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Número 786,

Economia

Análise / Paul Krugman

A estagnação secular

por Paul Krugman — publicado 21/02/2014 04h51
Temos um problema crônico no mundo, pois existe um excesso de poupança e pouquíssimas opções de investimento

Está bem, nós precisávamos disso? Turquia? Quem estava prestando atenção na Turquia? Algumas pessoas estavam, é claro, porque é seu emprego. O Fundo Monetário Internacional divulgou há pouco mais de um mês os resultados de sua última consulta do Artigo IV, relatórios regulares que deveriam fornecer uma espécie de sistema de advertência precoce. Ele mencionou algumas preocupações. Por exemplo, segundo o FMI, “o aspecto mais preocupante é a ampliação da posição em moedas estrangeiras de curto prazo das corporações não financeiras. Esta saltou de 78 bilhões de dólares em 2008 para 165 bilhões hoje”.

Mas ele continuou e sugeriu que os riscos não eram grandes, entre outras coisas, porque “o regime de câmbio flutuante reduz a probabilidade de um ajuste muito grande e abrupto na taxa de câmbio”.

Do ponto de vista qualitativo, esta parece uma clássica crise de mercados emergentes: uma enxurrada de fundos estrangeiros, um aumento acentuado da dívida em moeda estrangeira do setor privado, e então o dinheiro estrangeiro deu meia-volta e fugiu. Do ponto de vista quantitativo, não deveria ser tão ruim: a dívida externa pública é de apenas 40% do Produto Interno Bruto (ou era, antes que a moeda do país, a lira, despencasse), e supostamente as empresas turcas não estão tão alavancadas. Por outro lado, existe uma crise política, assim como monetária.

Ah, e o contágio entre os mercados emergentes. Lindo.

Tudo isso acontece com a recuperação no Ocidente ainda muito fraca e o crescente risco de deflação. Em uma coluna recente intitulada “O mundo corre o risco de choque deflacionário enquanto BRICS furam as bolhas de crédito”, Ambrose Evans-Pritchard, editor de economia internacional de The Telegraph, foi mais elaborado em sua prosa sobre isso do que eu estou disposto: essas economias ou são razoavelmente pequenas (Turquia, África do Sul) ou não estão tão fortemente endividadas (Índia). Mas isso definitivamente não é o que precisamos agora.

E também não é realmente um acidente. Se você levar a sério a estagnação secular, como deveria, então temos um problema crônico de poupança demais correndo atrás de pouquíssimas oportunidades de investimento, o que significa que as pessoas só se sentem prósperas quando o dinheiro pensa ter encontrado um maior número de bons lugares do que realmente existem, e descobre isso suficientemente rápido, com efeitos nocivos.

Muito mais sobre isso, provavelmente, enquanto me preparo para acelerar sobre o Bósforo.

Uma das coisas estranhas sobre os Estados Unidos há muito tempo é o imenso leque de pessoas que se consideram da classe média, e estão se iludindo. Trabalhadores mal remunerados que seriam considerados pobres pelos padrões internacionais, por exemplo, com rendas abaixo da mediana, de todo modo se consideram classe média baixa. Pessoas com renda 45 vezes maior que a mediana se consideram no máximo classe média alta.

Mas isso pode estar mudando. Segundo uma nova pesquisa Pew, houve aumento acentuado no número de pessoas que se chamam de classe baixa. E um aumento um pouco menor no número que se considera média baixa, e, por isso, nesta altura as categorias “baixas” combinadas estão perto da pluralidade da população. Na verdade, aproximando-se talvez de 47%.

Em minha opinião, trata-se de um desenvolvimento muito significativo. A política da pobreza desde os anos 1970 repousou na crença popular de que os pobres são Aquela Gente, não como nós, verdadeiros americanos trabalhadores. Esta crença está fora de contato com a realidade há décadas, mas só hoje a realidade parece estar se impondo. Mas o que isso significa é que os conservadores que afirmam que defeitos de caráter são o motivo da pobreza, e que os programas contra a pobreza são ruins porque facilitam demais a vida, hoje estão falando para um público com grande número de Não Aquela Gente, que percebem estar entre os que às vezes precisam de ajuda da rede de segurança.

Isso ainda tem um caminho a percorrer. Para os americanos no 86º porcentil: se vocês pensam que são classe média alta, realmente não têm ideia.

© Paul Krugman/2013 The New York Times

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