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Número 786,

Economia

Especulação

Emergentes na mira

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 19/02/2014 04h51
Os mercados financeiros voltam suas baterias contra os BRICS e colocam todos no mesmo saco
Jody Amie/AFP, Georges Gobet/AFP, Raveendran/AFP e Vyacheslav Oseledko/AFP
BRIC

Os países emergentes na mira do mercado financeiro

Apesar das críticas neoliberais, as políticas heterodoxas que têm vigorado em muitos países ditos emergentes proporcionaram uma década de razoável estabilidade e crescimento, não seriamente abalada pela tremenda crise dos países ricos em 2008. Pelo contrário, esta pôs em evidência o fracasso da desregulamentação financeira neoliberal e das políticas econômicas ortodoxas e o fato de o conjunto dos maiores países em desenvolvimento, apelidados de BRICS, aderir a modelos muito heterodoxos de capitalismo de Estado e estar a caminho de superar o G-7 em dimensão econômica no futuro previsível.

Não é um cenário confortável para quem se formou na doutrina neoliberal, muito menos para os executivos do setor financeiro, cujos lucros e bônus dependem do máximo de liberdade de movimentar capitais (combinado, é claro, com a disposição dos governos de intervir quando é preciso salvá-los de seus próprios erros). Ainda mais se, como se viu nos últimos anos, o sucesso relativo das políticas estatistas e intervencionistas no Hemisfério Sul começa a inspirar a esquerda não ortodoxa na Europa e da América do Norte.

O grego Alexis Tsipras, líder do Syriza, e o francês Jean-Luc Mélénchon, da Frente de Esquerda francesa, são admiradores declarados do chavismo, assim como Noam Chomsky, Sean Penn e Oliver Stone nos EUA. Algum grau de influência se percebe na esquerda mais tradicional, como atestam os recentes ataques de nervos de The Economist devidos às propostas “populistas” dos trabalhistas britânicos, favoritos para a eleição de 2015 (que incluem aumentar a alíquota máxima de imposto de renda de 45% para 50%, congelar preços da energia e limitar a participação de bancos no mercado), e a um artigo de opinião no New York Times que defendeu limites legais máximos de salários para executivos.

O termo “mercados emergentes” surgiu nos anos 1980 como um eufemismo para os “países subdesenvolvidos” ou “países periféricos”, com a conotação esperançosa e enganosa de que estariam a caminho do desenvolvimento e de oferecerem oportunidades de investimento com alto retorno, desde que garantissem câmbio estável, baixos salários, mercados desregulamentados, privatizações em massa e proteção às transnacionais. No início dos anos 1990, auge da euforia com a globalização, o título foi estendido aos países que o colapso do bloco soviético tornou atraentes para o investimento capitalista como reservatórios de mão de obra barata e instruída livres de incômodos regulamentos ambientais e trabalhistas.

A teoria não evitou crises cambiais, financeiras e políticas. Na verdade, as estimulou, ao lhes impor exigências irreais. A combinação de câmbio fixo com liberdade de capitais mostrou-se especialmente desastrosa e “submergiu” um emergente após o outro, do México de 1994 à Argentina de 2002, passando pelas crises cambiais asiática (1997), russa (1998) e brasileira (1999). Combinados com inquietação social e instabilidade política, os sucessivos desastres financeiros trouxeram os capitais de risco de volta para casa para desfrutar de uma nova ilusão especulativa, a de um boom sem limites da economia estadunidense proporcionado pela revolução da informática.

Vieram o estouro da bolha das pontocom, um novo choque do petróleo e os atentados do 11 de Setembro, que forçaram os investidores a retocar sua visão de mundo. Ao mesmo tempo, muitos “emergentes”, aprendida a lição, adotaram políticas econômicas menos ingênuas e mais intervencionistas, mais próximas do pragmatismo chinês do que das receitas do fracassado pensamento único. Passaram a administrar o câmbio de forma a fortalecer sua competitividade, proteger seus mercados, nacionalizar recursos importantes, restringir a liberdade de ação dos capitais estrangeiros e, nos melhores casos, promover mais justiça social e redução da desigualdade. Enquanto isso, países mais apegados às políticas dos anos 1990, como o México, enfrentam pobreza e conflitos sociais crescentes.

O que significa, então, a “crise dos emergentes” que frequenta os cadernos de economia desde o segundo semestre de 2013? Os EUA, segundo o FMI, iniciaram uma recuperação aparentemente sustentada (não se pode dizer o mesmo da União Europeia e do Japão) que pode resultar em crescimento de 2,8% em 2014 ante 1,9% no ano anterior, ao passo que a China deve desacelerar de 7,7% em 2013 para “apenas” 7,5% em 2014. Segundo a mesma fonte, a Índia deve acelerar de 4,4% em 2013 para 5,4% em 2014 (depois de ter sofrido com a desvalorização da rupia e a perda de reservas no ano passado), enquanto os demais BRICS supostamente não crescerão mais que os EUA neste ano (seriam 2,3% para o Brasil, 2,8% para a África do Sul e 2% para a Rússia).

As razões para isso não são mistério. O desequilíbrio que caracterizou o período de 1998 a 2008, de déficits comerciais crescentes dos EUA e superávits cumulativos dos emergentes, não era sustentável e começa a ser corrigido. De um lado, a política do Fed de inundar o mercado financeiro com dólares, que reativou o setor bancário e desvalorizou a moeda estadunidense de forma a recuperar sua competitividade em relação a outras nações ricas, começou a ser revertida ante a queda do desemprego. De outro, a China notoriamente inicia sua transição para uma economia mais madura, com mais ênfase no consumo, no mercado interno e nos ganhos de produtividade e menos em poupança, exportações e crescimento extensivo, o que implica um ritmo menos acelerado de crescimento.

Ante os freios na enxurrada de dólares de um lado e na demanda chinesa de outro, muitos emergentes começaram a sentir menos facilidade de obter financiamentos externos, ao mesmo tempo que obtêm menos divisas das exportações, pois o volume de commodities exportadas cresce em ritmo menor e seus preços tendem a baixar. Suas reservas caíram e suas moedas se desvalorizaram. Mas no atacado a tendência geral pouco mudou: ainda segundo o FMI, o PIB conjunto dos países ricos cresceu 2,2% em 2013 e deve crescer 2,3% em 2014, ao passo que a soma da produção dos “emergentes” cresceu 4,7% no ano passado e crescerá 5,1% em 2014.

Apesar das reivindicações sociais e políticas, o Brasil nunca esteve tão perto do pleno emprego. O governo russo é autoritário e personalista, mas é internamente popular e seu prestígio internacional está claramente em alta. Na maioria dos países da América Latina, África e Ásia, a política interna é agitada e navega por rumos pouco agradáveis ao capital transnacional, mas nada indica risco de colapso e estagnação, até pelo fato de as amarras neoliberais que precipitaram as crises dos anos 1990 terem sido na maior parte desmontadas. Esses países continuam bem menos endividados do que os ricos e, se há risco de “bolhas”, este também existe nas bolsas de Nova York e Londres (gás de xisto, superbancos e internet são os mais óbvios). Redirecionamento de alguns setores, investimentos em infraestrutura e ajustes de política econômica (adequados a cada caso) deveriam bastar para adaptar essas economias ao novo cenário – salvo, talvez, casos como a Argentina e Venezuela, que parecem precisar de medidas mais drásticas, não necessariamente mais ortodoxas.

A médio e longo prazo, a perspectiva continua a ser de crescimento mais acelerado nos emergentes, como fazem questão de lembrar os analistas que os acompanham há mais tempo, inclusive Antoine van Agtamel, criador da expressão “mercados emergentes”, e Jim O’Neill, inventor da sigla BRIC. É de supor que esse crescimento desacelere gradualmente à medida que as populações envelheçam, renda per capita se aproxime do padrão de países ricos e a continuação do crescimento exija mudanças qualitativas de métodos e estruturas, mas a ideia de uma generalizada “crise de meia-idade”, como apregoou o presidente do Foro de Davos, o economista suíço Klaus Schwab, faz pouco sentido, até porque as histórias de desenvolvimento econômico e demográfico e o patamar atingido variam muito de um país para outro. Curtíssimo prazo à parte, é ainda mais absurdo falar em “declínio dos emergentes” de forma generalizada, como quer Ruchir Sharma, do Morgan Stanley.

À parte as limitações intelectuais de jovens e arrogantes executivos financeiros, a razão para se querer impor o mesmo diagnóstico a mercados tão diferentes é desencorajar o investimento nesses países como forma de pressioná-los a novamente se submeter ao leito de Procusto, ou seja, à receita neoliberal que supostamente atrai o investimento estrangeiro ao garantir não o crescimento ou muito menos a justiça e estabilidade social, mas o máximo de retorno em dólares no curto prazo. Que se exalte o México por criar oportunidades às transnacionais ao abrir os setores de petróleo e energia, mesmo se seu crescimento é medíocre (1,2% em 2013) e sua sociedade mergulha em uma espiral de injustiça e violência.

Quer-se aproveitar o momento para vender aos setores influentes nos países emergentes que é preciso retornar com urgência ao figurino ortodoxo, cortar impostos e gastos públicos, promover privatizações, abrir mercados e desmontar leis trabalhistas e outros regulamentos incômodos. Menos por quererem de fato investir nesses mercados no curto prazo e mais por recearem o “mau exemplo”, tanto sobre os movimentos “populistas” dos países ricos quanto sobre outros países do Sul. Notadamente as nações africanas que, para irritação do FMI e do Banco Mundial, hoje crescem em ritmo acelerado, graças a empréstimos e investimentos da China e de outros parceiros que não cobram os absurdos ajustes que levaram o continente ao caos na última década do século XX.

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