Você está aqui: Página Inicial / Revista / A verdade sobre os impostos / Arrastão nos escritórios
Número 786,

Sociedade

Análise / Thomaz Wood Jr.

Arrastão nos escritórios

por Thomaz Wood Jr. publicado 20/02/2014 05h06
A busca por maior produtividade e o avanço tecnológico poderão gerar mudanças relevantes nas empresas e no setor de serviços

Recentemente, foi aberta a temporada de anúncios de lucros bilionários: um após o outro, os grandes bancos em operação no Brasil anunciam seus números. Uma queda aqui e outra ali, mas as cifras continuam astronômicas. Vender dinheiro continua a ser um excelente negócio. Foi assim com automóveis, remédios e até com pontes e viadutos. Indústrias passam por ciclos: do surgimento ao crescimento, deste à maturidade.

Então, em dado momento, o antigo oceano azul fica infestado de tubarões, a competição aumenta e as margens minguam. A resposta das empresas é perseguir ganhos de produtividade (fazer cada vez mais com menos) e inovar (em produtos, processos e negócios). Naturalmente, há expedientes “extraoficiais” para manter os ganhos. Entretanto, esses estão cada vez mais sujeitos a despontar nas colunas policiais.

A busca por maior produtividade, mantra empresarial, pode ser um processo doloroso, principalmente para os elos mais frágeis da cadeia produtiva. Sintomaticamente, não faltam reações de resistência. Na base da hierarquia, as massas semiorganizadas contrapõem como podem os cortes e enxugamentos. No meio da pirâmide, a oposição passiva ajuda a preservar pequenas vantagens e a adiar mudanças. Resistir é fútil, alertam os oráculos. Mais cedo ou mais tarde, cargos e empregos desaparecerão. E, se for mais tarde, talvez levem junto as empresas que os mantiveram. O planeta está cheio de regiões outrora exuberantes, hoje decadentes, para mostrar e demonstrar a crueza do fenômeno.

Edição recente da revista britânica The Economist tratou do tema, em reportagem publicada por CartaCapital na edição 785. A ilustração da capa mostrava dois tornados a devastar fileiras de mesas e barnabés em um escritório. Segundo os ingleses, o movimento testemunhado nos últimos 30 anos é análogo ao choque provocado pela Revolução Industrial. Para muitas profissões e profissionais, tudo que era sólido agora desmancha no ar. E muito mais está por vir. Se o prezado leitor tem uma ocupação que pode ser decomposta em tarefas e padronizada, boas chances há de que seja substituído por um robô japonês ou um software alemão. O movimento atingiu as indústrias nos anos 1980 e 1990, e já chegou ao setor de serviços, grande empregador de mão de obra.

Segundo a revista britânica, até agora os empregos mais vulneráveis foram aqueles que envolviam tarefas repetitivas, de rotina. No entanto, o avanço nas tecnologias da informação e comunicação tem possibilitado o surgimento de computadores e sistemas capazes de rea­lizar tarefas complexas melhor do que seres humanos. Segundo um estudo da Universidade de Oxford, quase a metade dos trabalhos atuais poderá ser automatizada nos próximos 20 anos.

As mudanças geram diferentes desafios para distintos atores. Para os indivíduos, aumentam os riscos de desemprego e de obsolescência profissional. Para as empresas, cresce a competição e a pressão para aumentar a produtividade. Para os governos, aumenta a instabilidade no mercado de trabalho e coloca em risco a harmonia social.

A Revolução Industrial inglesa do século XIX, assim como a industrialização brasileira no século XX, gerou benefícios materiais a longo prazo, porém provocou mudanças traumáticas a curto prazo. A presente onda poderá gerar efeito similar: concentração de renda, desigualdade, tensões sociais e instabilidade política. Os ganhos de longo prazo são incertos.

O caso da indústria fotográfica, citado por The Economist, é exemplar. Pioneira e líder de mercado durante décadas, a Kodak chegou a empregar 145 mil funcionários. Eram operários, técnicos, vendedores e administradores. Além disso, alimentava uma malha gigantesca de lojas de prestação de serviços de revelação e acabamento. Apesar do porte e recursos, sucumbiu à transição da tecnologia analógica para a digital. O Instagram, um dos websites mais populares de fotografia da atualidade, foi vendido por 1 bilhão de dólares ao Facebook há um ano. Contava então com 30 milhões de clientes e empregava apenas 13 pessoas. Caso extremo? Talvez! Entretanto, a indústria musical oferece exemplos similares e a indústria editorial tem seguido caminho parecido. Outras, ao seu tempo, enfrentarão as mesmas rupturas. Preparemo-nos para as ventanias.

registrado em: