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Número 784,

Internacional

Rússia

Putin, o czar homofóbico

por Gianni Carta publicado 25/01/2014 10h15, última modificação 27/01/2014 08h52
Às vésperas dos Jogos de Sochi, o presidente confirma sua crença de que todo homossexual é pedófilo. Por Gianni Carta
Alexei Nikolsy / Ria-Novosti / AFP

V enham para os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, mesmo se vocês forem homossexuais, anunciou o presidente russo Vladimir Putin. Nada acontecerá com vocês, garantiu, sempre que deixem as crianças “em paz”. Para o ex-agente do KGB, rebatizado FSB, gays são automaticamente pedófilos. Seria interessante lembrá-lo: pesquisas científicas comprovam que 90% dos pedófilos são heterossexuais. Mas o presidente, aos 61 anos, não parece ser um iluminado.

Putin fez seu apelo para atrair a maior audiência aos Jogos, em contraposição aos ativistas dos direitos humanos, a incitarem turistas, e até atletas, a boicotar o evento no pacato balneário do Mar Negro. O motivo? Uma lei contra gays aprovada por Putin. A controversa legislação, em vigor desde junho de 2013, assedia, multa e prende quem fizer “propaganda gay ou pedófila” para menores de 18 anos. ONGs como a LGBT foram banidas do território russo.

Dmitry Isakov, ativista, foi a primeira vítima da lei. Seu crime: ficou no meio da rua na cidade de Kazan, capital do Tartaristão, Rússia, a empunhar um cartaz no qual se lia: “Liberdade para os gays e lésbicas na Rússia”. Isakov, de 24 anos, foi fichado na polícia, pagou uma multa de 100 euros e perdeu o emprego em um banco estatal. Não surpreende que a sorte de Isakov seja apoiada pela vasta maioria de seus conterrâneos. A Igreja Ortodoxa Cristã julga a homossexualidade um pecado, e apenas 16% dos cidadãos aceita relações íntimas entre pessoas do mesmo sexo. Paradas e eventos a defender direitos gays, ou a igualar a orientação sexual de gays com a de heterossexuais, podem resultar em multas de até 31 mil dólares.

Apenas 25% dos russos são cristãos praticantes, mas 90% julgam-se cristãos ortodoxos, uma “tradição russa”. Ou seria mais uma invenção de um povo em busca de uma identidade nacional, como diria Eric Hobsbawm? Nesse obscuro contexto, um ex-clérigo chegou até a propor um holocausto gay. Estigmatizados, homossexuais são tratados com violência. Quando um jovem gay de 23 anos revelou a amigos sua orientação sexual em Volgogrado, foi morto a socos e pontapés. Putin não condena publicamente esse gênero de violência. Embora não seja praticante, como seu antecessor Boris Yeltsin, o atual presidente usa o apoio da Igreja, que o julga um “milagre”.

O presidente de olhos glaciais repete que na Rússia não há proibição contra relacionamentos não tradicionais. Em entrevista para a BBC, disse não ter nada contra gays. E emendou: “Eu mesmo conheço algumas pessoas que são gays. E milhões de russos amam Elton John, apesar da orientação sexual dele”. O músico britânico, é óbvio, condena as leis anti-gay da Rússia. E aproveitou para falar sobre suas impressões durante uma recente visita a Moscou. “Homens gays e lésbicas de 20 a mais de 40 anos me falaram das ameaças que recebem de grupos de vigilantes, prontos a ‘curá-los’ da homossexualidade encharcando-os de urina ou dando-lhes uma surra.” Elton John disse, ainda, que, além de a nova lei banir a discussão sobre a homossexualidade, campanhas com informações para a prevenção do vírus da Aids são consideradas “propaganda”.

Putin, ícone de orgulho nacional porque foi agente do KGB na ex-República Democrática Alemã e é faixa preta de judô, é também um ícone gay mundo afora. O homem adora mostrar seu torso nu, considerado admirável pelos mais sedentários. Sempre sem camisa, ele aparece empunhando rifles a caçar animais perigosos, ou a cavalo, ou a pescar. Há quem diga que seria um excelente protagonista para a banda pop Village People. E, na esteira, sua viagem com o príncipe Albert II de Mônaco é comparada com a dos caubóis gays no filme O Segredo de Brokeback Mountain.

Putin, como seus fãs, vive no passado. Nas minhas várias visitas a Moscou logo após o fim do comunismo, ouvi russos repetirem que no país deles não havia Aids porque não lá não existiam homossexuais. O preconceito contra gays persiste como nos tempos dos czares que usavam o Estado para controlar as escolhas morais. Nos anos 1960 e 1970 gays eram considerados fascistas e pedófilos. E, quando a lei contra a homossexualidade foi revogada em 1993, não houve anistia para aqueles atrás das grades acusados de sodomia.

A crise econômica
reforça estereótipos. E o mesmo pode ser dito em relação a países a viver no passado. Os sete a aplicar a pena de morte para gays são muçulmanos. Em Uganda, gays passam a vida na prisão. Na Nigéria pegam até 14 anos de cadeia. O preconceito contra gays também reina na Europa. O conselheiro da legenda conservadora britânica Ukip, David Silvester, foi suspenso porque disse que os recentes dilúvios no reinado foram provocados pela adoção do casamento gay. Já na França, um movimento contra o casamento gay, recentemente aprovado, aglutinou grupos católicos, direitistas moderados e extremistas.

Que podemos esperar de Putin? Os Jogos de Inverno, os mais caros da história (avaliados em mais de 30 bilhões de euros), foram patrocinados por uma caterva de nebulosos investidores em um país onde reinam as máfias, ou, pelo menos, aquelas que não confrontam Putin. A mídia é censurada. Gays, espancados. Putin está no poder desde 2000. Não passa de um czar homofóbico.

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