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Número 785,

Economia

Teoria Geral

A eutanásia do rentista

por Paul Krugman — publicado 03/02/2014 06h05, última modificação 03/02/2014 06h44
O fim do direito natural a bons retornos de capital com juros altos não será aceito graciosamente
Bfishadow / Flickr / Creative Commons
Nasdaq

Bolsa de valores de Nasdaq, nos EUA

Um leitor citou recentemente John Maynard Keynes: “Os principais erros da sociedade econômica em que vivemos são seu fracasso em oferecer pleno emprego e sua distribuição arbitrária e desigual de riqueza e rendas”. É claro que também é uma citação perfeita para nosso tempo. Está no último capítulo da Teoria Geral, o qual definitivamente suporta uma releitura à luz dos debates atuais.

Pois o que Keynes descreve nesse capítulo é basicamente uma condição da estagnação secular – de retornos de investimentos constantemente baixos, combinados com um excedente crônico de poupança. Ele acreditava, em 1936, que essa seria a situação dos negócios durante as décadas seguintes, e é claro que errou nisso. Mas não errou sobre a possibilidade dessa situação, e desde que Larry Summers, o ex-secretário do Tesouro, se revelou um estagnacionista secular algum tempo atrás, a visão de que talvez estejamos nela agora tornou-se corrente dominante.

O que me impressionou, lendo o que Keynes escreveu, foram seus comentários sobre as taxas de juro e o retorno do capital: baixas taxas de juro, ele sugeriu, “significariam a eutanásia do rentista e, consequentemente, a eutanásia do poder opressor cumulativo do capitalista para explorar o valor da escassez de capital”. Na verdade, pelo menos por enquanto, os lucros continuam altos – mas a renda dos títulos está muito baixa.

O que Keynes não disse, mas hoje parece óbvio, é que os rentistas provavelmente não aceitarão sua eutanásia graciosamente. E aí, eu afirmaria, repousa a explicação definitiva para o persistente clamor por arrocho monetário apesar das economias fracas e da baixa inflação. Descrevi em diversas ocasiões como os defensores do dinheiro justo estão constantemente mudando de argumentos – tem a ver com a inflação; não, tem a ver com o funcionário robusto do mercado; não, tem a ver com estabilidade financeira –, mas sempre com a mesma conclusão: as taxas têm de subir já.

Bem, o que eu acho que estamos ouvindo são as vozes dos rentistas – e daqueles que, explícita ou implicitamente, trabalham para eles – pedindo seu direito natural a ganhar bons retornos mesmo que o recurso que eles controlam não seja mais escasso, na verdade. Eles não estão dispostos a aceitar graciosamente sua eutanásia.

Não, isto não se trata do filme Trapaça (American Hustle). É um comentário sobre o interessante artigo de James Surowiecki na The New Yorker sobre o culto aos longos períodos de trabalho. Não discordo exatamente de seu argumento, mas colocaria a ênfase de modo um pouco diferente.

Em primeiro lugar, ele tem razão de que, para o que chama de trabalhadores do conhecimento – eu apenas diria trabalhadores de elite em geral –, todo o ethos do tempo mudou. Quando eu era criança em Long Island, havia uma clara hierarquia de classes nos horários do transporte coletivo. Os primeiros trens enchiam-se de trabalhadores braçais; quanto mais tardio o trem, mais ternos elegantes, com executivos que começavam seu dia às 9h30 ou 10 horas. Hoje é o contrário: há muitos ternos ambiciosos nos primeiros trens, e os mais tardios são muito mais misturados.

Então, de que se trata? Surowiecki enfatiza os incentivos dos empregadores, e sua dificuldade para levar em conta as consequências negativas sobre a produtividade. Minha sensação, porém, é de que o fator mais importante – ao qual ele se refere, mas não situa no centro – é a sinalização. Trabalhar um número insano de horas é um sinal de compromisso, de disposição a sacrificar-se pelo emprego; a destrutividade pessoal dessa prática não é um defeito, é característica básica.

Para ser justo, minha opinião é em parte moldada pela experiência pessoal. Nunca trabalhei em um banco de investimentos, graças a Deus. Na verdade, a única vez em que tive um emprego com um horário regular que exigia que eu vestisse terno todos os dias foi o período em que trabalhei para o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Reagan, de 1982 a 1983. Mas naquele tempo a importância do desconforto como prova de seriedade era avassaladoramente óbvia. Se você fosse ambicioso, usaria um terno com colete todos os dias. Em Washington, DC, em julho, isso é completamente maluco, mas esse era o ponto.

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