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Número 785,

Economia

Mercados

As crises cambiais

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 06/02/2014 05h56
Há quem ignore os desastres fiscais causados pelas viradas de mesa dos financiadores externos

"Emergentes elevam os juros para acalmar mercados”, proclama a manchete da Folha de S.Paulo na quarta-feira, 29 de janeiro. Os ditos emergentes – à exceção da China – estão a padecer as dores infligidas pelas expectativas dos mercados a respeito da mudança na política monetária americana.

A Argentina puxa o cordão dos desgraçados. Nuestros hermanos ainda pagam a conta do regime de conversibilidade que, entre outras façanhas, dolarizou a dívida pública e instigou a moratória. Os hermanos sobreviveram uns tempos à custa da exuberância das commodities, mas sucumbiram diante de outra reviravolta dos mercados globais.

As crises cambiais nos emergentes se repetem em tediosa e monótona cadência. A experiência das globalizações financeiras – aquela das três derradeiras décadas do século XIX, assim como a dos nossos tempos, a era do Lobo de Wall Street  – demonstra que os humores dos mercados financeiros globalizados, em sua insaciável voracidade,  impõe suas razões às políticas monetária e fiscal dos países de moeda inconversível que abrem suas contas de capital, surfam nos ciclos de crédito externo e se tornam devedores líquidos em moeda estrangeira.

Os títulos de riqueza denominados na moeda não conversível e os carimbados com o selo das moedas conversíveis são substitutos imperfeitos. Diante da hierarquia de moedas (o dólar é mais líquido que o peso ou o real), o teorema da paridade descoberta das taxas de juro não funciona. Isso permite aos mercados financeiros prosseguir sem sustos na peculiar “arbitragem” entre juros internos e externos, sem convergência das taxas, descontados os diferenciais de inflação esperada.

O câmbio flutuante fica à mercê das peculiares idiossincrasias dos mercados de ativos e os bancos centrais estão sempre obrigados a “sujar” as flutuações. As tendências à apreciação ou depreciação da moeda nacional dependem do estágio em que se encontra o fluxo de capitais e do maior ou menor “descasamento” entre os ativos e os passivos em dólar dos bancos, empresas e rentistas sediados no país de moeda inconversível.

Keynes chamou a atenção para o caráter negativo e assimétrico de um sistema internacional em que os problemas de liquidez (ou de solvência) dos países de menor poderio financeiro são enfrentados mediante a busca permanente da confiança dos mercados de capitais privados.

Os ideólogos da finança, mais por interesse do que por ignorância, concentram suas baterias, nos momentos de estresse, nas condições fiscais internas dos países de moeda não conversível.

A primeira geração de modelos pretendia explicar as crises cambiais mediante convenientes relações de determinação: partiam dos déficits fiscais, caminhavam para o excesso de absorção (demanda) doméstica e terminavam no abismo dos déficits em conta corrente. A fuga de capitais e as bruscas e intensas desvalorizações cambiais, com impacto desastroso sobre a inflação e as finanças públicas, eram atiradas às costas dos governos gastadores e irresponsáveis.

Não há quem aprove ou recomende desatinos fiscais e monetários dos governos. Mas há quem ignore os desastres fiscais e monetários deflagrados no Brasil dos 80 e 90, no México em 94, na Ásia em 97, na Rússia em 98, na Argentina do doutor Cavallo em 2001 pelas viradas de mesa dos provedores privados de financiamento externo.

(Às vesperas da crise asiática de 1997/1998, a Coreia dispunha de condições fiscais impecáveis: superávit nominal de 2,5% e dívida pública inferior a 15% do PIB. A missão do FMI, encarregada de analisar a situação da economia coreana, teceu loas aos sólidos “fundamentos”.)

As camuflagens grosseiras são desenhadas pelos sequazes da finança. Essas narrativas ocultam o elementar: trata-se da política e do poder do dinheiro vagabundo caçando rendimentos. Money chasing yield, como explicou o onanista e cheirador Hanna ao ganacioso Jordan Belford no filme de Scorcese.

Para os países de moeda não conversível, os juros e o câmbio se tornaram reféns das bruscas reações dos senhores dos portfólios globais diante dos rodopios e contradanças dos gestores da moeda internacional. Sob o comando dos humores da finança e da sabedoria de seus asseclas, os emergentes sacolejam os traseiros nos carnavais e rolezões da abundância de liquidez. (Enquanto os bacanas se refestelam nas utilidades do inútil, a indústria manufatureira das vítimas sofre as agruras das exportações minguantes e das importações predatórias.)

A festança termina nas quartas-feiras dos crashs de preços de ativos e na desvalorização das moedas.

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