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Número 785,

Internacional

Entrevista

“Ainda não chegamos à nova Guerra Fria”

por Gianni Carta publicado 31/01/2014 13h00
Em entrevista, o jornalista e analista político ucraniano Oleg Varfolomeyev diz acreditar que União Europeia e a Rússia estão em busca, apenas, dos seus interesses econômicos e geopolíticos
Gianni Carta

O jornalista e analista político ucraniano Oleg Varfolomeyev diz que por ora a União Europeia e a Rússia estão em busca, apenas, dos seus interesses econômicos e geopolíticos.

CartaCapital: Como o senhor vê a decisão do presidente Viktor Yanukovych, em novembro, de rejeitar um acordo de livre-comércio com a União Europeia e forjar laços mais fortes com a Rússia?
Oleg Varfolomeyev: Yanukovych precisava com urgência de empréstimos estrangeiros. No entanto, o FMI concordou em emiti-los somente se a Ucrânia elevasse o preço do gás para as famílias. Essa medida impopular teria levado Yanukovych à derrota na presidencial de 2015. Então, ele preferiu o empréstimo da Rússia, que era contra o acordo com a União Europeia desde o início. Portanto, devemos culpar tanto Yanukovych quanto o Ocidente para o que aconteceu. A UE deveria ter previsto o óbvio.

CC: José Manuel Barroso, o presidente da Comissão Europeia, disse que Kiev poderia assinar acordos com a UE e Moscou ao mesmo tempo. Vladimir Putin, por sua vez, disse aos líderes europeus para permanecerem longe de Kiev. Seria um linguajar de Guerra Fria?
OV: Não acho que chegamos a uma nova Guerra Fria, ainda. O Ocidente e a Rússia apenas buscam os próprios interesses econômicos e geopolíticos. Quanto a Barroso, ele disse no ano passado que Kiev não poderia assinar simultaneamente um acordo de livre-comércio com a União Europeia e ao mesmo tempo com a Rússia. A UE e os EUA também dizem à Rússia para ficar longe da Ucrânia.

CC: Seria correto supor que os manifestantes continuarão a confrontar as autoridades, uma vez que querem novas eleições?
OV: Esta não é a demanda principal. Oleh Tyahnybok, o líder da extrema-direita Svoboda (Liberdade), não quer novas eleições. Duvido que Arseniy Yatsenyuk, líder do partido Pátria, as queira. Nem todos os líderes da oposição estão preparados para um pleito. Além disso, presidenciais dificilmente fariam sentido agora com eleições agendadas para março de 2015. Idem em relação às legislativas. Legendas de oposição, como a Liberdade, de extrema-direita, podem perdê-las. Seu desempenho fantástico nas eleições de 2012 foi uma surpresa, mesmo para eles.

CC: Observadores dizem que Yuriy Lutsenko, ex-ministro do Interior, foi preso por motivos políticos assim como a ex-premier Yúlia Tymoshenko. Por que Tymoshenko ainda está na prisão, tanto mais a se considerar que está doente?
OV: Esses são casos muito diferentes. Lutsenko é inofensivo para Yanukovych em comparação a Tymoshenko, que tem um partido forte e lobistas ocidentais. Ambos agiram na ilegalidade. Lutsenko deu privilégios ilegais para o motorista. Tymoshenko ignorou procedimentos de gabinete quando concordou com um controverso contrato de gás com a Rússia, em janeiro de 2009. Aparentemente, seus antecessores também cometeram violações semelhantes. Mas só esses dois foram presos. Trata-se de justiça seletiva.

CC: Yanukovych também é acusado de corrupção.
OV: Antecessores de Yanukovych também foram acusados de corrupção e nepotismo. Estas são doenças crônicas de elites políticas e econômicas da Ucrânia. O filho de Yanukovych torna-se rapidamente um dos banqueiros mais ricos do país.

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