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Número 787,

Economia

Análise / Delfim Netto

O triunfo da paranoia

por Delfim Netto publicado 19/02/2014 04h52
A atual onda pessimista decorre da leitura parcial de relatórios que incluem todos os emergentes no mesmo saco de gatos

Em seu primeiro comparecimento perante os integrantes da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara de Representantes no Congresso dos Estados Unidos, após assumir a presidência do Banco Central americano, a economista Janet Yellen disse que vai manter a política gradual de compras mensais de títulos, na forma definida pelo Comitê de Política Monetária (Fomc) do Federal Reserve, mesmo diante da “surpresa” representada pela redução no ritmo de criação de empregos em dezembro e janeiro últimos. Yellen deixou claro que somente perspectivas sérias de mudança na taxa de inflação e comprovadamente do nível de desemprego nos EUA poderiam mudar a estratégia do banco.

Na sua fala aos congressistas e para tristeza dos agentes financeiros que esperavam algum sopro que estimulasse a especulação nos mercados emergentes, Yellen deu pouca (ou nenhuma) importância ao assunto. Disse simplesmente que “a recente turbulência em emergentes não implica riscos para a economia dos Estados Unidos”. Quando instada a comentar o relatório do Fed que menciona “vulnerabilidades financeiras significativas” nesses mercados, inclusive no Brasil, em decorrência de mudanças na política monetária americana, respondeu secamente que a sua política é desenhada para atingir os objetivos determinados pelo Congresso dos Estados Unidos. Nada de novo.

O pessimismo que decorre da leitura parcial de relatórios dessa natureza, divulgados fora de época e em contextos ultrapassados, expõe o Brasil como uma das economias vulneráveis. Hoje, entretanto, o próprio mercado já distingue nossa atual situação de outros emergentes, como Turquia, Indonésia, Índia e África do Sul, que vivem circunstâncias totalmente diferentes.

Criou-se um clima de paranoia quase inacreditável tentando convencer o mundo de que o Brasil está próximo de um desastre, apesar da falsidade evidente das comparações. Temos dificuldades, como quase todos os países do mundo, há circunstâncias desagradáveis, perspectivas ameaçadoras desde que o sistema financeiro mundial entrou em erupção por conta do excesso de patifarias cometidas nos mercados financeiros, cujo epicentro foi Wall Street. As dificuldades persistem desde 2008 e 2009, nas políticas fiscal e monetária dos países grandes, médios e pequenos, praticamente sem exceção. Apenas na política cambial o mercado fez a correção.

Não existem no Brasil desequilíbrios profundos a curto e a longo prazo.  Estamos muito longe de apresentar o padrão de vulnerabilidade externa que tomou conta de algumas economias emergentes com suas dificuldades próprias de relacionamento nos mercados financeiros do resto do mundo. Creio que se justifica, neste contexto, a ida do ministro Guido Mantega à Austrália para se encontrar com seus colegas do G-20 em Sydney, na reunião das mais importantes economias do globo.

O Brasil desde há muito tempo superou aquelas dificuldades apontadas pelo mercado em relação a outros emergentes, listados no grupo dos mais vulneráveis. Não será difícil ao ministro Mantega mostrar os fatos que fazem a diferença, dando continuidade ao esforço que a presidenta Dilma fez há duas semanas na reunião dos dirigentes das finanças mundiais na cidade suíça de Davos. Sabemos que somos parte do mundo, que temos de pagar o preço de estar no mundo. E que poderíamos ter feito muito melhor em diversas ocasiões. Não temos de fazer, contudo, nenhuma penitência em razão das medidas de defesa tomadas para enfrentar as turbulências (com sucesso, diga-se) produzidas pelas sucessivas crises dos mercados financeiros.

Mesmo diante das pressões provocadas pelo clima de desconfiança que se procura estimular em relação ao Brasil, nós temos tempo suficiente para mostrar sermos capazes de administrar com prudência uma política fiscal crível como prometeu a presidenta. A ida agora de Mantega a Sydney dará continuidade a esse esforço de convencer a comunidade financeira e os governantes mundiais de que o Brasil está no caminho certo, determinado a fazer o ajuste fiscal necessário, mesmo que muitos descreiam dessa possibilidade num ano de eleições gerais.

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