenas aponta que o Brasil é o penúltimo da classe e depois compara tudo isso com o nível da desvalorização cambial. A construção dos índices é feita de forma arbitrária, inclusive ao escolher o período de desvalorização da taxa de câmbio.

Se mudar a ponderação dos fatores ou a época que escolhe para a desvalorização cambial, o resultado será diferente. Provavelmente, os Estados Unidos, com uma dívida pública de 106% do PIB e sob a ameaça de um default – que conseguiu adiar pela diferença de um único voto no Congresso – estariam numa posição mais vulnerável que o Brasil, cuja relação Dívida Pública/PIB é menor que 60%.

As inconsistências do documento permitem uma conclusão quase inacreditável, em se tratando da responsabilidade do maior banco central do mundo: não foi feito um trabalho sério na construção dos tais índices de vulnerabilidade. Após “construídos”, eles são comparados graficamente com o grau de desvalorização da moeda de cada país no período de 30 de abril de 2013 a 6 de fevereiro de 2014. “Aparece” aí uma relação que está longe de ser causal (como está sugerido, implicitamente): o aumento do índice de vulnerabilidade arbitrado determinaria a magnitude da desvalorização.

É mais do que evidente que estamos adicionando mais um ingrediente subjetivo e arbitrário ao já confuso problema, a escolha das datas! Mesmo dentro do intervalo, outras escolhas produziriam resultados diferentes. Não há nada, portanto, de “científico” nesse intrigante capítulo do Monetary Report enviado ao Congresso americano no dia da primeira apresentação de Janet Yellen como presidente do Fed. Da mesma forma, porém, que as expectativas geradas pelas agências de rating, ele terá consequências. E elas são, geralmente, desagradáveis.

A grande dúvida é que não se explicita a questão fundamental: vulnerabilidade com relação a quê? À ameaça de um default? A uma crise no balanço em conta corrente? À perspectiva de uma tragédia fiscal? A uma “parada súbita” do movimento de capitais? E, afinal, a flutuação cambial é um ajuste ou um pecado na política de câmbio flutuante?

Foi correta a atitude do presidente do nosso Banco Central, Alexandre Tombini, de reclamar a Yellen da irresponsabilidade do Fed de dar palpites sobre o Brasil. Como está no começo da gestão, ela terá tempo bastante e oportunidade para conter as “panaquices” de seus Ph.Ds.

registrado em: