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Número 787,

Sociedade

Editorial

Pasta Brasil, emoliente

por Mino Carta publicado 14/02/2014 05h46, última modificação 14/02/2014 16h23
Vem à memória uma conversa de 34 anos atrás com Claudio Abramo, descrente e desalentado

Os antigos romanos definiam bárbaros os povos que viviam fora das fronteiras do seu império, das estepes russas à Escócia. O bárbaro não poderia dizer civis romanus sum e tal era sua barbárie. Ouço e leio esta palavra pronunciada com frequência e muita ênfase em relação a situações do Brasil dos dias de hoje. Agora vejamos: de fato, o que significa barbárie por aqui?

Uma investigação honesta a respeito leva a conclusões penosas, além de óbvias, todas do inexorável conhecimento até do mundo mineral. A barbárie impõe-se no país que ocupa o quarto lugar na classificação dos mais desiguais do mundo. Ou seja, o Brasil extraordinariamente beneficiado pela natureza e que, entretanto, bate recordes em matéria de péssima distribuição da riqueza para manter a maioria da população em níveis de vida de muito a excepcionalmente baixos.

A barbárie triunfa quando a minoria se empenha em manter o monstruoso desequilíbrio social, e não hesita para tanto a recorrer à violência, como nos é dado verificar nas nossas plagas. E se fortalece quando a mídia nacional, salvo raríssimas exceções, doutrina a favor da desigualdade e de quem nada faz para combatê-la.

A barbárie resulta, como se dá entre nós, da ausência de partidos capazes de intermediar em proveito da nação em peso em vez de pretender uma democracia sem povo. Houve um partido que se atribuiu esta capacidade e aparentemente a tinha, o PT, e, no poder, portou-se como os demais, clubes recreativos de predadores, eméritos e nem tanto.

Detenho-me por aqui na definição de barbárie porque tudo é decorrência da postura inicial e consequência da colonização predatória, de três séculos e meio de escravidão, de uma independência só percebida pela Coroa portuguesa, de uma República imposta pelo golpe fardado. Etc. etc. Não surpreende, nesta trágica moldura, a ineficiência do Estado, em um país reprovado com as piores notas em saúde, educação e transporte públicos. Sem falar daqueles 40% do território nacional ainda não alcançados pelo saneamento básico.

Também não surpreende que rico não corra o risco de ir para a cadeia, ou que 55 mil miseráveis morram assassinados todos os anos. Ou que, onde a dignidade humana não é respeitada, alguém mate para roubar um relógio ou um par de tênis. E ainda não surpreende que uma comissão da verdade destinada a apurar os crimes da ditadura civil-militar fique impávida a engolir falácias. Assim como não surpreende a organização de uma Copa destinada a enriquecer a máfia do futebol e quantos erguem estádios até onde não é preciso.

Houve quem me lembrasse nestes dias uma conversa de 34 anos atrás na redação do Jornal da República, entre o acima assinado e Claudio Abramo, que generosamente me acompanhava naquela aventura. Solicitou minha memória um velho amigo e companheiro, Chico Malfitani, testemunha desta pequena história. O jornal agonizava, final de 1979, mas Claudio estava desalentado muito além do enterro iminente. Dizia algo assim como “este país não tem jeito, perdi as esperanças”.

Resisti, argumentei que o fim da ditadura se aproximava e, a despeito de prováveis tropeços pelo caminho, chegaríamos finalmente à democracia. Que esperança, retrucava Claudio, o Brasil é uma pasta emoliente, na qual atolam mesmo os espíritos melhores, e para isso não há remédio, em qualquer prazo. Passadas mais de três décadas, estou a me aproximar, atormentado, àquele pensamento. O que haveria de me espantar, e no entanto não me surpreende, pelo contrário insere-se na ordem lógica do enredo, é a impotência de quantos gostariam de mudar o rumo e pregam no deserto. Quem está por cima não quer ouvir, quem está por baixo não pode.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, denuncia o reacionarismo da elite paulista. Conta com o meu apreço. Elite, contudo, é palavra consistente, haveria de indicar cultura, sabedoria, conhecimento, traquejo. Estes senhores inesgotáveis donos do poder, sempre dispostos a reeditar o pelourinho e infensos ao mais tênue chamado à razão, são imbatíveis na façanha de equilibrar à perfeição insensibilidade e irresponsabilidade.

Implacável a análise aparecida há poucos dias no site do The Guardian, um dos melhores e mais importantes jornais do mundo. Sustenta, ao encarar o Brasil destes dias, a inevitabilidade de certos resultados, “ao cabo de centenas de anos de opressão, racismo e negligência governamental”.

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