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Número 785,

Internacional

Ucrânia

À beira da guerra civil

por Gianni Carta publicado 31/01/2014 12h56
Viktor Yanukovych tenta evitar o pior, mas a tensão cresce dia a dia
Andrew Krachenko / AFP
Ucrânia

Os opositores ainda ocupam 4 prédios governamentais e exigem a demissão do presidente

Na noite de quinta-feira 30, a Ucrânia parecia à beira de uma guerra civil. Com problemas respiratórios e febre alta em seu palácio de cinco andares 40 quilômetros ao norte de Kiev, o presidente Viktor Yanukovych, de 63 anos, postou no website presidencial: “O governo cumpriu todas as suas obrigações”. E emendou: mas a oposição política continua a protestar. E como. Na Praça da Independência, imagens televisivas mostravam uma catapulta apenas, construída pelos manifestantes. Objetivo: arremessar paralelepípedos contra o Parlamento. Mais conhecido como Rada, nessa semana aprovou uma lei para anistiar centenas de manifestantes detidos ao sabor de leis draconianas a proibir protestos públicos e censurar a mídia, impostas pelo presidente.

A anistia só seria colocada em prática, contudo, quando os invasores de quatro prédios governamentais se retirassem. Algo que não parecia atravessar as mentes dos entrevistados pelas tevês europeias. “Só vamos deixar esta praça quando o presidente se demitir”, disse um indivíduo à BBC. A capital era cenário de uma guerra. Dentro dos prédios tomados pelos manifestantes havia remédios para os feridos e pessoas com máscaras e tacos de madeira ou barras de ferro. Com temperaturas abaixo de zero, vários dos manifestantes ocupavam tendas e outros prédios. Elena Lukash, ministra da Justiça, ameaçava pedir ao Conselho de Segurança Nacional a decretação do estado de emergência se a situação perdurasse.  

Os protestos tiveram início em novembro, quando o presidente Yanukovych resolveu não assinar um acordo de livre-comércio com a União Europeia. O motivo? A Rússia lhe oferecia preços menos elevados de gás, ao contrário do FMI, e mais empréstimos no valor de 15 bilhões de dólares. No entanto, como diz o jornalista e analista político ucraniano Oleg Varfolomeyev (leia entrevista à página 66), “a Rússia era contra o acordo com a União Europeia”. Na verdade, Vladimir Putin sempre foi contra qualquer acordo entre um antigo país satélite da defunta União Soviética e a UE. Para o ex-agente do KGB, as chamadas “esferas de influência” ainda vigoram.

De fato, em uma reunião de cúpula em Bruxelas, realizada nesta semana com os líderes da UE, Putin convidou peremptoriamente os presentes a deixar Kiev em paz. Moscou, acrescentou o líder russo, impassível, não faria o papel de intermediária na crise. Varfolomeyev lembra que a UE também não brinca em serviço em termos geopolíticos. José Manuel Barroso, o presidente da Comissão Europeia, “disse no ano passado que a Ucrânia não poderia assinar simultaneamente um acordo de livre-comércio com a UE e com a Rússia. A UE e os EUA também dizem à Rússia para ficar longe da Ucrânia”. Em todo caso, a mídia europeia reportou que Catherine Ashton, chefe da diplomacia da União Europeia, ficou “chocada” com a violência que viu em Kiev. Ashton, como Putin no caso das relações entre Moscou e Kiev, serve como intermediária entre Bruxelas e Kiev.

Além da anistia para os detidos, a terça-feira 28 foi marcada pela renúncia do premier Mykola Azarov e do seu gabinete em peso. Segundo Azarov, sua renúncia poderia engatilhar “uma solução pacífica” para o conflito. Entretanto, os motivos “pessoais” alegados por Azarov são questionáveis. Escassos dias a anteceder esse lance, Yanukovych havia oferecido os postos de premier e vice-premier aos oposicionistas Arseniy Yatsenyuk, e Vitali Klitschko, líderes, respectivamente, das legendas Pátria e Aliança Democrática Ucraniana pela Reforma. Na verdade, Klitschko, ex-campeão peso pesado pelo Conselho Mundial de Boxe, tem sido o principal e mais articula­do dos opositores. Ferrenho inimigo de Yanukovych, que considera corrupto e nepotista, o ex-lutador de boxe repete ao povo que os protestos só terminarão com novas eleições. Klitschko, de 42 anos, quer se candidatar à Presidência.

Ao mesmo tempo, Azarov não teria sobrevivido a uma moção de censura no Parlamento. “Vários políticos de sua agremiação acham que ele deveria ter renunciado há muito tempo para acalmar as paixões nas ruas de Kiev”, sublinha Varfolomeyev. De fato, chamar os manifestantes de “terroristas” não ajudou a imagem de Azarov. Houve pelo menos cinco mortos nos confrontos, centenas estão detidos e há uma caterva de desaparecidos. E o fato de Yanukovych ter reagido com truculência, à imagem de seu ídolo Putin, também instilou ainda mais raiva nos manifestantes. Os titushki, provocadores pagos pelo governo, criaram um clima de terror.  Por sua vez, os berkuts, forças especiais, torturaram e deixaram manifestantes nus nas cidades ou em florestas glaciais.

Existe, porém, uma palpável diferença entre quem protesta nos últimos tempos em Kiev e quem manifestou em Moscou. Em Kiev uma manifestação ainda pior do que qualquer recente protesto na capital russa ocorreu em 2004: a Revolução Laranja. A revolta teve início quando o candidato da oposição, Viktor Yushchenko, reformista e pró-ocidental, deu início a protestos sob o pretexto de que houve fraude eleitoral nas presidenciais daquele ano.  O pró-russo Yanukovych, tido como o homem por trás das fraudes, foi até parabenizado por Putin. Yanukovych, no entanto, foi obrigado a capitular. Aceitou um novo escrutínio, visto que a Corte Suprema anulou o anterior. Yushchenko venceu com 52% dos votos. Houve crises na sua Presidência, mas ele aproximou a Ucrânia da UE.

Finalmente, em 2010, Yanukovych venceu o segundo turno das presidenciais contra a ex-premier Yúlia Timochenko, aliada de Yushchenko na Revolução Laranja. Embora haja provas de que Timochenko, protagonista popularizada pelas suas tranças, abusou de seu poder, os motivos de sua prisão em 2011, condenada a sete anos, são políticos.

A corrupção faz parte da política ucraniana. É notável, por exemplo, como Yanukovych, de família pobre, tenha tido uma ascensão não somente política, mas também, e sobretudo, financeira. O atual presidente perdeu a mãe aos 2 anos de idade e foi criado pela avó. Delinquente na adolescência, após duas condenações por roubos e agressões, passou três anos atrás das grades. Em seguida, escolheu a carreira política para fazer fortuna. Protégé do ex-presidente pró-russo Leonid Kuchma (1994-2005), foi governador de Donetsk, cidade no sudeste do país, em 1997. Donetsk é até hoje seu feudo.

Yanukovych criou um clã político, conhecido como A Família. Seu filho, o dentista Alexandre, de 40 anos, fez uma das maiores fortunas do país. O palácio onde se encontra o adoentado presidente tem um terreno de nada menos que 137 hectares. Nele encontram-se um campo de golfe e uma pista para pouso de helicópteros, de fazer inveja até aos paulistanos endinheirados. Caso ele não seja derrubado, investimentos da China e da Rússia na Ucrânia, de 6 bilhões e 15 bilhões de euros, permitiriam ao presidente aumentar os salários e vencer as presidenciais de 2015.O país não está limpidamente dividido entre o oeste pró-ocidental e o leste pró-Rússia, como dizem numerosos observadores. Segundo Alexandra Goujoun, professora da Universidade de Borgonha, a divisão é norte/oeste a favor da UE e sul/leste a favor da Rússia. Ao mesmo tempo, os líderes oposicionistas vivem em um saco de gatos.

Nesta semana vimos Klitschko, o imponente lutador de boxe, discursar ao lado de Oleh Tyannybok, do partido de extema-direita Svoboda, ou Liberdade. Isso sem contar legendas ainda mais extremistas, no sentido de reacionária, que o Svoboda (se isso é possível), como o Pravyi Sektor (Setor de Direita). O Pravyi Sektor é formado por um bando de hooligans interessados em destruir o atual Estado para criar outro muito mais nacionalista. Os hooligans consideram o Svoboda conformista. E são contra a União Europeia.

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