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Número 786,

Política

Análise / Ciro Gomes

É a indústria, estúpido

por Ciro Gomes — publicado 14/02/2014 05h46
Temos um problema estrutural, com potencial para nos colocar em grande sufoco brevemente

Também eu vou parodiar o marqueteiro do ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, criador da frase “é a economia, estúpido”. No caso do Brasil, devemos dizer: é a indústria, estúpido. Os números são contundentes. Tivemos o pior déficit comercial da história neste janeiro. O superávit na balança agropastoril foi de 89,9 bilhões de dólares. O déficit na balança comercial dos produtos industriais chegou a 100 bilhões de dólares em 2013. Perdão aos leitores esclarecidos, se contarmos o que compramos do estrangeiro em produtos industriais e o que vendemos, devemos 100 bilhões. Pela primeira vez na história, nosso satanizado agronegócio não foi capaz de pagar a conta.

Isso não pode ser explicado pela crise internacional ou por conversas fiadas da propaganda oficial. Temos um problema estrutural. Pior, com potencial crescente de nos fazer passar grave sufoco, brevemente (dois ou três anos no máximo).

Quem compreende o saldo positivo dessa quadra de poder está, por isso, pedindo para morrer. Nossa sorte é a conjuntura eleitoral marcada por um antagonismo que, de um lado, nos opõe a uma candidatura comprometida até a medula com coisas muito piores no tema e, de outro, com uma contradição insuperável de quem esteve conosco até ontem. Mas isso não nos autoriza a desconhecer o problema. Ele é nosso, nossa responsabilidade, sua construção, nossa indeclinável responsabilidade, resolvê-lo.

Cabe a Dilma Rousseff colocar em discussão uma consistente política industrial e de comércio exterior como seu principal compromisso de futuro, ao lado da garantia de continuidade das políticas que nos dão preferência entre as maiorias: aumentar o salário mínimo, expandir a proporção do crédito em relação ao PIB e ampliar a rede de proteção social.

Os três movimentos fazem a consistente diferença entre nós e os envergonhados neoliberais brasileiros e o passado a nos ameaçar. Mas são movimentos de onde não podemos esperar avanços brilhantes. A novidade possível é um movimento histórico (potencialmente) que sinalize aos brasileiros um projeto com respostas a curto, médio e longo prazos para nossa questão estratégica.

E nossa questão
estratégica tem a ver com educação de qualidade, saúde que respeite o mínimo da dignidade de nosso povo, garantia de paz. E fundamentalmente temos, como Getúlio e Juscelino, de acenar concretamente para um futuro econômico que compreenda nossa questão prática. É essencial, para tanto, vencer o debate ideológico sobre o papel do Estado em relação à nossa economia. A espontaneidade individualista das forças de mercado não é capaz de entender o problema, muito menos de encaminhar sua solução. Essa constatação não pretende negar as energias extraordinárias do livre-mercado, mas não há experiência histórica a demonstrar a sua capacidade solitária de construir solução estratégica para o problema. Precisamos de uma política pública que crie as condições para o Brasil não aceitar passivamente a insustentável consequência da atual divisão internacional do trabalho que nos assina a tarefa de prover produtos primários de nenhum valor agregado.

A lei do menor esforço recomenda um caminho prático e perfeitamente defensável ideologicamente e nas questões práticas impostas por nossos compromissos internacionais com a OMC, por exemplo: listemos com transparência nossos déficits comerciais setor a setor. Algumas coisas saltam óbvias. A conta de petróleo, com 15 bilhões de dólares de déficit. Exportamos óleo bruto barato e importamos refinado.

Chega a 40% (acreditem) o peso das importações nos custos de produção da agricultura mais competitiva do planeta. Fertilizantes, agrotóxicos, implementos... Tudo inexplicavelmente importado. Somos o maior produtor de café do mundo e tudo que agrega valor é... importado.

Em 2013 o governo federal, com dinheiro público, importou 15 bilhões de dólares para suprir o complexo industrial da saúde. Desse total, 76% referem-se a patentes vencidas. Poderíamos produzir próteses, camas de hospital, fármacos em qualquer lugar do País com um singelo, e garantido por tratados internacionais, programa de compras governamentais.

Uma política industrial e de comércio exterior avançaria em todas as áreas. Como explicar o fato de o Brasil receber no ano todo o número de turistas que a cidade de Paris acolhe somente nas festas de fim de ano. Qual a diretriz da política de ciência e tecnologia?
Precisamos de uma política pública para cada setor, de humildade para entender nossos limites e de ousadia chinesa para não deixar de tentar.

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