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Número 786,

Economia

Análise / Delfim Netto

Campeões em erros

por Delfim Netto publicado 12/02/2014 05h58
Analistas financeiros criam rótulos, como Vulneráveis, para acelerar os fluxos especulativos
Gráfico

Fonte: Banco Mundial

Em comentário recente, aqui ­mesmo nesta Sextante, fiz ­referência ao esforço de “analistas financeiros”, à margem do encontro anual que reuniu chefes de Estado e economistas de projeção mundial em Davos, na Suíça, sugerindo fatores de vulnerabilidade na economia brasileira que simplesmente não têm semelhança com os problemas por eles próprios apontados na África do Sul, Turquia, Índia e Indonésia, entre outras.

Tal esforço obviamente deseja criar um clima que permita antecipar as vantagens da especulação com a alta dos juros dos papéis americanos, na medida em que a taxa de desemprego caia abaixo dos 6,5% esperados até o fim do ano e a previsão da taxa de inflação ultrapasse 2%, o objetivo de longo prazo do banco central dos Estados Unidos. De fato, em outubro de 2013, o Comitê de Política Monetária do Fed, o equivalente ao nosso Copom, anunciava ter decidido “manter o intervalo para a taxa básica de juros entre zero e 0,25%”, e antecipou que essa taxa excepcionalmente baixa será mantida, enquanto “a taxa de desemprego estiver acima de 6,5% e a inflação projetada para os próximos dois anos não estiver mais de meio ponto porcentual acima da taxa de inflação de 2%”.

O que pensa Janet Yellen, a nova presidenta do Fed, a respeito disso tudo? Em 2002 (quando era titular do Fomc), referindo-se às relações entre os EUA e os emergentes, Yellen disse que: 1. No fim do dia, um crescimento mais robusto dos Estados Unidos é bom para o mundo (o que é verossímil). 2. Os diferenciais de taxas de juro têm um papel importante no direcionamento do fluxo de capitais para os países emergentes (o que é certo). 3. Que o apetite dos investidores pelo risco e exposição a economias em expansão determina, largamente, a demanda dos ativos dos emergentes (o que é exato). 4. Que tal movimento valoriza as taxas de câmbio dos países emergentes (o que é verdade).

O importante, na opinião de Yellen, é que essas consequências são inevitáveis, mas não são intencionais. E mais: os países emergentes têm instrumentos para enfrentá-las com adequadas políticas fiscal e monetária (o que no mínimo é problemático). Só não mencionou o controle de capitais...

É tempo, portanto, de cada país olhar para o seu problema, entendê-lo e enfrentá-lo com disposição e rapidez, porque as incertezas e os movimentos de capitais serão mais fortes quando a inflação americana der sinal de vida. Aí o Fed voltará ao seu “normal” e tentará controlá-la e ancorá-la nos 2% desejados, por meio da alta dos juros. Até este momento é provável a taxa de juros dos papéis do Tesouro de dez anos cair pelo rápido influxo de transferência de ativos dos emergentes, como ficou visível no fim de janeiro, quando caiu 36 pontos. O “aspirador de pó”, na rica imagem do presidente Tombini, só vai funcionar, de fato, quando as ­duas condições (nível de desemprego abaixo de 6,5% e taxa de inflação acima de 2,5%) forem simultaneamente satisfeitas.

Quando será isso? Um interessante trabalho de economistas do Fed de Cleveland sugere que isso poderá ocorrer no primeiro trimestre de 2015, é razoável. Mas, como não abandonam “o uso do cachimbo”, os tais “analistas financeiros,” campeões em erros e de invenções de acrônimos, decidiram criar outro, o dos “Vulneráveis”, (Índia, Indonésia, Turquia e África do Sul), visando acelerar os movimentos especulativos. E tentam incluir o Brasil. A única aproximação a uni-los: nos cinco haverá eleições em 2014!

Os números do quadro incluído nesta coluna mostram que cada um tem os seus próprios problemas, de forma que é, no mínimo, absurdo classificá-los em um mesmo grupo. A vulnerabilidade externa do Brasil é muito pequena, comparada com a dos outros países. E iniciamos uma importante correção de rumo na política monetária em abril de 2013, muito antes deles.