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Número 785,

Cultura

Cinema

Antes tarde

por Orlando Margarido — publicado 01/02/2014 11h38, última modificação 01/02/2014 11h50
Gloria, grande atuação de Paulina García, chega aos cinemas neste final de semana e retrata a felicidade aos 60
Divulgação
Gloria

Gloria (Paulina García) vive o caminho das escolhas possíveis

Há uma Gloria memorável no cinema. Em 1980, John Cassavetes fez esta heroína, interpretada por sua mulher, Gena Rowlands, pegar em armas para proteger um garoto da Máfia. À sua maneira, outra Gloria, que dá nome ao filme do chileno Sebastián
Lelio em cartaz a partir da sexta 31, também radicaliza. Mas com um pintball. A referência a Cassavetes é bem-humorada, assim como o pique em geral da trama. Há, no entanto, um pouco de amargura e desilusão na tentativa da mulher na faixa dos 60 anos de buscar a felicidade ainda possível. Toda a sensibilidade de um difícil registro agridoce cabe à magistral interpretação de Paulina García, atriz originária do teatro em seu primeiro papel de protagonista. Por este, levou o prêmio de Interpretação na Berlinale do ano passado.

Foi durante o Festival de Berlim que CartaCapital conversou com a atriz e com o diretor. Lelio, próximo de completar 39 anos, dirige a atriz com conhecimento da velhice e carinho que impressionam. Escolheu um modelo próximo. “Me inspirei na minha mãe. Ela representa bem sua geração, aquela que teve a vida podada pela ditadura, não pôde fazer as escolhas possíveis e tentou, talvez tarde demais, ser feliz.” A era Pinochet não está citada explicitamente no cotidiano de Gloria, mas o suficiente para entendermos a lacuna em seu trajeto. Ela casou, separou-se, tem um filho adulto com quem mantém relação inconstante. Também fez uma carreira bem-sucedida. E agora, o que resta a esta avó? A mulher em tese completa, coroa enxuta e vaidosa, quer amar. Busca o parceiro, nem sempre perfeito. Adaptar-se a novas e velhas manias, também as dela, não é fácil.

Nem tudo, ou quase tudo, de Gloria se aproxima da vida de Paulina. Casada, dois filhos, ela surge mais velha para o papel. Também é mais contida e analisa a personagem com o rigor de quem a estudou à luz de uma realidade. “Há muitas pessoas como ela no Chile, que ficaram num limbo entre o fim do regime ditatorial e a redemocratização. Passaram então a se questionar, a procurar o que fazer, ou melhor, como refazer suas vidas.” A atriz inclui-se nessa angústia e por isso foi para o teatro alternativo. Que não se tire seu evidente talento, mas ela é em parte Gloria, e isso faz toda a diferença.

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