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Número 788,

Internacional

Venezuela

A oposição fast-food

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 28/02/2014 05h48, última modificação 28/02/2014 05h53
O impasse político e econômico é sério, mas as Manifestações não são o que Leopoldo López quer fazer crer
Leo Ramirez / AFP
Venezuela

Há uma juventude de direita que tem pressa, mas não representa a maioria da oposição

Não foi apenas a partir de 1999, quando da primeira posse de Hugo Chávez, mas pelo menos desde 1983 que a Venezuela convive com impasses políticos, crises cambiais, inflação alta e violência política e social. Dessas mais de três décadas, a primeira do chavismo foi, apesar da tentativa de golpe, das sabotagens e locautes, a de maior prosperidade. Do ponto de vista social, os avanços foram sem precedentes e a democracia continuou preservada.

Entretanto, a retração inesperada dos preços do petróleo, devida à crise internacional de 2008, tornou repentinamente deficitários os projetos bolivarianos, ambiciosos e frequentemente tocados por funcionários escolhidos mais pela lealdade aparente a Chávez do que por competência ou honestidade. A escassez de produtos básicos tornou-se cada vez mais rotineira, acidentes e falta de manutenção causaram paradas e queda de produção nas refinarias, a inflação e o câmbio negro escaparam do controle e a doença do presidente e a aproximação das eleições de 2012 agravaram os problemas ao cancelar ou adiar decisões impopulares, mas necessárias, entre elas a desvalorização do bolívar e o reajuste dos combustíveis, vendidos a preços irrisórios, graças a subsídios muito onerosos para o governo.

São consequências inevitáveis das contradições do bolivarianismo ao prometer o “socialismo do século XXI” e atacar o capitalismo, mas ao mesmo tempo manter os procedimentos democráticos e depender de bancos e empreendedores capitalistas para manter a economia em funcionamento. O equilíbrio instável entre retórica e prática pode ser mantido em fases de prosperidade, mas ameaça vir abaixo a cada vez que se enfrentam dificuldades.

Mesmo assim, em 14 de abril de 2013, uma estreita maioria de eleitores (50,7%) preferiu Nicolás Maduro ao oposicionista Henrique Capriles. Os inconformados promoveram uma explosão de ódio às classes populares, que deixou sete mortos (todos chavistas) e pelo menos 61 feridos. Tanto casas de governistas quanto emissoras comunitárias, mercados populares, conjuntos habitacionais, creches e centros de saúde foram depredados e incendiados. Foi um tiro no pé, pois as dificuldades econômicas continuaram a se agravar, Maduro é inábil e sem carisma, mas o governo venceu as eleições municipais de dezembro até com mais folga.

O quadro econômico, é inegável, continuou a piorar. A inflação anual, que nos melhores anos do governo Chávez esteve levemente acima de 10% e pouco antes de sua morte ainda estava abaixo de 20%, disparou para 56%, a escassez aumentou, Maduro recorre a medidas econômicas cada vez mais drásticas e a percepção da criminalidade agravou-se com o assassinato da atriz e ex-miss Venezuela Mónica Spear e o marido em um assalto banal, nos primeiros dias de janeiro.

Em 12 de fevereiro, Dia da Juventude na Venezuela, milhares de estudantes encenaram protestos na companhia de líderes da oposição e a eles se contrapuseram manifestantes chavistas. A repressão e os enfrentamentos desse dia resultaram em três mortos (dois dos quais eram dirigentes de grupos de base chavistas e o terceiro um homem que os socorreu) e 26 feridos.

A manifestação com o tema “A Saída” (de Maduro) teve como principal organizador Leopoldo López, líder do partido Vontade Popular e foi apoiada pelo prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, e pela deputada María Corina Machado. Mas foi condenada por Capriles e a maioria dos oposicionistas. “Para que serviu o ‘saia já’? Alguém que talvez não aprendeu nada durante estes anos vai nos meter a todos no ‘saia já’?”, criticou o ex-candidato presidencial da oposição. “Com isso não estou de acordo e claramente me desvinculo.” Enquanto isso, um mandado de captura por incitação à violência era emitido contra López.

Capriles e López foram, em 2000, os cofundadores do partido “Primeiro Justiça” (com o atual deputado Julio Borges) e se elegeram prefeitos de dois municípios de classe média da região metropolitana de Caracas, Baruta e Chacao, respectivamente. Em 2002, ambos participaram da tentativa de golpe – Capriles de forma mais ruidosa, ao promover o assédio da Embaixada de Cuba e fazer sua polícia prender um dos ministros de Chávez –, mas permaneceram no cargo, foram reeleitos e continuaram prefeitos. Seus rumos começaram a divergir em 2007.

López, condenado por desviar recursos dos salários dos funcionários municipais e proibido de disputar eleições até 2014, fundou o novo partido “Vontade Popular”. Em 2009, Robin D. Meyer, conselheiro político da Embaixada dos EUA, o qualificou de “figura divisiva, arrogante, vingativa e sedenta de poder”, em documento vazado pelo WikiLeaks. López apoiou Capriles contra Chávez e Maduro nas eleições presidenciais de 2012 e 2013, mas tornou-se porta-voz das alas mais intransigentes da oposição, aquelas que não se acreditam capazes de vencer eleições, foram delas excluídas ou as julgam inúteis. Isso inclui o prefeito Ledezma, eleito em 2008, mas esvaziado de grande parte de seus poderes e orçamento pela criação do cargo de “governador do Distrito da Capital”, para o qual foi nomeada a chavista Jacqueline Faría.

Já Capriles foi anistiado das acusações relativas ao golpe por Chávez e, em 2008, pôde concorrer vitoriosamente ao governo do estado de Miranda e projetar-se como líder de uma oposição que diz ser moderada e ter o brasileiro Lula como modelo. Representa a maioria dos oposicionistas vitoriosos em eleições locais, que têm responsabilidades de governo e cooperam em maior ou menor grau com o governo Maduro, do qual precisam para tocar seus projetos. Preferem aguardar as oportunidades legais para disputar o poder: um referendo revocatório (que pode ser convocado em 2016) e as eleições regulares (em 2018). Acreditam, talvez com razão, que o contínuo desgaste do chavismo lhes dará oportunidade de governar, contanto que se mostrem tolerantes e dispostos a manter programas sociais. Para estes, atitudes como a de López são um estorvo, pois põem as massas contra a oposição.

Os apressados têm, porém, algum apoio fora do país. Entre os documentos vazados pelo WikiLeaks há também um de 2010, da consultoria Stratfor, sobre uma visita do sérvio Srda Popovic, o líder do Centro de Ação e Estratégias Não Violentas Aplicadas (Canvas), ONG que assessorou ativistas e levantes na Geórgia, Ucrânia, Líbano e Egito, entre outros, “atualmente muito ativo na Venezuela”, para explicar o que estava fazendo por lá, mais precisamente sua “estratégia de McRevolução”. Que, além de recusar o processo slow food da conquista do voto popular, parece envolver um bocado de desinformação.

A Venezuela foi apresentada por jornalistas como “à beira da guerra civil”, quando os protestos representam apenas parte da oposição e são menores que os de junho de 2013 no Brasil (inclusive no número de mortes: oito nesse mês, sem contar os 14 da invasão da Favela Nova Holanda). Pior foi nas redes sociais, onde, além do número absurdo de 3 mil mortes, circularam imagens de protestos, repressão, mortes e torturas em diferentes países (inclusive Brasil, Bulgária, Espanha, Chile, Cingapura e Síria) como se fossem da Venezuela de hoje. Até uma cena de filme pornô foi divulgada como estupro de um jovem por policiais chavistas.
Nas manifestações da terça-feira 18 foi morto um operário de uma cooperativa têxtil governista e ferida de morte uma manifestante oposicionista, ex-miss Turismo estadual. Ainda no dia 18, López convocou uma manifestação para se entregar publicamente. Pretende tornar-se mártir e símbolo, como o próprio Chávez ao ser preso pelo fracassado movimento golpista de 1992, mas a simetria é falsa. “É preciso entender que, se o povo humilde não sai às ruas, não há maneira de promover mudanças”, advertiu Capriles. Onde esse povo saiu, foi às manifestações governistas. Quem aposta em intervenção direta dos EUA está provavelmente iludido, ao passo que Maduro recebeu respaldo inequívoco dos parceiros do Mercosul e da Alba, ou seja, da maior parte da América do Sul.

Há uma direita que julga sua pretensão ao poder inegociável, urgente e acima de considerações constitucionais, mas é apenas uma fração da elite e não é provável que conquiste apoio mais amplo enquanto o chavismo não fechar o caminho das urnas. Por ora, o saldo da aventura de López ao tentar ultrapassar Capriles pela direita (ou mesmo atropelá-lo) é uma oposição mais dividida, mas ela também mostrou fissuras do lado do governo, especialmente dificuldades de controlar seus próprios radicais.

Nas manifestações da quarta-feira 12, agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) foram vistos e fotografados disparando durante os protestos (a oposição os responsabiliza pelas três mortes desse dia). No domingo 16, Maduro admitiu sua presença, mas enfatizou que descumpriam suas ordens de ficar no quartel e deixar as ruas a cargo da polícia e da Guarda Nacional. No dia 18, substituiu o comandante do Serviço. Os motociclistas que dispararam contra manifestantes nesse dia e mataram a jovem ex-miss podem ter sido também chavistas fora de controle, tão danosos à própria causa quanto López à da oposição.